Armadilhas

Foi Fernando Collor de Mello, protagonista do maior estelionato político da história brasileira, quem teve a coragem de peitar a indústria automobilística instalada no país. Foi, talvez, seu maior legado como presidente, porque abriu as fronteiras e forçou as montadoras a saírem do Passat, Chevette e Corcel e produzirem veículos com mais qualidade e segurança. No entanto, as “carroças”, como Collor chamou os carros fabricados no Brasil, não evoluíram como era de esperar.

 Grandes empresas com mercado mundial continuam produzindo, aqui, automóveis que são verdadeiras armadilhas sobre rodas, como disse em editorial, na semana passada, o jornal O Estado de S.Paulo.

O texto foi escrito em decorrência de um estudo realizado pela New Car Assessment Programme, organização apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e pela Federação Internacional do Automóvel. Não surpreendeu que os testes tenham confirmado o que já se suspeitava: a precariedade dos veículos faz da América Latina a líder em acidentes de trânsito com mortes no planeta.

As abordagens feitas acerca do tema ressaltam também aspectos como a má qualidade das pistas e a sinalização deficiente nas estradas. Mas a falta de air bags – item comum nos veículos vendidos nos países desenvolvidos – e de outros acessórios de segurança têm peso substancial nas estatísticas. Nesse ponto, estamos duas décadas atrasados em relação aos modelos comercializados na Europa, por exemplo.

No Brasil, as montadoras não investem na segurança dos veículos porque querem, mas porque a legislação é frouxa e o governo não tem interesse em comprar briga com um dos setores que mais empregam no país. Somente de janeiro a agosto deste ano elas remeteram US$ 4 bilhões aos países de origem como pagamento de lucros e dividendos.

Além disso, há um favorecimento escandaloso a essas indústrias, como foi provado com a alíquota de 30% imposta aos veículos importados fora do Mercosul e do México. Ou seja, além de deixar as montadoras fazerem o que querem, o governo criou um reserva de mercado que em nada contribui para o aperfeiçoamento técnico dos carros que produzem, especialmente na questão da segurança.

Com tudo isso, faltou dizer que grande parte dos acidentes, com ou sem mortes, decorre da imprudência dos condutores, porque também aqui há uma condescendência cavalar com os maus motoristas, que raramente são penalizados pelas barbaridades que cometem. Ou seja, estamos encurralados por maus fabricantes de um lado, e por barbeiros, de outro.

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