As coisas desmanteladas

Um sonho e outras palavras são a narrativa da minha entrada na Santa Casa da Recuperação

Academídia | Crônica | Gumercindo Vieira

Estou preocupado com o andamento da minha razão. As mudanças recentes estão batendo a minha porta, lembrando-me de que aconteceram realmente. Finalmente sozinho. Faz tempo que eu não dramatizo meu próprio roteiro e não escrevo o drama da minha vida sem a participação de co-autores. Cansei, agora, os nobres colaboradores da minha história são juízes do meu delírio. Talvez eu admita, aqui, a importância do meu passado, mas como o talvez é só uma partícula incompleta, pulo para o próximo fio de raciocínio. Eu jamais admitiria publicamente que sou um porco. Ou melhor, jamais aprofundaria as razões disso. Apenas grito que ao subir 18 degraus deixei no 17° a política da boa vizinhança.

Não sei o que fazer com tantas sobras. Se eu fosse um pote de margarina jogar-me-ia no lixo. Se fosse uma vergamota iria para a boca de um glutão. Mas sou restos humanos de um coração que bate. Talvez me joguem numa lixeira humana. De novo, o talvez.

Resguardo-me num cordão de isolamento. Misturei, num pote de margarina vazio, paranoia e alucinação. Outros humanos me observam de longe e têm medo. Meu cheiro e o cabelo bagunçado os afastam. Não quero que ninguém pule para estar comigo.

Quero que eles frequentem esse abismo de lágrimas onde me jogo. Ninguém pode me salvar, talvez (talvez) a força da natureza e as folhas de uma árvore me abracem, senão, permanecerei em queda livre.

Agora, espatifado no chão, sou colocado numa cadeira enorme. Caberia outra pessoa confortavelmente ao meu lado. Estou em júri popular e há milhares de pessoas me olhando, todas prontinhas para a minha condenação.

Cobertos de uma túnica pomposa meus juízes riem e com a frieza que a vida lhes deu, mantêm suas bundas encostadas nas cadeiras pretas reservadas para o meu julgamento.

Estranho a falta dos rostos da minha rotina. O promotor público eu não conhecia. Nada dos amores do passado, inimigos e familiares. Amigos eu sequer tive.

Repentinamente dezenas de baleias azuis passaram correndo ao meu lado, fazendo com que eu entenda a gravidade da situação. Estávamos no deserto do Saara e nenhuma das pessoas que conheci viajaria até ali por tão pouco.

Elas seguiam compenetradas em seu cotidiano e vidas medíocres; em seus projetos insones; na busca da sua razão; na cadeia de seus amores, sonhando com resquícios de boa vida.

Mas elas vêm perseguindo a morte. Comendo cânceres, guardando angústias, adquirindo experiência, aperfeiçoando a mania de conservar rancor a sete chaves.

Eles fazem com que eu me sinta um hábil pastor de ovelhas melancólicas. Um exímio carcereiro dos bons sentimentos. Julguem-me, juízes da vida. Cumpram sua função e apliquem a lei de sua sentença sobre a cabeça de Zeferino Abreu.

Depois que aprendi a desprezar o peso das consequências, ganhei reforço mental para não sofrer com suas palavras inquisitórias. Profiram seus discursos amaldiçoadores e cheios da razão.

Estou louco. Acordei dessa confusão de pensamentos internado na Santa Casa da Recuperação. Ao meu lado, outros pacientes igualmente loucos, são alimentados por enfermeiras gostosas. Sempre me atraíram as enfermeiras. Deus, uma delas é loiríssima, mas chama-se Eloísa. Que nome feio.

Na cama à direita um velho caquético. Não basta chamá-lo de velho. Ele tem que carregar um adjetivo pejorativo. Rabugento e ranzinza são os mais comuns. Morram os velhos, morra velho a minha direita.

Do lado esquerdo, uma criança. Esta clínica não deixa pessoas da mesma faixa-etária nos quartos, pois diz-se que elas tendem a causar revoluções. Num manicômio, isso seria risco a normalidade do acontecimento das coisas.

Não sei quantos dias estou aqui. Sei menos ainda por quantos permanecerei. Vagamente recordo-me que foi mamãe quem decidiu onde eu ficaria. Ela me quer bem. Vou tentar virar meu corpo para a criança. Quem sabe se eu me jogar da cama chame a atenção de Eloísa. Caí.

O velho riu de mim. Eloísa não veio me ajudar e minhas costas doeram. Reclamei do desprezo da enfermeira e voltei a cama. Fechei os olhos e cobri os pensamentos daquele pretume que só os olhos fechados trazem. Vi o sorriso de uma reminiscência e depois não sabia se sonhava com a loucura ou se na loucura sonhava.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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