As duas fases de O Estado

Escola de toda uma geração de jornalistas, o falecido jornal O Estado ainda mora no coração de muita gente. Decadente, deixou de ser diário em junho de 2007, circulando apenas às segundas-feiras. Próximo do fim, a edição da semana de 13 de maio de 2008 não fazia qualquer referência à fundação ou à história do jornal. O último exemplar foi publicado no dia 29 de dezembro de 2008.

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O curioso é que, se o jornal fechou, acabou, desmanchou-se, derreteu, sua lembrança vive nos corações e mentes tanto dos que lá trabalharam, quanto de muitos de seus leitores, alguns dos quais fiéis, que resistiram até o último momento. O jornal deixou marcas profundas. Deve ser por isso que, durante tanto tempo, na longa e penosa agonia do jornal, tanta gente ainda torcesse por uma reviravolta, um milagre, uma retomada, uma ressurreição.

A história do jornal pode ser facilmente dividida entre antes e depois de 1972. Antes, O Estado era, como os demais jornais da capital, um veículo a serviço de uma causa, de um partido. Imaginem hoje, um governador recém-eleito anunciar que adquiriu o principal jornal da cidade. Foi o que aconteceu em 1947. Aderbal Ramos (PSD), com poucos meses de governo, tornou-se oficialmente o dono do jornal. Esse atrelamento partidário era considerado normal. A história da imprensa catarinense mostra que era essa a função principal dos jornais (e das primeiras emissoras de rádio).

O esforço de “profissionalização” promovido no final da década de 1960 pelo jovem José Matusalém Comelli (genro do dono do jornal), chamando alguns de seus amigos para ajudar a tocar o jornal, preparou o terreno para o que aconteceria em 1972. A profissionalização está entre aspas porque eram todos voluntários não remunerados. E todos ligados ao partido.

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Com o surgimento, em 1971, do Jornal de Santa Catarina, impresso em offset e feito por jornalistas profissionais, a maioria gaúchos, trazidos pelo Nestor Fredrizzi, diretor de redação, O Estado levou um susto. Em poucos meses também instalou seus novos equipamentos de composição e impressão e contratou uma equipe de jornalistas, vários dos quais haviam atuado no Santa. Começou aí a segunda grande fase do jornal. Em que, nos bons momentos (e foram muitos), publicou grandes reportagens que ajudaram a criar laços duradouros do jornal com os leitores.

Na redação, a partir de 1972, algumas dezenas de jornalistas tiveram suas primeiras experiências. E muitos mais tiveram boas vivências profissionais e humanas. Os encontros anuais que ex-funcionários têm feito, desde 2011, mostram que alguma coisa ficou, que os une e identifica.

Apesar da presença do “Dr. Aderbal” pairar como uma nuvem sobre a redação, nesta segunda etapa o jornal não era mais um instrumento partidário. Tinha sua opinião, mas se exercia ali jornalismo profissional, cujas limitações eram as comuns aos jornais médios e pequenos, que não contavam com o apoio de emissoras de TV. E, acredito, o momento em que o jornal O Estado chegou ao ápice de sua curva de crescimento e começou a sentir que em breve começaria a ter dificuldades, foi justamente quando o governador Antônio Carlos Konder Reis preferiu dar o canal de TV da capital para Maurício Sirotski, tirando José Matusalém Comelli e seus sócios catarinenses da jogada.

Foi ali, pelo que depreendi de uma entrevista que fiz anos depois com o Comelli, que ficaram claras as limitações e ele começou a antever o cenário sombrio que iria se configurar mais tarde, quando teve que enfrentar um concorrente que dispunha, para manter-se de pé, não apenas dos anunciantes e leitores, mas também do reforço que uma afiliada da rede Globo representava em audiência e apoio financeiro na década de 80.

A gente sempre achava que O Estado teria uma história longa e gloriosa. Não foi tão longa quanto gostaríamos e teve momentos que seria melhor esquecer, em especial nos anos finais, mas, para muitos de nós, é motivo de orgulho ter feito parte dessa história.

* Cesar Valente é jornalista, consultor de política editorial e designer gráfico. Foi cronista, redator, repórter e editor-chefe de O Estado, entre 1970 e 1988.

(Por Portal MakingOf, 13/05/2015)

1 responder
  1. eno josé tavares says:

    NA TERRA DO “JÁ TEVE” MUITA COISA TERÁ, SÓ FALTA TESÃO

    Sou de terra, céu e mar da minha saudosa Ilha Encantada. Na minha trajetória de vida, tal e qual aquela imagem “das pegadas na areia da praia”, atribuídas ao Nazareno, participei de muitas iniciativas, que resultaram em entidades e instituições, que mesmo remando contra a maré e “os do contra”, construimos muita gente e muitas coisas… Hoje,lamenta-se a respeito de tudo… “a negra ponte moribunda”, “as baías norte e sul transformadas empolgas aquáticas”, “com o lixo líquido de valas subterrâneas que chegam ao mar sem tratamento e destinação”, “temos coletas de lixo sólido e lixo hospitalar?” Temos quando não explode uma greve…”. “Tivemos uma TV genuinamente da terrinha, o Canal 6”. “Tivemos… Onde está? Nos ares da lembrança…”. “Tivemos um jornal extraordinário, denominado O ESTADO. Tivemos… Onde está ele? Na cova comum da memória acomodada de nós todos…”. “Lembro do epitáfio não registrado de sua morte…”. Certa Noite de terça-feira, na Avenida Mauro Ramos, dia de reunião da ACEMI (Associação Catarinense das Empresas do Mercado Imobiliário) Impetuosamente, tal e qual guasca das campanhas, eis que o gaudério Cury juntamente com sua entourage pampeira, traz a proposta: “jornal que circula aos domingos tem morte certa… Nós viemos para Santa Catarina e implantamos nossa sigla… Vamos implantar, assumir totalmente e impor nossas condições, nesse modorrento mercado midiático que ainda finge que existe… O jornal O ESTADO foi nessa… Apesar dos nossos alertas, os empresários do Mercado Imobiliário Catarinense sacramentaram as diretrizes do poderoso grupo que atuava também nos grandes emprendimentos imobiliários… Hoje, tal e qual viuvas de defunto falido,tecem loas a um quase centenário jornal. A princípio foram gerados espetaculares jornalistas, chargistas e talentosos comunicadores… Agora, na gélida noite eterna da saudade, resta-nos sómente o consolo de idosos da melhor idade relembrar momentos gloriosos que não voltam mais, pois a mania ficou, mas a necessária ereção de ânimo pifou por falta de tesão…

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