As novas ferramentas

Vou convidá-los para uma viagem ao passado. Não um passado muito remoto. Voltaremos apenas algumas décadas, até o comecinho de janeiro de 1991, uns 23 anos atrás, se a matemática não me falha.

Esta pequena ainda era o xodó de muito jornalista naquela época: a Lettera 22

Esta pequena ainda era o xodó de muito jornalista naquela época: a Lettera 22

Na primeira semana daquele janeiro terminei de escrever um artigo, em que tentava entender e discutir as novas tecnologias que estavam surgindo e que tinham chegado há pouco ao Brasil, envelopadas num nome complicado e, na época, desconhecido de muitos: “desktop publishing”. Mostrarei, mais abaixo, o artigo que escrevi naquele verão de 1991. Mas antes, acho que devo situá-los no tempo.

Não havia internet. Tim Bernes-Lee publicou a primeira página do que ele chamaria “W3? (www, de world wide web) só em agosto de 1991. O primeiro sistema de telefonia celular no Brasil tinha sido inaugurado em novembro de 1990, no Rio de Janeiro.

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Os melhores PCs de 1991 eram mais ou menos assim. E nem todos tinham mouse.

Os computadores eram ainda raros, caros e ruins. Resultado da reserva de mercado com que o governo brasileiro pretendeu proteger a indústria nacional e que só conseguiu atrasar-nos vários anos. O governo Collor (iniciado em março de 1990), estimulou uma rejeição às “carroças” produzidas localmente e todos começaram a pensar em como “modernizar” seus equipamentos. Os jornais colocaram computadores (no início eram apenas terminais de um mainframe) na redação, para uso de seus jornalistas. A máquina de escrever ainda era muito utilizada.

Mas havia, no ar do mundo da produção gráfica, essa revolução que começara nos Estados Unidos e na Europa há alguns anos, mas já estava também chegando ao Brasil.

Foi nesse clima que escrevi o artigo. Relendo-o agora, vejo que ele continua útil para discutir o uso das tecnologias que surgiram bem depois. O espanto que as “novas mídias” causam entre jornalistas é muito semelhante ao espanto que o “desktop publishing” causou. Por isso, também, trato de publicá-lo (ou seria republicá-lo? não lembro se saiu em algum local antes).

AS NOVAS FERRAMENTAS

Por Cesar Valente (2 de janeiro de 1991)

“Não tenha medo de pedir ajuda a um projetista gráfico ou consultor para o seu projeto. Ainda não existe software equivalente a um projetista gráfico humano”. (Sandy e Carl Townsend in Ventura, Dicas e Técnicas, página 53).

As primeiras ferramentas: lápis e papel.

As primeiras ferramentas: lápis e papel.

Em 1970, subi as escadas estreitas e barulhentas do antigo prédio do jornal O Estado, na rua Conselheiro Mafra, em Florianópolis, durante vários meses, todas as sextas-feiras, para entregar meu artigo que deveria sair na edição de domingo. A escada rangia a cada passo e lá em cima, entre aqueles móveis escuros, várias pessoas batucavam em máquinas de escrever, compondo uma sinfonia que só se completava no sábado. À tarde eu descia a rua Bento Gonçalves para escutar, pela providencial abertura de uns vidros quebrados, o barulho das linotipos e de uma rotoplana tipográfica.

O velho sobrado de esquina tinha essa particular facilidade. A ladeira da Bento Gonçalves (paralela à Padre Roma) permitia uma visão geral das oficinas do jornal O Estado a quem se dispusesse a espiar, acocorado ou sentado na calçada, pelas janelas do térreo. E em muitos sábados passei horas ali, espiando. Sentindo aquele cheiro inesquecível de uma velha, honesta e boa oficina gráfica. Os ruídos metálicos, a barulheira, os linotipistas tão sujos de tinta quanto os impressores, compunham um mundo à parte. Para mim, tão fascinante quanto aquele que existia no primeiro andar. Mas, sem dúvida, eram dois mundos.

Baixar matérias, naquela época, certamente tinha um sentido literal. Tratava-se de descer as folhas datilografadas para a oficina. E também as folhas manuscritas dos colaboradores mais tradicionais, que se recusavam a aceitar como intelectualmente estimulante a intermediação fria e tosca daqueles aparatos rudes e complicados: as máquinas de escrever.

Letra a letra, os tipos móveis de chumbo, a revolução de Gutenberg

Letra a letra, os tipos móveis de chumbo, a revolução de Gutenberg

Espetáculo! Composição a quente, linha a linha, na prodigiosa Linotipo

Espetáculo! Composição a quente, linha a linha, na prodigiosa Linotipo

Lá embaixo, catando tipos nas caixas como galináceos hábeis e ávidos, os componedores montavam linhas com uma rapidez inacreditável. Os textos de corpos menores, maravilha das maravilhas, já podiam ser compostos em máquinas de extrema engenhosidade e ainda mais rápidas, as linotipos. Hoje, é claro, me dou conta de que este cenário que me fascinava a cada descoberta, já era anacrônico em 1970. Mas todos os jornais de Santa Catarina, em 1970, eram feitos assim. A tecnologia mais moderna que estava à disposição, para ser observada, cheirada, ouvida e tocada (dias e dias com aquela tinta entranhada nos dedos, por dentro dos sulcos das linhas digitais, sem sabão que resolvesse) era aquela.

Todas essas reminiscências sem qualquer valor aparente me ocorreram quando pela primeira vez consegui, em 1990, redigir um texto, diagramá-lo, compô-lo, fazer a arte final e gerar uma prova tipograficamente perfeita, sem usar lápis, régua, borracha, caneta, máquina de escrever, papel (a não ser, claro na impressão da prova final) ou qualquer aparato de impressão por pressão. Enfim, nenhum dos instrumentos com os quais durante 20 anos convivi rotineiramente. Tinha acabado de aprender a utilizar um “software” de desktop publishing. Uma gráfica de mesa, uma editora de escrivaninha ou que tradução idiota a gente quiser produzir.

O Ventura Publisher 2.0 foi o primeiro software de edição que utilizei

O Ventura Publisher 2.0 foi o primeiro software de edição que utilizei

Comecei a imaginar uma redação, como aquela do jornal O Estado de 1970, onde um redator sentasse diante da linotipo e escrevesse ali, dispensando os operadores. E assim que o texto estivesse pronto, ele próprio tirasse a prova e o revisasse. Dispensando os revisores. Feitas as correções, o redator trataria de montar sua página, amarrando as colunas, colocando títulos — compostos manualmente também por ele — dispensando o paginador. A esta altura os dispensados já estariam a um canto da oficina, preocupados, conversando entre si sobre as providências a tomar e o redator, com sua roupinha de boêmio completamente suja. Finalmente, a rama com a página completa (poderíamos, só para complicar, pretender que a página tivesse alguns clichês de traço ou retícula, não?), o entintamento e a prensa de provas. Pronto, estaria criada a redação integrada, o “one-man-publishing”.

Trata-se, de fato, disso. O que os computadores permitem ou possibilitam não representa, a rigor, nenhuma alteração significativa no fazer jornalístico. Não há novidade informatizada que os jornalistas devam obrigatoriamente conhecer a fundo. Podem continuar preocupados com o jornalismo, sem procurar atalhos na computação ou informática. Há, isso sim, novas ferramentas. Como aqueles colaboradores que levaram décadas para deixar de escrever à mão (com uma bela letra, é verdade) e passar a utilizar a nova ferramenta que se popularizou depois da guerra, a máquina de escrever. Alguns morreram sem fazer essa concessão. Mas o que, de fato, significou a máquina de escrever para o jornalismo? Jornalistas mais brilhantes, com textos melhores? Ou só maior rapidez e meios facilitados de leitura? Meio século depois é possível afirmar que quem não souber o que fazer com as palavras tendo um singelo lápis na mão, dificilmente saberá o que fazer diante de uma Remington Rand. Por mais que freqüente cursos de datilografia. A ferramenta é, ela própria, burra.

Hoje, contudo, vejo com alguma tristeza que muitos profissionais que julgava esclarecidos, inteligentes, estão assustados, mitificando as novas ferramentas que jorram em quantidades tão espetaculares quanto a rapidez com que se tornam obsoletas.

Poder fazer tudo o que era feito nos dois andares do velho jornal O Estado da Conselheiro Mafra sem sair de uma única e confortável cadeira de escritório e sem ter que utilizar nenhum outro profissional é, de fato, uma coisa tão fascinante quanto sentir o cheiro da tinta de imprimir e ouvir os ruídos das linotipos e impressoras pela primeira vez. E vai provocar, sem dúvida, alterações importantes no modo de produzir publicações impressas. Só que o uso dessas ferramentas não será mais fácil para especialistas em computadores ou matemáticos, ou engenheiros. Será mais fácil para quem saiba o que fazer com um espaço em branco. Para quem saiba como dizer, narrar, construir imagens, traduzir a realidade, informar. Fácil para jornalistas que encarem tais instrumentos como instrumentos, como ferramentas. Sem atribuir-lhes propriedades que não têm.

A verdade é que levaremos ainda algum tempo agindo como agiram nossos antepassados diante da máquina de escrever. Preferindo o controle tátil e motor que a caneta nos proporciona. Achando que faremos uma reta mais rápido e melhor com nossa velha régua e nossa querida caneta nanquim. Duvidando que a pequena impressora laser (que de impressora só tem o nome, já que nada pressiona nada, a tinta se aglutina, como nas máquinas xerox) possa produzir tipos tão fielmente desenhados quanto aquelas caras, pesadas e misteriosas máquinas que ficam naquele limbo chamado “setor industrial” dos jornais, ao qual os jornalistas não têm acesso. E também, durante algum tempo, continuaremos achando que uma boa e confiável caixa de sapatos com fichas poderá ser mais eficaz no processamento e na recuperação da informação que as tais máquinas que insistem em aparecer sobre as escrivaninhas de todos nós.

O perigo sempre está em errarmos a avaliação e pensarmos que não precisamos mais saber certas coisas que ainda são fundamentais. Assim como aquele jovem de depois da guerra que desistiu de comprar livros e usou o dinheiro para matricular-se num curso de datilografia. Fez, podemos dizer hoje, um enorme erro de avaliação. Sem o curso, mas com os livros, ele aprenderia a escrever, claro. Com excelente datilografia e enorme domínio da máquina de escrever, certamente estacionou nas tarefas mais mecânicas como copiar, copiar e copiar. O ideal é juntar as duas coisas. Escrever bem à máquina e saber o que escrever, por exemplo. Ou, voltando ao futuro, não ter medo das novas ferramentas e saber como chamar a atenção do leitor para o que é importante numa página. Isso, sem dúvida, parece essencial. Colocar as ferramentas na caixa das ferramentas. E usá-las sempre que for necessário… como ferramentas.

Lembras disso? Uma das impressoras laser daquela época, a HP LaserJet III PS

Lembras disso? Uma das impressoras laser daquela época, a HP LaserJet III PS

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