Assim você só pode esperar pelo pior

É isso. Trato do pior, que um punhado de boas e más cabeças anda sugerindo. Quero abordar um comportamento humano assustador, que qualquer observador identifica no elevador, na passarela, na rua, nas filas (banco, restaurante, cafezinho, supermercado, na saída do colégio, na balada, etc.), no trânsito, onde for. Está em curso uma “cultura de levar vantagem” e ela se mostra desde os altos escalões da República e replica lá no arraial aonde o Papai Noel inocentemente distribui caramelos às crianças. Você já viu quando vira um caminhão carregado de mercadorias o que acontece com as pessoas que ali chegam para “exercerem o seu direito” de esbulho? Bem, você deve estar imaginando que essa conversa se reporta às crianças, aos pobres ou àqueles que supostamente vivem com mais dificuldades ou com pouca civilidade.

Engano seu.

Você já viu numa rua ou estrada quando repentinamente começa a congestionar-se o tráfego o que acontece com muitos que “passam a exercer o seu direito” de sair pelo acostamento, pelo gramado lateral, por sobre o meio fio, pelo escambau?

Quantos políticos realmente assumem o poder pensando em “exercer o seu direito (de andar pelo acostamento da lei” e de apoderar-se do dinheiro coletivo?

Quantos condôminos, aí da sua comunidade, seus vizinhos, cuidam da moradia coletiva como donos que, efetivamente são, e quantos “exercem o seu direito” de usar elevadores, portões, gás, sem pagar as taxas?

Quantos moradores aí do seu bloco esperam com a porta do elevador aberta para que também você (que vem vindo) aproveite-se “do mesmo direito” economizando energia?

Quantos moradores aí do seu bloco entram no elevador e olham nos olhos dos seus vizinhos para dizer “bom-dia”, “olá”, “tudo bem” e quantos “exercem o direito” da cara fechada, de mau humor, de incivilidade?

Quantos empresários, “gente de bem”, você conhece, que dilapidam os recursos naturais, enriquecem a custa disso e depois deixam a conta para o poder público pagar como se fosse “um direito seu”?

Quantos que, nas mega liquidações, pisoteiam sobre os outros para agarrar uma televisão ou uma geladeira a preço reduzido?

Aliás, a boa ética do comércio é sempre jogada ao chão quando algumas horas após o “compra-compra-compra” orquestrado pelas maciças campanhas de mídia, os preços caem pela metade, abaixo da metade, num flagrante desrespeito a quem já tenha adquirido.

O governador do Distrito Federal, ao ser preso, mandou seu advogado queixar-se de uma “ditadura judiciária” que o levou à cadeia, pela primeira vez no Brasil, em pleno exercício do cargo, e esqueceu-se da sua ditadura escandalosa ao meter a mão no dinheiro do povo sem o contraditório das creches ausentes, fechadas, desabastecidas, sem pessoal qualificado. Coisa, aliás, comum em outros “currais” federais, estaduais, municipais, distritais, não é mesmo?

Haveria muito mais a narrar, você sabe disso, você sente isso…

Mas, o recado de hoje, é esse.

Aonde nós queremos chegar dando de ombros e achando que esses problemas não são nossos e silenciando para que “eles” exerçam “seus direitos”, enquanto nós renunciamos aos nossos?

Um velho professor de ecologia sempre repetia seu velho jargão: “se você veio até esta cidade, até este condomínio, até esta vida como turista, tire suas fotos, brinque, divirta-se, jogue o lixo para outros recolherem, faça xixi no muro e deixe o odor para os outros cheirarem e vá embora, nós compreenderemos suas atitudes e quiçá nunca mais o receberemos aqui. Mas, se você quer viver aqui, ser feliz aqui, por favor, comece fazendo a sua parte porque, do contrário, tudo será pior amanhã, bem pior no ano que vem, muito catastroficamente pior daqui a uma década…”

Estou errado?

Quero, para encerrar, enviar um sinal de positivo ao crescente número de leitores e leitoras que, mesmo sem ninguém para cobrar ou ameaçar, fazem tudo certinho por livre e espontânea consciência. O Mundo pertence a vocês e não àqueles outros que o deturpam.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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