As cidades portuguesas de Mindelo e Póvoa de Varzim e o jingle no rádio

No final de semana saí de Braga para conhecer mais um pouco das terras lusitanas. A minha carinhosa cicerone foi a brasileira (e mineira!) Alessandra Lage, que mora aqui em Portugal. Ela é filha do professor José Olympio, do Uni-BH e é casada com um português, o Paulo Cunha. Fomos a duas cidades: Mindelo e Póvoa de Varzim.
Por Nair Prata

Mindelo é uma região industrial do norte de Portugal e possui muitas fábricas e armazéns de imigrantes chineses. O destaque da cidade fica por conta de um enorme shopping outlet que reúne as grandes marcas do mundo fashion a preços super acessíveis.

O centro comercial fica afastado da zona urbana e, alheios ao frio e ao vento que soprava intensamente lá fora, os consumidores faziam a festa lá dentro. Mas quem pode resistir a esta dupla dinâmica: boas marcas e preços baixos?


Igreja românica de São Pedro de Rates

Depois, fomos a Póvoa de Varzim, cidade litorânea que fica pertinho de Braga, cerca de 45 quilômetros. Póvoa tem 58 mil habitantes mas, no verão, a população sobe para 120 mil pessoas, milhares de turistas em busca do mar. É uma bonita cidade com uma extensa praia, que certamente deve fazer a delícia dos portugueses quando a tempo esquenta. Três coisas interessantes eu quero destacar de Póvoa:
 
1) A cidade tem um cassino que funciona todos os dias, com vários tipos de jogos. Vi o cassino só por fora, mas fiquei imaginando a movimentação lá dentro…
 
2) Póvoa tem um campo de tourada que, na primavera-verão, atrai turistas de todo o país. Fiquei sabendo que existem algumas diferenças da tourada portuguesa para a espanhola: primeiro que aqui em em Portugal é proibido matar o touro. Depois, aqui o toureiro é, na realidade, também um cavaleiro, pois ele se apresenta para o público montado a cavalo. Há também o “pega”: oito homens uniformizados (os “forcados”) fazem uma fila indiana e atiçam o touro. O primeiro da fila segura o touro pelos chifres, o último segura o bicho pelo rabo e os outros ajudam na imobilização do animal. O espetáculo termina quando o touro fica completamente dominado e começa a girar em círculos. Há até uma publicação dirigida aos interessados nas touradas portuguesas, um semanário chamado “Farpas”, com tiragem de 10 mil exemplares.
 
3) Por fim, uma curiosidade radiofônica: uma emissora de rádio de Póvoa transmite um programa diário de uma hora de duração em mandarim, pois é grande a comunidade chinesa na região. Não ouvi o programa, mas fiquei pensando como deve ser a experiência para os ouvintes da emissora que não entendem o mandarim.


Aqueduto do século XVIII.

Por fim, encerramos nosso passeio jantando num restaurante típico português. A Alessandra e o Paulo me levaram ao Albatroz, lá em Póvoa, e comemos um delicioso arroz malandro de polvo com filet de polvo panado. De sobremesa, rabanadas. Tive uma bela e calorosa recepção portuguesa, com certeza!
 
Com relação ao rádio, uma das coisas mais bonitas de se ouvir, na minha avaliação, é o jingle, pois ele dá cor e vida a qualquer intervalo comercial. Buscando na história, descobre-se que a propaganda comercial musicada começou a aparecer no Brasil no final do século XIX. Em 1882 foi distribuída gratuitamente a polca “Imberibina”, composta por Mariano de Freitas Brito,  falando das maravilhas de um medicamento para a digestão (SIMÕES, 1990). Já a primeira chapa gravada no país apresentava a mensagem comercial “Esta é uma gravação da Casa Édison do Rio de Janeiro”, na voz do locutor Nozinho.
Sinhô, o Rei do Samba, foi também grande compositor de peças publicitárias. Em 1927 compôs “Só na Casa Aguiar”; em 1928, “Força e Luz”, que ficou conhecida como Marcha ABEL – Associação Beneficente dos Empregados da Light. Também um jingle político marca a carreira de Sinhô. Atendendo ao pedido de uma agência de publicidade, ele compôs, para a campanha de Júlio Prestes à presidência da República, o samba “Eu ouço falar”, que o povo carinhosamente apelidou de “Seo Julinho”. O samba foi gravado por Francisco Alves (SIMÕES, 1990).
A história conta que o primeiro anúncio do rádio brasileiro é um jingle de 1932. Composto por Antônio Nássara e Luiz Peixoto e interpretado semanalmente por diversos cantores (Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis e Sílvio Caldas) um fado anunciava a Padaria Bragança, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. A letra dizia: “Oh, padeiro desta rua/ tenha sempre na lembrança/ não me traga outro pão/ que não seja o Pão Bragança./ Pão, inimigo da fome,/ fome, inimiga do pão,/ enquanto os dois não se matam/ a gente fica na mão./ Oh, padeiro desta rua/ tenha firme na lembrança/ não me traga outro pão/ que não seja o Pão Bragança./ De noite quando me deito/ e faço minha oração/ peço com todo respeito/ que não me falte o pão”. Neste mesmo ano as emissoras receberam autorização oficial para veicular anúncios e o governo federal começou a distribuir concessões de canais para particulares, aparecendo, assim, o rádio comercial.
No rádio mineiro, um dos casos antológicos com relação à propaganda foi relembrado há algum tempo por Élzio Costa, num encontro que nós tivemos no Studio HP, comandado pelo batalhador Paulo Joel, o Paulinho.
Élzio foi, durante muitos anos, diretor da Rádio Inconfidência, uma das grandes emissoras de Minas.  Ele fez o seguinte relato: “Havia um programa na rádio apresentado por Levy Freire e patrocinado por um medicamento chamado Urodonal. Na abertura do programa, era rodado o jingle do remédio, composto por Ari Barroso. O programa tinha a seguinte estrutura: uma pessoa da produção selecionava do catálogo um número de telefone e ligava para este número. Levy, então, já com o telefone no ar, dizia: “Aqui fala Levy Freire, da Rádio Inconfidência. Olá! Como se sente? Rim doente?” Para ganhar o prêmio de 50 mil réis, a pessoa do outro lado tinha que responder: “Tomo Urodonal e vivo contente!” E Levy anunciava: “Meus parabéns. Você acaba de ganhar 50 mil réis!” Certa vez, inadvertidamente, a produção do programa ligou para uma famosa casa de prostitutas de Belo Horizonte. Uma mulher atendeu e Levy soltou o bordão: “Aqui fala Levy Freire, da Rádio Inconfidência. Olá! Como se sente? Rim doente?” A mulher retrucou: “Ô, Levy, você está sumido! Tem umas meninas novas aqui, lindas, lindas…”Levy ficou na maior saia  justa e continuou: “Minha senhora, como se sente? Rim doente?” E a mulher prosseguia: “Que é isso, Levy? Você está me estranhando? Rim doente? O que é isso?” O Levy arrematou a conversa: “A senhora acaba de perder 50 mil réis!”. São as histórias do rádio mineiro…
Sites relacionados:
:: http://www.povoadevarzim.com.pt/monumentos.php
:: http://www.amigosdomindelo.pt/


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Por Nair Prata

Jornalista formada pela UFMG, Mestre em Comunicação pela Universidade de São Marcos e Doutora em Língua Aplicada pela UFMG. Trabalhos 18 anos em rádio. É professora do Centro Universitário de Belo Horizonte onde leciona no Curso de Jornalismo. Escritora, tem vários livros publicados.
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