As pioneiras 3

Que tal pensar num empreendimento que para amadurecer precise de uns dez anos? Com certeza, você diria que nem o poeta: “Ora direis ouvir estrelas, por certo perdeste o senso”.
Por Antunes Severo, de Florianópolis

Pois foi assim que a primeira emissora de rádio de Santa Catarina se tornou uma realidade. A PRC-4, Rádio Clube de Blumenau, hoje decantada em prosa e verso, só foi possível porque uma semente lançada onze anos antes, por João Medeiros Júnior, transforma-se na primeira licença de operação de uma estação radioamadora em Santa Catarina, no ano de 1925.

Foto: Tempo Editorial

Blumenau: pioneira do rádio em Santa Catarina

Os caminhos percorridos pelos pioneiros do rádio em Blumenau são narrados por Lúcia Helena Vieira e Ricardo Medeiros no livro A História do Rádio em Santa Catarina, lançado em 1999, pela editora Insular. Eles assim descrevem o nascimento da primeira emissora de radiodifusão no estado de Santa Catarina.

O rádio começara a engatinhar no Brasil, e apenas nas grandes cidades, quando em setembro de 1929 o radioamador João Medeiros Júnior instalou junto a uma pequena biblioteca, um alto-falante, que em determinadas horas irradiava trechos musicais. Era o número 144 da rua XV de Novembro, em Blumenau. Uma pequena casa de propriedade da Empresa Industrial Garcia da qual Medeiros era gerente e onde anteriormente havia morado.

A idéia teria nascido já em 1927, fruto de suas experiências com um aparelho transmissor que possuía, considerado poderoso para a época, e graças ainda a seus contatos com milhares de radioamadores de todo o mundo. João Medeiros foi o primeiro radioamador licenciado em Santa Catarina, começando suas operações já em 1925. Por 15 anos foi o principal elo de comunicação de Blumenau com o Brasil e com o mundo, numa época em que não havia serviço telefônico de longa distância e o telégrafo era ainda bastante precário.

Ao mesmo tempo da instalação dos alto-falantes, Medeiros encaminhava os papéis para requerer um canal e orientava a fundação da Rádio Clube.   Em fins de 1931, com um transmissor Collins de 150 Watts de potência e uma antena Marconi tipo L com contra-antena, iniciou-se a experiência das transmissões. A programação era basicamente musical e o encarregado de colocar os discos era Emilio Alcântara Vianna.

Foto: Tempo Editorial

A Rádio Clube de Blumenau é a única emissora em Santa Catarina de prefixo PR, característico das mais antigas rádios do país.

O pioneiro Medeiros Júnior idealizou, então, a fundação de uma sociedade por ações. Mandou imprimir as apólices e dividiu-as entre pessoas de suas relações. Alguns pagaram, outros não, apesar do apelo que os jornais publicaram, no dia 2 de fevereiro de 1934, para que os acionistas integralizassem suas quotas para pagar os equipamentos encomendados.

Em 1935, depois de um período experimental de dois anos, Medeiros colocou no ar em caráter definitivo a primeira emissora de rádio no Estado, a PRC-4, Rádio Clube de Blumenau, uma das pioneiras no Brasil. Antes das irradiações experimentais já se havia conseguido o prefixo PRC-4. A Rádio Clube de Blumenau é a única emissora em Santa Catarina de prefixo PR, característico das mais antigas rádios do país.

Em janeiro daquele ano, dia 22, realizou-se no estúdio da PRC-4 o julgamento do concurso que iria eleger o nome fantasia da emissora. Por maioria de seis votos a diretoria da estação escolheu o nome “Rádio Cultura de Blumenau”. Os vencedores foram Frei Ernesto Emmendoerfer, diretor do Colégio Santo Antônio; Moacyr Medeiros, filho do fundador da rádio, Arnoldo Schneider, Pedro Feddersen Netto e Rodolfo Rechemberg.

Em homenagem ao grupo vitorioso o poeta e letrista Francisco de Oliveira e Silva organizou um programa especial que foi irradiado na quinta-feira seguinte.Da parte literária do programa participaram o Doutor Luna Freire, juiz de direito da comarca, Dr. Felipe de Alencastro, Doutor Raulino Távora, promotor público, Aquiles Balsini e a menina Marília, filha do casal Oliveira e Silva, que recitou as poesias.

Na quinta-feira, 15 de fevereiro de 1935, realizou-se no estúdio da rádio uma reunião para a constituição definitiva da sociedade, com a leitura dos estatutos e eleição da diretoria que, a partir daí, ficou assim constituída: João Medeiros Júnior como presidente; José Ferreira da Silva como secretário; Curt Prayon e Alfredo Grossweiler como primeiro e segundo tesoureiros. O conselho fiscal ficou composto por Luiz de Freitas Melro, Frederico Kilian e Afonso Rabe. Até então haviam sido pagos apenas 10 contos das ações colocadas e a diretoria novamente fez publicar apelo pela integralização das quotas.

A emissora se constituía em uma entidade de propriedade coletiva, com finalidade unicamente cultural, um verdadeiro clube com ações subscritas e integralizadas pelos próprios ouvintes, costume típico da época inicial do rádio e origem de todas as rádio-clubes do país. A emissora, afirma Armando Luiz Medeiros (1996), foi posteriormente transformada em empresa, “por pessoas que, com menos escrúpulos que seu fundador, arrecadaram a valor simbólico os títulos em poder do público”.

Um novo estúdio foi instalado no Beco Aimoré, em casa de propriedade de Domingos Borba, hoje número 88 da rua Capitão Euclides de Castro. As transmissões desse local iniciaram-se em 18 de março de 1935. As torres foram construídas na Empresa Industrial Garcia e montadas no “Morro dos Padres”, atrás da Igreja Matriz, em terreno pertencente ao Convento Franciscano, alugado a preço simbólico.

O historiador e posteriormente prefeito da cidade, José Ferreira da Silva, e Manoel Pereira Júnior foram os grandes colaboradores do fundador e sustentáculos do funcionamento da estação em seus primeiros anos. O primeiro foi speaker da emissora durante mais de oito meses, fazendo o serviço gratuitamente. Segundo notas do Arquivo Histórico Municipal de Blumenau, “muitos dos atuais figurões da indústria e da administração foram ‘artistas’ dos primeiros programas”. Diz uma das notas que “um dos Zadrosny” tocava violino com acompanhamento de piano por Pedro de Alcântara Pereira, inspetor de rendas. O juiz Luna Freire, em vários programas, acompanhou a esposa ao violão. A primeira locutora foi Atalá Branco. Assim foram se arranjando os primeiros programas.

Getúlio Vargas, então presidente da República, e o ministro da Viação e Obras Públicas, Marques dos Reis, foram os que assinaram o Decreto n. 443 que permitia a instalação da Rádio Clube. A data foi 22 de novembro de 1935. A essa época a rádio contava com mais de 10 sócios, entre eles Luiz de Freitas Melro, Roberto Grossembacher, Afonso Rabe, Adolfo Schmaltz, Alfredo Campos, Oscar Schmidt, Ingo Hering, Alfredo Grossweiler, Francisco Weber, Max Hering e José Ferreira da Silva, além de Medeiros Júnior.

Foi ainda em 1935 que os sócios reuniram-se para integralizar o depósito de um terço de 42 contos, 90 mil e 500 réis, no Departamento de Correios e Telégrafos para regularizar a situação da emissora perante esse órgão. Em 19 de março de 1936 saiu a primeira licença para funcionamento da estação que, desde 1934, havia substituído o seu transmissor Collins por um Phillips de 500 Watts de potência. Cobrindo, assim, uma área mais ampla e estendendo seu mercado de audiência para “atingir seu sonho maior, a liderança absoluta na sua faixa de alcance”.

O nome fantasia da emissora, Rádio Cultura de Blumenau, não foi assimilado pelos ouvintes. Não há registros precisos a respeito, mas sabe-se que tempos depois da tentativa de dar-lhe um nome diferenciado, a emissora voltou a chamar-se Rádio Clube de Blumenau.

Leia na próxima semana: Programação da Rádio Clube de Blumenau e O carisma de um pioneiro.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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