As fugas da má fama – rua Conselheiro Mafra e o Beco do Segredo

Ah! Como é difícil falar sobre a Rua Conselheiro sem falar de sua história, que é no mínimo áspera, picante, cáustica. Como contar algo de um espaço que mistura num mesmo contexto histórico um comércio promissor, moradores de excelência, pensões e hotéis de ares concupiscentes?
Por Marilange Nonnenmacher

Ah! Esta é sua alma! Uma Alma mal afamada, que prazer! Desculpem-me os mais pudicos! Mas é esta mistura peculiar que lhe fornece o ar mal afamado de uma reputação incerta. Um perfume traiçoeiro nos pega ao atravessá-la, mesmo sem saber que os ares de marinha, de outros mundos, de outros valores lhe tocavam cotidianamente.
Como já mencionei em texto anterior, a Rua Conselheiro Mafra é herdeira de uma cultura marítima oriunda da ainda portuária Desterro/Florianópolis, por onde circulavam grupos da população que subsistiam das atividades desenvolvidas na região do porto, que ao ser desativado, alterou a rotina de parte desses grupos marginais que sobreviviam dos trabalhos informais nas imediações do cais. Ou seja, têm-se hábitos, práticas, comportamentos e valores advindos desse contexto histórico e que, colaboraram para a construção da má fama dessa rua no imaginário da cidade. Um lugar que, segundo dizem, abrigava práticas e hábitos insalubres e não-condizentes com a vocação de uma cidade que se pretendia desenvolvida como as grandes capitais brasileiras.  
Citando João do Rio (autor que me acompanha em minhas andanças), em A alma encantadora das ruas, existem “trechos de ruas em que se passa como se fosse empurrado, perseguido, corrido – são as ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam, e, em breve, são outros tantos passos ao nosso encalço”.
Pensando nisso, infere-se que, alguns trechos da Conselheiro Mafra, por terem abrigado um grande número de hotéis e pensões de características concupiscentes durante um período de sua existência, tornaram-se tipos de guetos, trechos considerados nocivos a boa moral. O receio era de percorrê-los e ouvir passos de perseguição, ou melhor, de sentir roçar na pele os olhares furtivos vindos de trás das cortinas, pelas brechas, guiados pelos valores morais de uma sociedade capitalista burguesa.
Os trechos considerados perniciosos e mal-afamados deviam, então, ser evitados. Para isso, muitos moradores que necessitavam se deslocar pela Rua Conselheiro Mafra em horários mais avançados, saíam “em fuga” pela Rua Felipe Schmidt, que era a mais freqüentada pela elite da cidade e que alinha paralelamente a Conselheiro Mafra. Tal prevenção se dava pelo receio que muitos/as sentiam de serem confundidos/as com os profissionais do sexo que circulavam pelas imediações e exibiam-se na frente dos hotéis e pensões.
Para dirigir-se então às casas localizadas nas últimas quadras da Rua, tinha-se a possibilidade de seguir pela Felipe Schmidt e descer por uma das vias que cruzam a Conselheiro Mafra, a mais próxima possível do local almejado. Como a rua caracterizava-se pelo comércio de todos os gêneros, a maior parte das residências concentravam-se para além do cruzamento com a Rua Bento Gonçalves.
Essas “prescrições” que normatizavam condutas nunca foram redigidas ou anunciadas, mas perpassavam “silenciosamente” o cotidiano de uma cidade de características ainda provincianas. Tais medidas se refletiam nos hábitos, vestuário, aparência, mas, acima de tudo, na cautela de manter-se no recôndito do lar após o encerramento do expediente comercial para fugir das comparações com aqueles indivíduos de “hábitos noturnos”.
Era o “fantasma da prostituição” que instituía as fronteiras simbólicas e que não deveriam ser ultrapassadas pelas moças e moços respeitáveis, como contou o Sr. Francisco Amante: “a rua não era percorrida pelas famílias à noite. Porque durante o dia havia o comércio normal, mas a noite era só para homens e prostitutas. Era difamatório e depreciativo para uma mulher direita que passasse ali”.
Porém, curiosamente, a Rua Bento Gonçalves, mencionada acima, também não gozou sempre de boa reputação. Ela era conhecida, em décadas anteriores, como “Beco do Segredo”. Na verdade ela se escapou da fatalidade de manter-se difamada tal como a Conselheiro. O tal beco de nome curioso foi citado por antigos moradores do Bairro da Figueira – bairro que se localizava nas últimas quadras da Rua Conselheiro Mafra e do qual falarei num momento oportuno. De acordo as lembranças desses narradores, o Beco do Segredo também revelava suas singularidades e é lembrado como reduto das sociabilidades rejeitadas, isso lá pela década de 1940.
Contam que, por ostentar pequenas casas com aluguéis mais módicos, o Beco do Segredo abrigava muitas famílias das mulheres que viveram separadas dos maridos e que ali se amontoavam com seus filhos. Afinal de conta, como disse a historiadora Joana Maria Pedro (1994), nesse período havia as “mulheres honestas e as faladas”. O preconceito da sociedade as estigmatizava como mulheres “separadas” e, porque maculadas, eram evitadas pela comunidade local. Por isso, os segredos do Beco.
Todavia, o antes afamado Beco – agora Rua Bento Gonçalves – é inscrito sob outra definição social pelo jornalista Saint-Clair Monteiro, no jornal O Estado, de 1975, considerado-o já como parte de um núcleo de moradores de “boa índole”. Presumo que os condicionantes que, anteriormente, o tornaram “Beco do Segredo”, diluíram-se entre as décadas e as metamorfoses urbanas e, em meados da década de 1970, o Beco passa a compor, então, a “linha” de separação entre o lado respeitável e o não respeitável da Rua Conselheiro Mafra. Salve, salve o segredo.
 


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Por Marilange Nonnenmacher

Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi professora colaboradora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Dedicou-se mais recentemente à pesquisa e estudo de hábitos e costumes da cidade de Florianópolis e da Ilha de Santa Catarina onde reside.
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