As mudanças e transformações na mídia de Florianópolis

Mudanças e transformações na mídia de Florianópolis no final da década de 60 e início dos anos 70

Paulo Brito

Há quatro anos eu vivia em Porto Alegre onde estudava jornalismo na Faculdade dos Meios de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica. O jornalismo que se exercia em Florianópolis, quando deixei a cidade, era politicamente engajado na Rádio Diário da Manhã ligada à família Bornhausen que comandava a UDN, União Democrática Nacional, no jornal A Gazeta, enquanto o PSD, Partido Social Democrático, liderado pela família Ramos, tinha seus veículos: a Rádio Guarujá e o jornal O Estado.

De um lado Jaime de Arruda Ramos e do outro Rubens de Arruda Ramos. Os irmãos defendiam os interesses de UDN e PSD em suas colunas diárias nos jornais A Gazeta e O Estado. Ainda circulavam os jornais Diário da Manhã e Diário da Tarde. Ouvia-se mais a Guarujá e a Diário, mas havia a rádio do Padre Quinto – a rádio Jornal A verdade, ligada a Igreja Católica que funcionava em Barreiros e que outrora pertencera a Manoel de Menezes. JJ Barreto, médico oftalmologista ligado ao partido PSP – Partido Social Progressista, trouxe de Curitiba –  Souza Júnior e Jamur Júnior para com um grupo de jovens de Florianópolis mondar a Rádio Anita Garibaldi e a cidade ganhou uma alternativa de entretenimento que não estava ligada ao ranço político da UDN e do PSD.

Era um tempo em que o rádio no Brasil perdia seus profissionais e contas publicitárias para as emissoras de televisão que se estabeleciam como rede nacional: Tupy, ligada ao grupo Associados e a Globo, ligada ao jornal O Globo, eram os novos meios de entretimento das noites brasileiras. A televisão começava a funcionar as seis da tarde, deixando o período da manhã e da tarde para as emissoras de rádios.

Agora sem patrocinadores e sem profissionais o rádio vivia de programas musicais destinado especificamente as mulheres, mas mantendo o gênero jornalismo esportivo em atividade, porque a TV não tinha os instrumentos, a tecnologia e mobilidade de hoje. O rádio por sua vez vivia uma nova era com os receptores transistorizados que permitiam o ouvinte levar seus rádios para onde desejasse. Do radião na sala de visitas, onde a família se reunia para ouvir noticias, novelas e programas de variedades, passara a ser um veículo individual.

Neste contexto passados 20 anos de implantada a primeira estação de televisão no Brasil, Florianópolis assistira as tentativas para que a capital de Santa Catarina tivesse seu canal de televisão. A primeira de forma ilegal, sem concessão e que funcionou no primeiro andar da antiga Confeitaria Chiquinho, reduto da velha Desterro que ainda sobrevivia apesar da decadência. A TV desapareceu com as dificuldades políticas inerentes e por um acidente provocado pelo Vento Sul, personagem da vida e da imaginação do povo. O vento Sul derrubou a antena que fora instalada no terraço do Hotel Lux, localizado em frente ao prédio da confeitaria. Por obra do destino ninguém se feriu ou foi atingido pelo que restou da antena. Silvestre abrira o capital e diante da tragédia e das dificuldades políticas refugiou-se em Tubarão, retornando anos mais tarde a Florianópolis como empreiteiro da TELESC.

Foi neste quadro que deixei a cidade em busca de conhecimento e de uma profissão, depois de ter sido reprovado no vestibular para medicina e de uma experiência como técnico em subestação da CELESC – Companhia de Eletricidade de Santa Catarina que encampava as empresas privadas e municipais, no mesmo instante em que a Sotelca – a Usina Termoeléctrica de Capivari ampliava o fornecimento de transmissão de energia para todo o Estado.

No retorno no início da década de 70 a cidade e o Estado viviam um momento de prosperidade com a instalação da TELESC – Telefônica Catarinense que nos moldes da CELESC ampliava seus negócios em todos os municípios e que contribuía para o desenvolvimento do sistema de telefonia. Pude voltar num ônibus rodando sobre asfalto pela BR 101. Depois de 20 anos a BR 101 estava pronta. Fora inaugurada e permitia mais rapidez para os automóveis, ônibus ou caminhões circularem de Curitiba a Porto Alegre, passando por Florianópolis numa via moderna e asfaltada. Era época em que a Universidade Federal de Santa Catarina se instalava no Campus da Trindade, onde ao lado construía-se a sede da Eletrosul – uma estatal de produção de energia elétrica que iria provocar a maior migração de pessoas de Tubarão, Porto Alegre, Rio e Brasília para Florianópolis. Nesta mesma época a TELESC e a CELESC construíam suas sedes administrativa no bairro do Itacorobi, ocupado por loteamentos mudando o panorama da cidade que vivera até então em torno da praça XV de Novembro. A cidade mudava, se transformava e crescia aumentando as necessidades das pessoas que chegavam para viver e morar na Ilha, com mentalidade e cultura diferentes do povo de hábitos provincianos que aqui vivia.

As viagens para outros centros deixavam de ser por navio. A CIA de Navegação Hoepcke  e o grupo entrava em decadência. Agora as pessoas viajavam de ônibus e avião. Não era mais preciso ir as Universidades de Curitiba e de Porto Alegre graduar-se. A cidade ganhava uma Universidade moderna com professores oriundos do Rio Grande do Sul  e do Paraná, que juntaram-se com os que aqui trabalhavam dando uma nova visão na formação intelectual aos jovens da cidade e do estado que vinham em busca de conhecimento, de um ofício e de uma profissão.

A cidade deixava aos poucos o hábitos que ainda marcavam a cultura local desde o início do século passado, ligada ao poder que emanava do Rio de Janeiro, capital federal e que desde o Império influenciava na vida local. Hábitos como passar as férias de inverno no Rio e receber parentes no verão acabara. Nas praias do Norte e do Sul da Ilha apenas os descendentes de alemães cultivavam a cultura do turismo. O veraneio era realizado nas praias da Baia Sul e Norte da Ilha e do Continente, que começavam a se deteriorar por causa da poluição.

Blumenau fora pioneira na instalação da primeira emissora de rádio em Santa Catarina, a Rádio Cultura lá pelos anos de 1930. Agora em  2/9/1969 a família Melro e Caetano reunidas criavam e instalavam em Blumenau a primeira emissora de televisão a TV Coligadas, que retransmitia a programa da Rede Globo, no ano seguinte em 31/5/1970 um grupo liderado por Darci Lopes fundava a TV Cultura e adquiria a rádio Anita Garibaldi que passar a ser chamada de Rádio Cultura. A programa em Florianópolis, ainda em preto e branco era da TV Tupy, pertencente ao Grupo dos Diários Associados liderados ainda por Assis Chautobriant (?).

As rádios viviam os últimos dias da programação liderada pelos disc jockey e os mais famosos eram Walter Souza, Fenelon Damiani e João Ari Dutra. Os programas de auditório, novelas, humorísticos e musicais há muito haviam deixados de existir. Os anunciantes agora investiam na TV. Os disc jockeys eram os novos artistas e neste novo mundo a cidade ainda era informada pelo Rádio e em especial pelo programa Vanguarda capitaneado por Adolfo Ziguelli que com José Valério  fazia a cidade parar entre meio dia e vinte até uma hora.

Era um tempo em que as pessoas almoçavam em casa, o comércio fechava as portas ao meio dia e não havia tantos restaurantes como agora. Vários personagens criados pelo programa a imagem e semelhança de personagens da vida cotidiana da cidade ganham vida nas vozes de Ziguelli e José Valério. Ao som de trombetas o povo parava para ouvir o Informe Confidencial ou os editoriais escritos e interpretados por Ziguelli.

Os jornais. Bem os jornais da cidade: A Gazeta, Estado e Diário da Tarde ainda eram compostos em linotipos e impressos em impressoras planas como nas velhas gráficas do século passado. Apesar da fundação do Jornal de Santa Catarina do grupo Coligadas estar funcionando desde o dia primeiro de setembro de 1971, ele ainda não conseguira ganhar prestígio e credibilidade. Apesar de um subterfúgio do editor Nestor Fedrizi de colocar na capa Santa Catarina, 1 de setembro de 1971, e não Blumenau. O jornal ainda era visto como um jornal do interior. Moderno, mas sem alcançar o sucesso na capital.

Um ano depois, em dezembro de 1972, quando voltava para a cidade graduado em jornalismo o Jornal O Estado se modernizava, rodava em rotativas e era impresso em off set. Um grupo de jornalistas oriundos de Porto Alegre, alguns com passagem pelo Jornal de Santa Catarina se juntaram aos antigos redatores, editores e colaboradores do velho O Estado, que na falta de uma escola de jornalismo recrutou estudantes de Direito na UFSC para treiná-los e transformá-los em jornalistas alguns deles como Aloísio Amorim e Orlando Tambosi, mesmo depois de graduados em Direito permaneceram jornalistas.

O noticiário da Rádio informava o povo que ainda esperava o avião da três da tarde chegar para adquirirem os jornais O Globo, vendido com estardalhaço por um personagem folclórico da ilha,  o Jornal do Brasil, Correio do Povo de Porto Alegre e o Estadão de São Paulo. Estes jornalões circulavam na elite empresarial, cultural e política da cidade moldando a opinião pública. O Estado e o Jornal de Santa Catarina informavam sobre os fatos regionais apesar de terem editorias nacionais, mas não competiam com os grandes jornais. A Gazeta servia como “classificados” para quem deseja comprar ou alugar algum imóvel. O Diário da Tarde fechara suas portas. A Gazeta ainda conseguia opinar sobre política, esportes e mantinha uma Coluna Social editada e produzida por Celso Pamplona, figura alegre e divertida da cidade que nas manhãs de cada dia enchia uma sacola de papelão com exemplares de A Gazeta e entregava a cada pessoas citada ou que anunciava na coluna.

As emissoras de rádios Guarujá, Cultura, A Verdade e Santa Catarina produziam noticiários nos horários tradicionais do Repórter Esso calcado no velho processo da “gilete press” e na rádio escuta das emissoras de rádio de São Paulo, Rio e Porto Alegre.  Local só relesses oficiais e mais tarde produzidos pela DICESC – uma estatal criada no governo de Jorge Bornhaunsen, presidida por Flávio Coelho que fora Diretor Comercial do Grupo Coligadas e Jornal de Santa Catarina, assessorado por Antônio Soares que fizera carreira no jornal A Nação de Blumenau.

A audiência era cativa no Vanguarda, que serviu de moldes para o que foi o programa da TV Catarinense, hoje canal 12 da RBS, em Florianópolis. Além dos personagens criados e vividos nas vozes de Ziguelli e José Valério, o programa tinha a colaboração de Moacir Pereira como repórter, Xeixas Neto como bruxo e Augusto Casér como Homem do Tempo.

Como jornalista recebi um convite para integrar o novo grupo de o Estado, mas como nas férias de verão de 1971 havia colaborado com a Sucursal do Jornal de Santa Catarina em Florianópolis, tinha me comprometido em escutar a oferta do JSC antes do Estado. Mário Medaglia que trocara Blumenau por Florianópolis me convidou, mas minha palavra estava empenhada com Aírton Kanitz, chefe da sucursal do JSC na capital.

Entre as ofertas decidi pelo Jornal de Santa Catarina. Ali JB Scalco era o fotógrafo, Acácio repórter, Aírton Kanitz editor e Virson Olderbaun repórter e redator. As cinco horas o carro que trazia os jornais para serem distribuídos nas bancas da capital e serem despachados para o Sul voltava para Blumenau e levava os textos e as fotos da produção diária.

O que acontecesse depois das cinco seguia por telefone. Havia uma espera a cada vez que pedíamos uma ligação para Blumenau. A redação e a oficina do jornal funcionava numa velha fábrica de chapéus que falira  instalada na rua São Paulo, quase em frente a escola do SENAI. Uma hora depois o repórter responsável pela matéria depois da cinco ditava para uma datilógrafa que com uma máquina de escrever manual e o fones no ouvido transcrevia as informação que depois chegava a mesa do editor.

O aparelho de radiofoto e o telex apareceram muito depois. Neste contexto Adolfo Ziguelli que editava o Vanguarda na Rádio Diário da Manhã escrevia uma coluna diário de política, apresentava um programa de TV, em Blumenau para onde ia todas as sextas-feiras e em parceria com Aírton Kanitz escrevia dia alternados uma crônica sobre esporte.

Era uma época em que os jornais e as rádios davam mais atenção dos clubes de futebol do Rio de Janeiro do que os clubes locais. Mudei. Com Scalco comecei a colocar notícias e fotos de jogadores dos times locais, descrevendo os jogos e escolhendo personagens que aos poucos ganhavam vida em Tubarão, Blumenau, Itajai, Joinville: Major Ortiga, Zezé, João Salum, Caco, Luiz Everton, Chico Samara, Marcos Cavalo, Lauro Búrigo, Ibere Rosa, Jorge Ferreira, Dacica, Moacir, Pelezinho, Adairton, Moenda, Zeno, Romerito e tantos outros jogadores de futebol da década de 70 passaram a se verem no jornal.

A cada dois dias na semana Ziguelli e Kanitz transferiam a responsabilidade de escrever a coluna Nossa Jogada e assim de uma dia para o outro passei a ser titular, sob a desculpa de um e do outro que não tinham tempo. “Escreve ai!”. Poucos meses depois Ziguelli e o Coronel Simões, a eminência parda da Rádio Diário da Manhã me convidaram para participar do programa Vanguarda que ainda sobrevivia e iria sobreviver até a saída de Ziguelli para compor o governo de Antônio Carlos Konder Reis e de José Valério subir o morro da Cruz para atender um convite da TV Catarinense.

Era um minuto no Vanguarda. O Cel. Simões queria me pagar por um minuto, mesmo que eu tenha dito que trabalhava o dia todo para ter um minuto de informação. “Mas tu só falas um minuto”, argumentou. Diante da minha negativa Ziguelli e Kanitz me convidaram para um churrasco no Cristal Lanches Bar de propriedade de Dorival da Silva Lino, avô do Carlos Eduardo Lino, onde Ziguelli, suas fontes e Kanitz se reuniam. Com o argumento de que o rádio era popular, de que me transformaria num personagem popular, que isso me seria útil e coisa e tal acabei concordando.

Voltei ao rádio uma experiência que vivera me Porto Alegre na Rádio Farroupilha com um grupo de alunos da FAMECOS, convidados por Ênio Melo que junto com velhos profissionais da rádio colocaram a programa esportiva de volta a velha emissora líder no Rio Grande do Sul no ar por três meses, quando acabou a aventura em virtude da decadência que vivia o Grupo Diários Associados.

Permaneci na Diário da Manhã e no Vanguarda até o retorno de Fernandes Mendonça velho narrador da emissora e que voltava depois de anos atuando na Rádio Bandeirantes de São Paulo. Desempregado e precisando trabalhar Ziguelli me convenceu e me demitiu. Dali fui para a Jornal A Verdade trabalhar com o grupo liderado por Miguel Livramento, Newton César Viegas, Murilo José Lino, Carlos Alberto Campos e Brigído Silva que produziam, apresentava, transmitiam e editavam esportes na rádio Jornal A Verdade.

Quando o Figueirense Futebol Clube participou pela primeira vez de um campeonato nacional, Roberto Alves que comandava o esporte na TV Cultura me convidou para comentar as transmissões de futebol, experiência que não teve vida longa. Na época me transferira do JSC para O Estado. Enquanto profissional do JSC participei de alguns programas e de transmissões esportivas da TV Coligadas.

Ainda passei pela Diário da Manhã, Cultura e Guararema como comentarista esportivo, mesmo estando ligada a Sucursal da Cia. Jornalística Caldas Júnior que editava em Porto Alegre os jornais Folha da Tarde, Folha da Manhã, Correio do Povo que circulavam em Santa Catarina com predominância no Oeste. A empresa ainda era proprietária da Rádio Guaiba, emissora líder no Rio Grande do Sul. Na rádio participei dos programas Agora, Linha Aberta e Plantão Esportivo. Amir Domingues, Antônio Augusto e Adroaldo Streck tendo na produção e direção Antônio Britto e Cleiton Celistre.

Deixei o rádio e o jornal para ingressar na Universidade Federal de Santa Catarina em dezembro de 1978, como membro fundador e responsável pela implantação do primeiro Curso de Jornalismo  no Estado. Durante vinte anos fui professor, coordenador e chefe de departamento, tendo inclusive colaborando com as emissoras de rádio e de televisão sem compromisso, mas com a finalidade de abrir mercado para os alunos do Curso.

Ao me aposentar da UFSC em 1998 aceitei um convite para trabalhar na criação do programa Debate Diário na rádio CBN-Diário, a antiga Diário da Manhã que ingressara a convite de Adolfo Ziguelli em 1972. Desde então estou na RBS participando como comentarista esportivos de diversos programas na rádio, TVCOM e RBSTV.

Florianópolis, 22 de julho de 2004
Paulo Brito
Filho de Otávio Pereira Brito
e de Maria José da Cunha Brito
Natural de Florianópolis, nascido em 06 de junho de 1934
A família é oriunda das aldeias – na época – Vargem Pequena e Canasvieiras. Meus familiares eram descendentes de pequenos comerciantes, pescadores e agricultores do Norte da Ilha. Virei jornalista pela amizade com Paulo Dutra e Nilson Cardoso que trabalhavam no Palácio do Governo e por convite de João Goularte para ir a Porto Alegre fazer vestibular na PUC que depois os irmãos maristas do Abrigo de Menores cederiam uma bolsa de estudos. Até hoje espero a Bolsa e João morreu sem ter ido a Porto Alegre comigo.

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Por Paulo Brito

Jornalista, professor e cronista esportivo. Integrou o grupo de trabalho que decidiu pela criação do Curso de Jornalismo da UFSC. É autor do livro “Dás um banho Roberto Alves – o rádio, o futebol e a cidade. Trabalha em rádio participando de programas de debates. Atua como consultor voluntário do Instituto Caros Ouvintes.
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