Au Sixième Étage!

A “Maison du Brésil” era a única casa de toda a Cidade Universitária em Paris que tinha chuveiro dentro do quarto. O resto todo era coletivo. Depois da melhor ducha da minha vida, colapsei na melhor cama do mundo!
Por Aguinaldo José de Souza Filho

As 7:30 me acordaram para uma entrevista com o diretor do pedaço, que me passou a lista das formalidades da casa. À direita do saguão de entrada tinha uma mini-cafeteria, onde o pessoal fazia o ‘petit-dejeuné’.

No dia seguinte lá estava eu atrás do balcão virando omeletes. Pronto, tinha quarto e comida! Um estudante me falou de um judoca brasileiro que fazia trabalhos avulsos.

Na hora do almoço plantei-me no saguão de entrada do L’Inter, o prédio central da Cité Universitaire, de olho nesse ‘judoca’ que ia sempre almoçar lá. Meia hora mais tarde entra um louro alto, forte, carregando um kimono nas costas. “Valdyr Lins de Castro?” Ele olhou na minha direção. Acertei na primeira! Anos mais tarde, em Viena, Virginia, nos Estados Unidos, o mesmo aconteceu, mas ao contrário. Mas estou me antecipando.

Me apresentei e entramos no refeitório. Um padre, amigo de seu pai, havia lhe recomendado um amigo em Paris. Esse amigo tinha uma loja de eletrodomésticos, pertinho da Notre Dame. Por tradição, cada apartamento dos prédios parisienses possuem um quarto de empregada no sexto andar, que passou a ser fonte de renda nos dias modernos. O dono da loja tinha o seu, mas como não vivia ali,  deu a chave do quarto ao Valdyr e simplesmente pediu que a devolvesse quando “terminasse seus estudos”.

“É apertado, mas você pode dormir no chão”,  foi a oferta que ele me fez. Uma semana mais tarde comprei um ‘matelas pneumatique’, francês para colchão de ar, e me instalei ao lado da Notre Dame! Dia seguinte eu estava colaborando para a melhoria do sistema educacional francês: raspava papel de parede de escolas para serem pintadas… enquanto Valdyr ajudava a fazer umas mudança. Ganhei a ‘carte de sejour’ carta de residente dado pelo Jacques, o dono dessa pequena firma de jabás (bullots), que tinha complexo de Napoleão – andava com a mão enfiada na camisa. Distribuí panfletos nas ruas, fui guarda noturno de garagem, envelopei muita propaganda, e estava aprendendo francês de rua e nas aulas noturnas da Aliance Française, para poder acompanhar as aulas de ator no Conservatoire National D’Art Dramatique.

O meu francês ‘plume de ma tante’ do meu secundário foi mais que depressa substituido por ‘merd allor’, ‘sais(xe) pas’ em vez de ‘je ne sais pas’, ‘on va buffet’ em vez de ‘on va manger’ e outras maravilhas do linguajar mundano local. Jogava tenis nas quadras da cidade universitária, na Casa do Brasil namorei uma estudante de belas artes de Petrópolis, que me fazia dormir em seu atelier de pintura  após os amaços, em meio daquele cheiro fortíssimo de tinta que eu acordava com dor de cabeça. Começava a me sentir em casa. A vida era bela. Dias antes do natal, Jacques me perguntou se eu queria cobrir as férias do guarda de uma garagem num subúrbio de Paris. Seriam quatro fins de semana, das seis da tarde até as seis da manhã.

Aceitei feliz da vida. Seria uma chance de refazer as finanças. O serão começaria na noite de véspera do natal, 24 de dezembro de 1966. Sem saber, eu iria ter que dividir a tarefa com o cão de guarda da casa. Mal sabia eu o que me esperava. Mais na semana que vem.


{moscomment}

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *