As forças do passado moldam o futuro

A tecnologia digital traz em si a promessa de uma revolução técnica tão significativa, capaz de alterar o  modo de produção da programação, de distribuição de sinais e a recepção da mensagem
Por Nelia R. Del Bianco
Revista da SET – 30/04/2006

Instantâneo e presente em toda parte, o rádio desafia distâncias, barreiras geográficas e fronteiras geopolíticas. Foi a primeira manifestação tecnológica de uma realidade virtual que ajudou a forjar as formas de pensar do século 20. Mudou mentalidades provincianas de horizonte estreito, ligando vilas e cidades ao que ocorria no mundo. O rádio teve fundamental importância na disseminação de costumes, idéias e ideais políticos e valores democráticos.
Ao longo do século 20, esse meio de comunicação tão popular passou por várias mudanças tecnológicas. No Brasil, o receptor a válvulas da década de 30, substituiu o pioneiro de cristal de galena, o que favoreceu a popularização do meio com a disseminação de aparelhos mais acessíveis. Na década de 60, o transistor contribuiu para o aparecimento de aparelhos portáteis, sem fios ou tomadas, que transformaram a audiência antes coletiva em individual. A expansão da FM, nos anos 70, deu vida nova ao meio que estava estagnado com o predomínio do AM. As novas emissoras trouxeram incentivo comercial ao meio que perdia espaço para a TV na disputa das verbas publicitárias, quando conseguiram aumentar a audiência graças a uma programação diversificada e com melhor qualidade sonora.
Na década de 90, a transmissão digital via satélite possibilitou a formação de grandes redes de emissoras. Sua maior vantagem foi oferecer cobertura nacional a um custo mais baixo. No limiar do século 2, o rádio expandiu seu alcance com a Internet. Emissoras em todo mundo colocaram seu sinal da rede, alcançando audiência global.
A transformação mais radical desde a invenção do transistor e da freqüência modulada ainda está por vir no Brasil: o rádio digital. A transmissão do sinal em bits (informação numérica) melhora de forma fantástica a qualidade de som do AM, passando a ser equivalente ao do atual FM. O ganho maior é do FM que terá som igual ao do CD. Com a digitalização, desaparecerão por completo interferências na transmissão de sinais nas freqüências AM e FM. Outra vantagem será a possibilidade de transmissão simultânea de dados para receptores de rádio com tela de cristal líquido, desde informações de trânsito, tempo, compras e prestação de serviços. Os modelos de aparelhos receptores digitais já disponíveis nos mercados da Europa e Estados Unidos são portáteis, multifuncionais, multimídia, permitem ter voz, vídeo, fotos, base de dados, opções do tipo unidirecional e funções interativas.
As vantagens da transmissão digital são, potencialmente, significativas e sugerem que essa revolução tecnológica irá revitalizar o rádio tanto no conteúdo quanto na forma de consumo. Uma delas é a diversificação do conteúdo, uma vez que a tecnologia permite a divisão do espectro em dois ou mais canais de áudio. Pesquisadores da área de várias partes do mundo apontam para a necessidade de uma “reinvenção” do rádio analógico para que possa se adaptar à nova tecnologia.
De fato, o surgimento de uma nova tecnologia carrega em si predições de toda ordem. Para os pessimistas, o novo destrói o velho irremediavelmente.
Enquanto os otimistas, agitam-se perante o estímulo do potencial e da perspectiva revolucionária do meio emergente. No entanto, é preciso cautela nessa análise.
O processo de mudança de um padrão tecnológico para outro é bem mais complexo. O professor norte-americano Roger Fidler (1997), um estudioso dos padrões de adoção e implantação de novas tecnologias, afirma que as novas mídias não surgem espontaneamente e independentes, mas emergem gradualmente a partir da metamorfose das velhas. O novo meio se apropria de traços dos existentes para encontrar, posteriormente, a sua própria identidade e linguagem. Diante das novas mídias, as tradicionais normalmente não morrem, ao contrário, adaptam-se e continuam evoluindo.
O curioso desse processo, segundo Fidler, é que as forças que moldam o novo são, essencialmente, as mesmas formas que moldaram o passado. Quer dizer, as mudanças podem parecer rápidas porque são muitas tecnologias de comunicação vindas ao mesmo tempo. Mas é engano pensar que surgem de repente. São trabalhadas em laboratórios durante anos e passam por uma série de testes, especialmente de viabilidade técnica e econômica, até chegarem ao grande público. Podem atravessar décadas até saírem dos laboratórios e serem comercializadas.
Mas até ser totalmente disseminada, uma nova tecnologia passa por aceleradores e freios. A indústria, o poder econômico, pressões competitivas e políticas, os processos de regulação atuam nesse processo dando impulso ou simplesmente barrando aquilo que julgam inconvenientes na dinâmica das forças em confronto naquele momento. Portanto, as novas tecnologias não são adotadas apenas por seus méritos e potencial inovador. Há sempre que existir uma oportunidade, assim como motivação social, política ou razão econômica para um novo meio tecnológico ser desenvolvido.
No caso do Brasil, as forças conservadoras do passado e do presente tendem a moldar a adoção do rádio digital aquém de seu potencial inovador. Uma evidência disso está na decisão de doze emissoras, em sete capitais brasileiras, de testarem o sistema de transmissão digital norte-americano IBOC (In-Band On-Channel).


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