As pioneiras: Rádio Clube de Lages

“Se a Clube não deu é porque não aconteceu”. Mais do que um slogan,  esta foi uma realidade vivida pelo lageano por muito tempo. A história começou com a chegada do paulista Carlos Jofre do Amaral que montou o serviço de alto-falantes “A Voz da Cidade”, na praça João Costa.
Por Antunes Severo

Carlos Jofre do Amaral, sempre foi um empreendedor: do serviço de alto-falantes instalado em 1944, partiu para a criação da primeira emissora do planalto serrano, que deu origem a primeira emissora FM da cidade de Lages, depois a Rádio Coral e posteriormente a TV Planalto. Seguindo os passos do pai, o engenheiro Roberto Amaral, instala mais quatro emissoras de rádio e consolida o SCC – Sistema Catarinense de Comunicação.

Moacir Pereira, no estudo que fez para o livro Imprensa & Poder – a comunicação em Santa Catarina, registra que a TV Planalto teve sua concessão oficializada em 13 de outubro de 1977 e entrou no ar no dia 10 de julho de 1980, retransmitindo a programação da TVS, embrião do Sistema Brasileiro de Televisão. E acrescenta: “Roberto Amaral marca presença na fundação da União Brasileira de Emissoras Integradas de TV, que resultará no SBT”. A TV Planalto foi a primeira afiliada da rede criada por Silvio Santos.


Roberto Amaral, em entrevista ao Tá na Mídia

Em entrevista ao Tá na Mídia, Roberto Amaral lembra as motivações que levaram a instalação do serviço de alto-falantes em Lages: A Segunda Guerra Mundial foi o maior acontecimento do século passado e as pessoas precisavam saber notícias da guerra: o que os aliados estavam fazendo, a quantas andavam os conflitos e por aí adiante. Um sistema de alto-falantes também foi instalado no Rio Grande do Sul, na cidade de Passo Fundo por Maurício Sirotsky e que acabou sendo o embrião da RBS. Em Santa Catarina o meu pai, fez esse serviço que comunicava às pessoas o que estava acontecendo em Lages e no mundo. Quando tocava na praça a musiquinha que precedia uma notícia ou um comunicado importante as pessoas vinham para ouvir. Além disso, havia também os noticiários que iam ao ar algumas vezes por dia; também havia espaços onde as pessoas dedicavam músicas, o que possibilitava que elas namorassem e se comunicassem através dos alto-falantes.

Como bom pioneiro, seu Jofre também levava esse equipamento, os amplificadores e alto-falantes para as festas, especialmente as festas de igreja. E não ficava só nisso, era comum ele levar a novidade para cidades como Caçador, Curitibanos, Videira ou Campos Novos e com isso, muitas vezes, acabava se tornando a grande atração das festas.

Foi numa destas, conta Roberto Amaral, que “ele conheceu a minha mãe. Ele, um paulista, acabou conhecendo minha mãe numa dessas festas onde era o ‘homem do microfone’ e acabaram se casando”.

Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, quando da pesquisa para escrever a História do Rádio em Santa Catarina, em 1999, traçaram um perfil da Rádio Clube de Lages, onde acrescentam mais informações sobre as suas origens.

“O paulista Carlos Jofre do Amaral mudou-se para Lages em 1939, oriundo de São Bernardo do Campo, São Paulo. Na região serrana, juntamente com José Botini e Oswaldo Lenzi, criou A Voz da Cidade, um serviço de alto-falantes instalado à Praça João Costa. Na programação, música, notícias e anúncios comerciais, transmitidos do estúdio improvisado na sede do Lages Tênis Clube”.

“Era Carlos Jofre do Amaral  também que, em 1947, recebia sinal verde do governo federal para instalar a Rádio Clube. Mas, na prática, a emissora iniciou suas atividades dois anos depois, sob o prefixo ZYW-3, freqüência 1390 Khz e potência de 100 watts. Essa empreitada do pioneiro dos Campos de Lages contou ainda com ajuda dos sócios Osni de Medeiros Régis e João Dias Brascher”.

“Em clima de festa, em 1951 a Rádio Clube inaugurava o novo transmissor, com 1000 watts de potência. Para o evento foi contratado o cantor Vicente Celestino, estrela do mundo artístico da época”.

“Manoel Vicente, radialista que ingressou na emissora em setembro de 1949, relata que a estação servia de elo de comunicação entre os moradores da região. Eles utilizavam a rádio para mandar avisos. Dentro do espírito de utilidade pública, consta do folclore da Rádio Clube que o morador  de um  sítio deslocou-se até a cidade para buscar umas ‘tripas’ para fazer lingüiça, pois tinha ‘carneado’ um porco. Ao chegar, o caipira sentiu-se mal e foi ao médico. Examinado, constatou-se um problema sério, necessitando de cirurgia. O interiorano, preocupado em despachar  a encomenda, foi até a Rádio Clube dar um aviso aos familiares que costumeiramente acompanhavam a programação da emissora. Ao microfone o caipira saiu com essa: “Pessoal, baixei no hospital e fui operado. As tripas vão de ônibus”. (Depoimento em 14/06/1999).

Um dos slogans mais conhecidos da Rádio Clube foi “Se a Clube não Deu é Porque não Aconteceu”.

Sites relacionados:

http://www.alavip.com.br/tanamidia_arquivo_08.htm
http://www.an.com.br/2005/fev/21/0eco.htm
Referência bibliográfica:

Pereira, Moacir. Imprensa & poder – a comunicação em Santa Catarina. Florianópolis: FCC Edições/Editora Lunardelli, 1992.
Medeiros, Ricardo. Vieira, Lúcia Helena. História do Rádio de Santa Catarina. Florianópolis: Insular, 1999.

Na próxima semana: Rádio Clube de Canoinhas, início de uma rede que não chegou a se completar.


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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