Aqueles lábios

Na barbearia do Otávio entre os assuntos mais comentados estavam o futebol, filmes, política, trabalho e até novelas; vez por outra alguns comentários sobre os vizinhos; coisa que alguns chamam de fofoca; embora esse tipo de assuntos sejam raros nas barbearias. Aliás, numa barbearia se fala de quase tudo.

Já o Felisberto, dono de um bar ali perto, defendia que só gostava de falar de assunto de macho. Não gostava de falar e de ouvir as frescuras de hoje; novelas e outros programas de televisão. Felisberto tinha sua própria definição do que eram “frescuras”, inclusive nos atuais cuidados que os homens têm mostrado com a aparência.

Otávio mantinha sua barbearia com uma clientela exclusivamente masculina; e muitos eram do tipo – machão, mas nenhum se comparava ao Felisberto.

Alguns clientes passavam pela barbearia do amigo só para trocarem ideias; discutir futebol, política e até religião. Mas nem sempre a barbearia fora tão democrática. Foi a partir dos argumentos de Álvaro Antunes Carriel, conhecido radialista e corretor de imóveis na região, que a turma do salão do Otávio finalmente se convenceu de que discutir não é sinônimo de brigar, de se agredir, de se ofender. Álvaro demonstrava que é possível discordar em parte ou totalmente sem ofender o outro e nem ficar ofendido. Os clientes gostaram dessa posição.

Entre as mais variadas opiniões sobre temas polêmicos estavam questões ligadas ao machismo. Felisberto gostava de debochar dos seus filhos e dos genros porque faziam as sobrancelhas e unhas num salão que atendia homens e mulheres. Criticava homens que usavam brincos ou até por gostar muito de perfumes. Não só na barbearia, o bairro inteiro sabia que ele era o cara mais durão da área. Alguns tinham até receio ao falar com ele. Podiam ouvir um: “isso é viadagem”.

O barbeiro Otávio argumentava que não via problema nenhum em um homem se cuidar.
Álvaro ia além. Explicava para turma de amigos o que dizia em seus programas de rádio; “a intolerância é um problema de ignorância pública”. Dizia que tolerar já dava a entender que apenas suportar os outros ou suas diferentes opiniões era perigoso; enquanto humanos e sociedade devíamos ter e manifestar qualidades mais altruístas em vez de apenas suportar.

Certo dia, enquanto aguardavam sua vez de cortar o cabelo com o Otávio, o Cláudio, um jovem administrador, disse para o Juvenal que achava o ator George Clooney bonito. O Juvenal disse que o achava charmoso. Outros 3 clientes apenas se olharam, mas nada comentaram. Já o Felisberto se levantou e disse aos amigos:

– Falta agora as bonecas dizerem que têm fotos do cara no quarto ou na porta do guarda-roupas; igual meninas, adolescentes. Não. Esse mundo tá perdido. Olha, estou ficando com medo de vocês. Eu morro e não vejo tudo, ou vejo tudo e não morro!

Naquela tarde tudo acabou bem, apesar do – machismo do Felisberto.

Numa tarde de sábado Otávio estava com a barbearia lotada. Eram pelo menos 5 clientes aguardando. Já em meados de dezembro os campeonatos de futebol haviam terminado. Os clientes acabaram se concentrando no filme que passava na televisão – A Sombra e a Escuridão – Baseado em fatos reais, o filme mostrava a história da construção de uma ponte na África onde mais de 100 trabalhadores foram mortos por ferozes leões. Nos papéis principais, Val Kilmer e Michael Douglas.

Felisberto resolveu ir até a barbearia. Pensou em cortar o cabelo e se desse tempo fazer a barba, mas sem aquela massagem que Otávio fazia no rosto de cada cliente passando algum creme refrescante. Até isso era motivo para Felisberto pegar no pé dos outros.

“Sem frescura, nada de ficar me alisando”, costumava dizer o machão do bairro.

Ao entrar na barbearia do Otávio cumprimentou a turma com um forte – boa tarde.

Os clientes e o barbeiro respondem com cordialidade, mas estavam com os olhos e ouvidos grudados na TV tamanha a tensão de alguns momentos do filme.

De repente, enquanto Felisberto se senta, o João pergunta o nome dos atores. Álvaro, rapidamente, diz:

– Aquele à direita é o Michael Douglas. Mas o outro não estou conseguindo me lembrar o nome.

– Val Kilmer – diz com convicção e sem pensar duas vezes Felisberto, o machão da região.

Álvaro pergunta se Felizberto tem certeza. Felisberto se levanta diz:

– Absoluta! Ele fez o batman. Eu o reconheci pelos seus lábios.

Álvaro não quis voltar ao assunto, afinal de contas o cliente que estava na cadeira do barbeiro olhou imediatamente para trás. Otávio quase deixou a tesoura cair. Seu João levou a mão à testa. Outros disfarçaram; fingiram que nada tinham ouvido.

Felisberto notou que a turma da barbearia havia estranhado algo, mas o quê? Por que todos o olharam ao mesmo tempo e com tanto espanto? Felisberto sentiu-se constrangido com a reação e os olhares dos amigos. Perdeu a vontade de cortar o cabelo naquele dia.

Desejou um bom final de semana aos amigos e disse que voltaria na semana que seguinte.

No caminho, Felisberto foi pensando e falando em voz baixa: “Mas tenho certeza que é o Val Kilmer; o que deu naqueles caras, jamais confundiria aqueles lábios”.

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