Aula de rádio – 7

A exclusividade – Depois de conquistar o prestígio dos paulistas após a Revolução  de 1932, a Rádio Record, que se consagrou a Voz de São Paulo, já tinha em seus quadros o locutor Nicolau Tuma.
Por Paulo Brito, de Barcelona

Ele acabou convencendo Paulo Machado de Carvalho Filho (o Marechal da Vitória, que dirigiu as seleções das copas de 1958 e 1962) a fazer irradiações esportivas. Nessa época o futebol já era um esporte popular e caminhava para a profissionalização, ocorrida em janeiro de 1933.

Para aproveitar a nova fase desse esporte no Brasil, a Record criou um serviço inovador: em 10 de junho daquele ano, a emissora instalou um placar dentro do estádio para manter os torcedores informados sobre os outros jogos que estavam acontecendo em outros estádios.

O rádio, então, era um meio popular e conforme jornais da época, alguns ouvintes preferiam acompanhar os jogos em casa, sem precisar se expor ao sol e ao desconforto dos estádios. A perda de seus público para o rádio não agradou aos cartolas e naquele mesmo ano de 1933, a Rádio Record recebeu uma carta da APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), entidade que representava os clubes de futebol de São Paulo, informando que as irradiações estavam prejudicando as arrecadações.

Não demorou muito, as transmissões diretas foram proibidas e somente uma emissora teria a exclusividade das irradiações. Segundo Nicolau Tuma, a proibição começou em 1934, com muito protesto dos profissionais. Em São Paulo, o monopólio era da Organização Byington, grupo economicamente forte, que possuía quatro emissoras de rádio (Cruzeiro do Sul e Cosmos, em São Paulo: Cruzeiro do Sul e Clube do Brasil, no Rio de Janeiro).

Locutores de outras emissoras não podiam trabalhar nos estádios do Parque Antártica (do Palestra Itália, atual Palmeiras/Parmalt) e Parque São Jorge (do Corinthians), os maiores naquela época em São Paulo. A Byington instalou cabinas exclusivas para seus locutores nesses estádios e os concorrentes colocaram a criatividade em campo para burlar essa medida.

Eles sempre davam um jeito de narrar os jogos, nem que para isso fosse necessário subir num telhado de uma casa próxima e improvisar um local que desse para ver o jogo fora dos estádios. Nicolau Tuma estava entre os que não desistiam e sempre conseguia irradiar as competições.

Uma vez ele instalou uma escada de 14 metros ao lado do estádio do  Palestra Itália para irradiar um jogo. Outro episódio foi a corrida do Circuito da Gávea, competição disputada no Rio de Janeiro. Proibido de última hora de entrar na pista, ele instalou doze telefones com três observadores em cada um dos pontos para passar informações de tudo o que se passava dentro do circuito. Conclusão: o locutor narrou uma corrida sem ver, mas transmitiu todos os detalhes, enquanto a emissora que tinha os direitos ficou centralizada em um único ponto, sem poder ir muito além na irradiação.

Os locutores esportivos comentam que a exclusividade da Byington durou até o início da década de 40, período  que coincide com a inauguração do Estádio Municipal do Pacaembu. As cabinas do estádio municipal eram abertas para todos os profissionais, e como a maioria dos jogos passou a ser disputada no Pacaembu o monopólio da Byington terminou. Outro fato que contribuiu para o fim da exclusividade, segundo Blota Júnior, locutor da Byington na época, foi a idéia de Paulo Machado de Carvalho de instalar uma torre do lado de fora do Parque Antártica e ainda a contratação de locutores do Grupo.

O profissionalismo – Passada a fase do amadorismo, São Paulo ganhou uma emissora especializada em esportes que provocou um salto qualitativo nas irradiações esportivas. Assim que comprou a Panamericana, Paulo Machado de Carvalho, um apaixonado por esportes, resolveu transformá-la em Emissora dos Esportes. Ele colocou seu filho Paulo Machado de Carvalho Filho, no comando da emissora, e para montar o departamento esportivo da estação contratou o locutor Pedro Luís e outros profissionais de destaque na época com o objetivo de formar uma equipe de primeira linha.

A Panamericana criou o primeiro departamento esportivo do rádio brasileiro. Até então, as emissoras não contavam com uma estrutura organizada para o trabalho área de esportes. Vários programas diários foram criados e  a estação passou a cobrir todas as modalidades esportivas, o que obrigou as concorrentes a também montar seus departamentos.

De 1931 para cá, a irradiação esportiva pelo rádio se sofisticou, explorou vários recursos tecnológicos e também incentivou outros segmentos a se desenvolverem. A estrutura organizada implantada pela Rádio Panamericana antecipou a criação do departamento de jornalismo  e o fim do gilete press.

O próprio Repórter Esso, que começou em 1941, durante a Segunda  Guerra Mundial, e foi o ponto de partida para consolidação do radiojornalismo brasileiro, pecava porque os locutores liam os telegramas do jeito que vinham da agência internacional United Press.

A falta de uma redação adequada para o radiojornalismo preocupava Heron Domingues, apresentador do Repórter Esso na Radio Nacional, do Rio de Janeiro. Heron sabia que o texto radiofônico deveria ser diferente do da mídia impressa e o seu sonho era criar uma redação dentro da emissora, mas muitos achavam que isso seria uma verdadeira loucura. Finalmente, em 1948, o radialista conseguiu implantar a primeira redação de radiojornalismo.

Sônia Virgínia Moreira, jornalista e pesquisadora, diz que o departamento era estruturado da seguinte maneira:

A Seção de jornais falados e reportagens fundada por Heron Domingues na Rádio Nacional organizou, pela primeira vez, um sistema de equipe (um chefe, quatro redatores e um colaborador do noticiário parlamentar), rotina e hierarquia peculiares a uma redação de jornalismo radiofônico.

A estrutura idêntica à dos departamentos de esportes, que então já existiam.

Como lançador de uma série de novidades, o rádio esportivo também evoluiu e suas irradiações ficaram mais ricas e variadas. O locutor que antes trabalhava sozinho, hoje conta com uma equipe de profissionais e toda uma infra-estrutura de recursos técnicos, que vai do satélite ao telefone celular. As emissoras abriram espaço para o jornalismo esportivo e se esmeraram na prestação de serviços aos torcedores durante a semana e nos dias de competição.

As irradiações passaram a ser ilustradas com vinhetas eletrônicas, sons e músicas que anunciam a reprise do gol, o placar ou o tempo de jogo. Tudo muito diferente da época de Tuma, que era obrigado a narrar 90 minutos de uma partida de futebol sozinho. Mas a técnica estabelecida por Tuma permanece.


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Por Paulo Brito

Jornalista, professor e cronista esportivo. Integrou o grupo de trabalho que decidiu pela criação do Curso de Jornalismo da UFSC. É autor do livro “Dás um banho Roberto Alves – o rádio, o futebol e a cidade. Trabalha em rádio participando de programas de debates. Atua como consultor voluntário do Instituto Caros Ouvintes.
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