As pioneiras: Rádio Eldorado de Criciúma

Um pequeno descuido marca o surgimento da emissora pioneira de Criciúma. O operador de som deixa o microfone ligado e a seguir, pensando que está fora do ar, troca confidências com o locutor do horário sobre fofocas circulantes envolvendo a vida particular de algumas figuras conhecidas da cidade.
Por Antunes Severo

O “mico” é narrado por Jane da Rosa, no trabalho de conclusão do curso de jornalismo onde registra que Irê Guimarães e Luiz Napoleão, depois de encerrar o turno de trabalho, iniciam animado papo comentando “quem traia quem” na cidade. A repercussão foi imediata e fulminante como está contado no livro A História do Rádio em Santa Catarina no destaque a seguir.


Prédio da Rádio

A programação geral do aparato sonoro estava sob a responsabilidade de Irê Guimarães e Luiz Napoleão, que passaram por situações no mínimo curiosas, diz a jornalista. Numa dessas ocasiões, eles  esqueceram de desligar os microfones após as transmissões e, ignorando o fato, começaram a conversar. O tema do ‘papo’ naquele dia era traição. Um contava ao outro sobre quem traía quem, na nem tão pacata  Criciúma de cinco mil habitantes.

“As pessoas que passavam pela praça, ao ouvir aquela conversa tratavam logo de esticar ainda mais as orelhas para não confundir os nomes. O estardalhaço foi tão grande que muitas das pessoas citadas pelo som alto e claro do alto-falante mudaram-se de cidade, talvez até mesmo de federação”.

Outro caso protagonizado por Guimarães e Napoleão envolvia a pronúncia da música Boogie Woggie. A mais pedida pela população era dita pelos jovens locutores como  ‘Bogi Vogi’, sem que ninguém reclamasse ou corrigisse. Porém,  no final de 1947, o cantor do sucesso esteve na cidade para um show. Qual não foi a surpresa geral quando o empresário do artista anunciou nos alto-falantes a verdadeira pronúncia da melodia: ‘Bug Iug’.

A série As Pioneiras foi inspirada no livro A História do Rádio em Santa Catarina e tem reproduzido aqui o que consta no livro sobre cada emissora focalizada. A esse trabalho de Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira outros autores têm sido ouvidos. Como é o caso de Agilmar Machado que além de escritor é “testemunha ocular da história”, pois iniciou sua carreira profissional justamente na Eldorado de Criciúma. Agilmar com a palavra.

A Sociedade Rádio Eldorado Catarinense Ltda, teve sua instalação precedida por um serviço de alto-falantes. O equipamento da marca Delta foi instalado pelo engenheiro Ruy Feurchhuette nos altos (1º andar) do Edifício Filhinho (Café São Paulo), onde foram locutores Luiz Napoleão, Cláudio Schüller e Irê Guimarães.

A torre sobre a qual ficava a corneta era de madeira e estava localizada na pequena praça Etelvina Luz, onde presentemente se encontra a Estátua do Mineiro. O serviço de alto-falantes já se autodenominava Rádio Eldorado de Criciúma.


Estúdio da Rádio

A emissora de broadcasting foi fundada, efetivamente, em 13 de maio de 1948, quando entrou no ar em caráter experimental. Somente a 17 de novembro daquele mesmo ano ela entraria definitivamente em operação, depois de uma pomposa inauguração nos salões do Clube Mampituba.

O Grupo Teatral Pedro Calenda de Porto Alegre e a dupla Chiquinho e Nena Batista foram as principais atrações. Toda a cerimônia foi orientada pelos sócios da emissora, médico José De Patta, que foi seu diretor, Cláudio Schüller (excelente locutor e animador) e Hercílio Amante (Secretário municipal).

O padrão elevado adotado pela Eldorado permaneceria pelos anos afora, mesmo depois de passar ao comando de Ruy Hülse, Santos Guglielmi, Diomício e Dite Freitas, em 1955.

Os estúdios da Rádio Eldorado ficam situados no último andar do edifício São Joaquim, alto do Café Rio, na praça Nereu ramos.

Os locutores pioneiros da Rádio Eldorado foram Cláudio Schüller, Luiz Napoleão, Jorge Nassar (trazido de Curitiba pelo Dr. Manif Zaccarias), Luiz Barchinski, Nereu Tomé e Jaci Barbosa Cabral (que escrevia sobre esportes as segundas, quintas e sábados), Dr. Manif Zaccarias (primeiro noticiarista), Valdrílio Serafim (encarregado da contabilidade), além do excepcional comentarista, cronista e produtor Sebastião Humberto Pieri e da primeira locutora, radioatriz e produtora do rádio sul catarinense, Dalcy Rovaris (Margô).

Mas, no ano seguinte, 1949, deixaram a emissora muitos dos nomes citados, sendo então admitidos os irmãos, jornalista Aryovaldo Huáscar Machado (que assumiria a gerência  da emissora e também atuaria nos jornais falados, em programas de auditório e alguns musicais especiais), jornalista Agilmar Machado (que iniciaria, efetivamente sua carreira na emissora) e Attahualpa César Machado (que chegava com excelente bagagem e considerável experiência), todos de Araranguá.

Viriam, também, Carlos Lacombe (versátil radialista e detentor de invejável dom para interpretações musicais mexicanas e nacionais), Hélio Florentino, Santos Flores, Darcy Antonelli, Aristides Madeira, Osmar Nunes, Antônio Sebastião dos Santos (Antônio Luiz), Ézio Lima, João Sônego, Sílvio Bittencourt, dentre outros da fase conhecida como “período De Patta”.

A Rádio Eldorado manteve durante muito tempo, um regional sob a direção do violinista Santos Flores. Dele participavam Edu Réus (acordeon), Abílio Vasconcelos (instrumentos de cordas), Sebastião Santiago (percussão) e Aristides Madeira (violão).

O regional não somente acompanhava os calouros dos programas “Sem Compromisso”  e “Clube da Petizada” como participava de audições próprias e de suporte para artistas famosos que visitavam Criciúma nos anos 50.

O jornalismo da Rádio Eldorado da citada fase foi extremamente polêmico e seus comentários re jornais falados amplamente ouvidos em toda a região carbonífera.

Possuía representações descentralizadas em Forquilhinha (Apolinário Tiscóski), Siderópolis (Orlando Jacometti), Próspera (Athaíde Madeira) e também em Rio Maina (Flávio Ronchi).

O primeiro transmissor da Eldorado, um Byngton de relativa idade e uso, foi comprado da Rádio Difusora de Laguna, quando esta recebeu autorização para aumento de potência. Foi instalado nos altos do morro do Bainha, final da rua João pessoa. Daquele local sairia em 1951, para as proximidades do antigo campo do Ouro Preto Futebol Clube (onde hoje exista uma pequena pracinha de fronte ao Colégio marista). Neste local, José De Patta mandou construir a casinha para o transmissor numa réplica dos aparelhos receptores de então, com dial, alto-falante , botões e caixa.

Foram técnicos da Eldorado, além do engenheiro Ruy Fuerschuette, também Lindolfo Corrêa, Elói Garbelotto, e eventualmente, o padre Wilson Laus Schmidt, expert no assunto e, como os demais, aficionado do radioamadorismo.

A antiga Rádio Eldorado foi o que se poderia nostalgicamente chamar “uma fábrica de sonhos”. O romantismo dos anos 50 contribuiu consideravelmente para isso.

Depois de ser vendida, a emissora permaneceu por pouco tempo no antigo endereço, passando a funcionar no mesmo prédio do grupo Freitas-Guglielmi, na rua Rui Barbosa 149.

Até aqui, o relato de Agilmar Machado. A rádio Eldorado de Criciúma hoje pertence a um outro grupo empresarial. Veja mais informações no site indicado abaixo.

Fontes

– Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira. A História do Rádio em Santa Catarina. Florianópolis: Editora Insular, 1999.
– Jane da Rosa. História da Rádio Eldorado contada pelos seus personagens. Monografia para conclusão do curso de Comunicação Social, habilitação em jornalismo. Unisul. Tubarão, 1996.
– Agilmar Machado. História da Comunicação no Sul de Santa Catarina. Criciúma: BTC Comunicação, 2000.
http://www.radioeldorado.net/historia.php
Serviço

Broadcasting – transmissão de programação pelo rádio. Diretor de broadcasting = diretor de programação, diretor artístico.
Caráter experimental – período de transmissão estabelecido pelo serviço de fiscalização do governo para que a emissora operasse até receber a licença para atuar comercialmente.
Regional – conjunto musical que toca música popular brasileira.

Na próxima semana, Rádio Araranguá. O berço da família Machado: Aryovaldo Huáscar Machado, Agilmar Machado, Attahualpa César Machado e Aderbal Machado. Todos radialistas e  jornalistas.

 


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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1 responder
  1. Aimberê Araken Machado says:

    Pois é, Severo: sou o único dos Machado – pelo menos da “estirpe” masculina, pois temos uma irmã, a Icléa, que também não é jornalista – que não seguiu esta sedutora e colorida profissão de radialistas e jornalistas. Apesar disso, ou, diria melhor, GRAÇAS A ISSO, conheci de perto muitas figuras do rádio sul-catarinense – naturalmente, por obra e graça de meus irmãos, que as apresentaram a mim em variadas ocasiões. Ainda em Araranguá, conheci – só de vista, pois eu era, então, um menino – o legendário OSMAR COOK (cujo sobrenome, segundo me disseram, era originário de seu pai inglês ).
    Outra figura foi o NÉLSON ALMEIDA, um paranaense de Ponta Grossa que dirigiu as rádios de Laguna (primeiro) e Araranguá (depois). Nélson era posudo, elegante, tinha um vozeirão notável e gostava muito de tangos. Foram, ambos, figuras mitológicas de minha infância…

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