As pioneiras: Rádio Sociedade Catarinense

A Rádio Catarinense de Joaçaba chega aos 60 anos com três bandeiras difíceis de conquistar: é líder em audiência, cobre o Vale do Rio do Peixe, Meio Oeste Catarinense e Norte do Rio Grande do Sul e de seus quadros saíram Walter e Adolfo Zigelli, dois dos mais importantes nomes do radiojornalismo de Santa Catarina.
Por Antunes Severo, de Florianópolis

Pois esta nova sessentona, com a força dos seus 10.000 Watts de potência, transmite para mais de 60 municípios situados numa das mais ricas regiões do estado e norte do Rio Grande do Sul onde atinge uma população economicamente ativa com mais de um milhão habitantes. Naquela região, o prefixo ZYJ-765 que se anuncia na freqüência de 1270 kHz da onda média, faz parte do cotidiano de agricultores, pecuaristas e habitantes das cidades pequenas e grandes que abrigam desde um simples açougue até gigantes como a Sadia.

A ZYJ-765 nem sempre teve a potência nem a cobertura atuais, mas mantém um dos seus valores históricos: é uma das emissoras que mais se desenvolvem na radiofonia catarinense, pelo menos do ponto de vista técnico, como se observa no retrospecto publicado em seu site.
Em 13 de novembro de 1945, é autorizada a funcionar com o prefixo ZYC-7, potência de 100 Watts e freqüência de 1.510 Khz.

Em 20 de junho de 1950, o Ministério das Comunicações autoriza o aumento de potência para 250 Watts e a mudança de freqüência para 1.460 Khz.

Em 24 de março de 1976, passa a operar com o prefixo ZYJ 765,  nova freqüência de 1.270 Khz e a potência de 1.000 Watts.

Em três de setembro de 1980 a emissora dá mais um passo em busca de maior área de cobertura. Consegue autorização para operar com 5.000 Watts de potência.

No ano de 1.984, a Rádio Catarinense é adquirida pela Rede Barriga Verde de Comunicações, hoje Rede Catarinense de Rádio e Televisão das famílias Bonato-Brandalise.

Ouça a vinheta de identificação da emissora.
Clique aqui

No final de 1.999, depois de quase cinco anos de luta, a ANATEL autorizou a Rádio Catarinense a operar com 10.000 Watts de potência, mantendo o prefixo ZYJ 765 e a freqüência 1.270 KHz. Dois anos depois, em 2001, entrou em operação o transmissor da Nautel Canadense que ainda hoje está em operação.

No livro a História do Rádio Catarinense, Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, lembram que as primeiras equipes da emissora, no período que vai de 1945 a 1950,  contaram com a participação de nomes que se tornaram referência na vida social, política e econômica da cidade: Alfredo Teixeira, José Luiz Leduque, Olímpio Schumacher, Maura Regina Andrade, Dircema Brunoni, Nestor Teixeira, Dirceu Pereira Gomes, Enir Seconi, Hélio Teixeira da Rosa, Aquiles Garcia, José Esteves, Walter e Adolfo Zigelli.

Desses nomes destacam-se de maneira especial os irmãos Walter e Adolfo Zigelli. Walter que aos 16 anos começou escrevendo no até hoje existente jornal Cruzeiro do Sul e Adolfo, que aos 14 anos começa a vida de locutor na Rádio Sociedade Catarinense. Eram os dois principais meios de comunicação de Joaçaba. Ambos pertencentes a famílias políticas que controlavam a União Democrática nacional, a UDN e a defendiam do Partido Social Democrático, o PSD.

Tanto Walter como Adolfo, em pouco mais de um ano, ultrapassavam a condição de jornalista e radialista e assumiam a gerência de seus veículos de comunicação.

No depoimento que fez para o livro A História do  Rádio em Santa Catarina, em 1992, Walter Zigelli destaca: “O rádio era uma coisa que fascinava todo mundo”. E como a finalidade da emissora era promover e divulgar a UDN, os irmãos Zigelli montaram um programa político para fazer  apologia do partido. Chama-se UDN em Foco e depois UDN em Marcha. Lembra Walter que o programa tinha marchas vibrantes. “Um de nós anunciava: Rádio Sociedade Catarinense nesse momento apresenta… Aí o outro continuava: UDN em Marcha… E entrava aquela marcha vibrante”, relata.

“A primeira parte do programa era constituída de notícias exageradamente favoráveis à União Democrática Nacional. A outra era de notícias desmoralizando o outro lado. Além disso, nessa época, o PSD ainda não possuía estação de rádio, mas nos períodos eleitorais os pessedistas compravam o espaço na emissora da UDN e faziam um programa semelhante, intitulado PSD em Foco ou PSD em Marcha”.

O programa era tão sectário que “Numa ocasião estava no estúdio o candidato do PSD a prefeito e o Adolfo terminou o programa mais ou menos assim: ‘Senhoras e senhores, vocês acabaram de ouvir UDN em Marcha. Aqui nós estamos absolutamente interessados na verdade etc… Logo mais vocês ouvirão a palavra daqueles eternos enganadores do povo…’ Assim era naquela época”, rememora Walter.

Mais tarde, o Partido Social Democrático obteve também a concessão de um canal – a Rádio Herval do Oeste. Nessa estação o procedimento era o mesmo com relação aos adversários. Em épocas de eleição, além de terem os seus programas nas respectivas emissoras, cada partido comprava o seu horário na rádio do adversário. Walter Zigelli, entretanto, ressalva que o período era de franca democracia, pois não havia qualquer tipo de censura. “Isso fazia com que a comunidade estivesse sempre muito integrada na política. Todo mundo participava, não havia neutros, quer dizer, o sujeito era contra ou a favor; muitas vezes até fanaticamente”  explica.

Havia na Rádio Sociedade Catarinense um auditório no qual sempre estavam os maiores fãs dos irmãos Zigelli e da UDN no horário do seu programa. Além dos admiradores, lá estavam sempre candidatos aos mais diversos cargos públicos. Por duas vezes Jorge Lacerda esteve lá. Primeiro como candidato a deputado federal e mais tarde, como candidato ao governo do estado.  Zigelli diz que: “Nós fazíamos o programa com tanto entusiasmo, hoje eu digo que nós exagerávamos, mas naquela época a gente acreditava no próprio exagero, na própria mentira – nós estávamos plenamente convencidos de que o nosso partido, aquele nosso movimento era para salvar o mundo e que nós éramos os santos e os outros os diabos”.

Numa das vezes, Jorge Lacerda ficou tão entusiasmado, diz Walter, que ao terminar o programa ele nos disse: ‘Olha, o dia em que eu for governador, vou levar vocês dois para Florianópolis comigo’. Evidentemente, conta Walter, “achamos que aquilo era demagogia, promessa de candidato. Não acreditamos também porque Florianópolis era para nós uma cidade distante. Ainda não conhecíamos. Naquela época Joaçaba era ligada ao Rio Grande do Sul, nós havíamos estudado em Porto Alegre, não havia asfalto para a Capital, enfim, não havia qualquer ligação. Mas acontece que o homem acabou se elegendo e cumpriu a dita promessa e nós acabamos vindo mesmo para Florianópolis”.

Jorge Lacerda trouxe os irmãos Zigelli e lhes encomendou um programa com a mesma estrutura que eles faziam no Oeste. Lacerda queria um programa que noticiasse os fatos do governo, dentro do estilo do programa apresentado em Joaçaba.

Referência bibliográfica

História do Rádio em Santa Catarina. Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira. Editora Insular, Florianópolis, 1999.

Site relacionado
>> http://www.radiocatarinense.com.br/


{moscomment}

Categorias: , , Tags: ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *