Até quando vão ficar?

De um lado da porta o anfitrião, do outro a visita. Do lado de dentro o anfitrião geralmente já conhece o ou os visitantes.

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Do lado do fora os visitantes também reconhecem que há anfitriões que não servem para anfitriões; são ranzinzas. Não tem paciência com nada e com ninguém. Lá dentro o anfitrião sabe se são daquelas visitas às quais os dias passarão voando e logo estarão se despedindo aos prantos e já marcando o próximo encontro. Esse tipo de visita deixa saudades embora gere ansiedades em querermos agradar, mas vale pela ótima visita.

Mas pode ser aquela visita que não era tão desejada, que não era tão esperada. No entanto a dona educação, o seu bom senso e tudo mais que os gestos de bondade que nos ensinaram falam mais alto. Temos que receber bem os visitantes. Temos de mostrar os dentes. O anfitrião ainda antes de abrir a porta já sabe se é aquela parenta que não lava uma louça, aliás, nem sequer tira o prato da mesa. Limpar o banheiro, nem pensar.

O marido dela toma latas e latas de cervejas, mas é incapaz de levantar e comprar uma caixa de gelada. Ainda é do tipo que pega a latinha na mão e diz que não está muito gelada. O anfitrião conhece os filhos. Um é meio calado. Não que seja psicopata, mas é estranho. Os outros dois são uns capetas. O menino de 6 anos mexe em tudo. O pai parece cego, mudo e surdo. A mãe parece sofrer de lerdeza na língua, mas só na hora de chamar atenção do filho. Mal abre a boca para dizer:
– Marcelinho, não mexa aí. A tia vai brigar.

O menino está prestes a derrubar um belo relógio de parede e a boca da mãe mal abre.

Mas não dá mais para esperar. O anfitrião abre a porta. Dá as boas vindas. Como é bom quando os visitantes colaboram. Seja na casa de praia, no sítio, no apartamento. Uma carne que se compra, uma cerveja, um refrigerante, um carvão, um pão (tudo aqui está no singular porque é simbólico) enfim, tudo isso é tão simples, tão educado; uma demonstração de reconhecimento dos esforços de quem nos recebe. De um jeito ou de outro, um dia somos visitas, em outro anfitriões.

O tema de hoje era uma frase que ouvi inúmeras vezes em minha infância. Meu avô havia ficado viúvo e se casado com uma senhora. Sempre que alguém chegava na casa deles a mulher do meu avô abria a porta e perguntava:
– Até quando vão ficar?

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