Augusto Mello na sonoplastia e Nezinho na contrarregra, uma dupla do barulho

Numa conversa sobre radioteatro, em geral o centro das atenções volta-se para os intérpretes das personagens, ou no máximo, faz-se alguma referência a música tema da novela.

Num encontro entre profissionais de comunicação, entretanto, figuram astros de dois outros universos: os sonoplastas e os contrarregras. Se a conversa for entre profissionais das áreas técnicas, aparecem mais duas figuras não menos importantes, mas pouquissimamente conhecidas dos Caros Ouvintes: são os operadores de áudio e os engenheiros de transmissão de rádio e TV. Quem é mais importante? A rigor, todos têm na sua especialidade a relativa significação, que no conjunto faz o complemento e determina a qualidade final do produto gerado: o encanto da audiência.

Das principais emissoras onde trabalhei todas transmitiam novelas e programas radiofonizados: Rádios Marumby, Colombo e Clube Paranaense de Curitiba, Guaíba de Porto Alegre, Diário da Manhã e Guarujá de Florianópolis e Difusora de Itajai. Dessas, a Clube Paranaense e a Diário da Manhã contavam com excelentes e talentosos sonoplastas e contrarregras. Como por exemplo, Augusto Melo e Manoel Antônio Bruno Filho, o Nezinho, aqui em Florianópolis, na RDM. Ambos, Augusto e Nezinho, como colegas sempre foram gentis e prestativos. Como pessoas, se diferenciavam pelo seu recato e simplicidade. No exercício de suas atividades, brilhavam com seus dotes e perfeição executiva quando lidavam com os efeitos musicais e com uma tralha produzindo numa folha de flandres o som de trovões e ranger portas que não existiam; ou, então, com duas metades de casca de coco imitando o galopar do cavalo baio do mocinho da trama novelesca.

Recentemente, a então acadêmica Janine Silva* escreveu a crônica “Os contrarregras”, publicada no site do Caros Ouvintes e que reproduzimos a seguir.

O rádio sempre exigiu de seus profissionais criatividade, sensibilidade e certa habilidade na improvisação, mas uma função pode ser considerada a personificação dessas características: a de contrarregra.

Enquanto os sonoplastas rodavam os efeitos gravados em vinis, o contrarregra fazia com que os objetos mais comuns dessem origem a diversos sons. O público, em casa, ouvia o ruído de um cavalo correndo pela estrada; um incêndio a devastar uma casa; o tic-tac de um relógio; enquanto, no estúdio, o contrarregra batia cascas de coco da baía contra uma mesa; esfregava folhas de papel ou plástico entre as mãos; batia em um anel com um lápis…

Para aqueles que ouviam as radionovelas em sua sala de estar, esse profissional passava despercebido. Envolta pela trama, a audiência absorvia os efeitos sonoros com naturalidade, talvez, um sinal da eficiência dos que ocupavam esse cargo. Os ruídos deviam ajudar a construir a atmosfera da trama encaixando-se perfeitamente nela. E isso exigia dedicação. Quando não estavam ao vivo, auxiliando nas transmissões, os contrarregras passavam horas a tentar descobrir novos sons e aprimorar o seu trabalho.

Mas quem preferia acompanhar o espetáculo pessoalmente, com certeza reparava naquela figura, atrás de uma mesa repleta de objetos: sinos, bacias cheias de água, caixinhas de madeira…  Era assim que Manuel Bruno Filho poderia ser encontrado de segunda a sexta-feira no estúdio de radioteatro da rádio Diário da Manhã, ajudando nas produções dirigidas por Aldo Silva.

Assim como outros tantos profissionais do rádio, os contrarregras migraram para as emissoras de televisão quando as radionovelas, em sua maioria, deixaram de ser transmitidas. As radionovelas marcaram a história radiofônica, não só de Santa Catarina, mas de todo o Brasil ao contribuir para a magia do radioteatro”.

Janine Silva, aluna da 5ª fase do curso de Jornalismo da UFSC e voluntária no projeto de extensão Museu do Rádio de Santa Catarina.
Publicado em 16/10/2013.
Foto: Lúcia Helena Zaremba, reprodução
Entre Ouvidos – Sobre Rádio e arte, Lilian Zaremba, Org. 2008.

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