Astros do crime

No momento em que a violência generalizada ataca a imprensa, é hora de se fazer uma reflexão sobre o excesso de divulgação das ações de bandidos e organizações criminosas, feitas pelos meios de comunicação. A exposição desses criminosos na mídia e tudo o que eles querem.
Por Jamur Júnior

Na década de setenta apareceu em Curitiba um bandido que deu muito trabalho à polícia e fez a alegria de repórteres policiais. O dito cujo recebeu da imprensa o apelido de Chacal. Com muita freqüência Chacal ocupava a primeira página de jornais especializados no setor, contando detalhes de seu último crime. O bandido acabou na cadeia, seu endereço mais adequado.
O detalhe que chama atenção e que motiva este comentário é a entrevista que  concedeu no momento de sua prisão. Chacal declarou aos repórteres que gostava muito de ver seu nome e sua fotografia nas páginas dos jornais, ouvir suas histórias de crimes no rádio e na televisão. A divulgação constante das ações desse marginal contribuiu para que Chacal se transformasse num ídolo de bandidos menores e líder no seu meio.
A lembrança vem a propósito do grande destaque que órgãos de comunicação estão dando para essa nova safra de criminosos, como Fernandinho Beira-Mar, Marcola e outros bandidos que, a exemplo de Chacal, precisam de grande exposição na mídia para manter sua condição de líder da bandidagem.
Marcola – o líder de rebeliões e da guerrilha urbana que vem atormentando a população de São Paulo, no alto de sua importância como bandido de prestígio, faz questionamentos sobre transferência de presídio e participa de negociações com membros do governo paulista, ao mesmo tempo em que mantém sua liderança sobre bandidos presos e bandidos soltos.
Fernandinho, quando de sua transferência, ganhou grande espaço na imprensa como o primeiro inquilino do presídio federal em Catanduvas. O fato foi noticiado como se fosse um privilégio para alguém importante, um feito honroso. “Fernandinho, o número UM, em Catanduvas” foi a manchete de um jornal.
 
Com tanta exposição não se assustem se qualquer dia aparecer um deles na televisão fazendo comercial de bebidas, celulares e pistolas.
Não seria o caso de se promover um grande pacto da imprensa brasileira e eliminar da pauta dos veículos todo tipo de crime e seus autores? Pelo menos uma experiência de 90 dias, sem notícias de crimes e bandidos, para ver o resultado.
É provável que sem mídia, muitos bandidos irão protestar e pressionar as autoridades para que a imprensa volte a divulgar suas atividades criminosas.
Sem a fama que a mídia lhes dá viram bandido comum, sem prestígio, força e poder.     
*Jamur Júnior, destacado profissional de comunicação do Paraná, começou a carreira de radialista em 1950. No final da década de 1960 viveu boa parte do auge do rádio em Florianópolis trabalhando nas rádios Jornal A Verdade e Diário da Manhã. Escreveu dois livros: o primeiro lançado em 2001 conta a “Pequena história de grandes talentos”, onde narra os primeiros passos da televisão no Paraná e o segundo, Sintonia Fina – histórias do rádio, lançado em 2004.


{moscomment}

Categorias: , Tags: ,

Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *