Aula de Rádio – 1

Abri a porta e fui entrando. Queria ser discreto, mas não consegui por a porta fez barulho e todos me olharam. Eram 60 alunos sentados num pequeno anfiteatro.
Por Paulo Brito, de Barcelona
Me deixa pensar… quatro a cinco degraus, como uma arquibancada, como um auditório em forma de uma ferradura. No meio da sala uma mesa com um microfone e ao lado mais dois cada um num pedestal. Os fones colocados em cima da mesa. Atrás uma janela envidraçada, parecendo um aquário.

Sentado, junto à mesa, um cara moreno de bigode com mais ou menos 35 anos. Era o professor. A aula estava começando para os alunos de graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona. Era o estúdio de rádio e eu acabara de entrar.

O professor falava em espanhol, explicando o desenvolvimento do trabalho que os alunos teriam que entregar no dia 22 de dezembro, antes do início das férias de inverno, antes do Natal. Eles seriam divididos em grupos de seis e o tema era entregar uma relação das emissoras de rádio da região da Catalunha, indicando a potência, freqüência, a propriedade, o alcance e localização no “dial” do receptor. As emissoras livres e municipais estavam excluídas da pesquisa.

Este era o primeiro trabalho da disciplina Linguagem do Rádio para os alunos de jornalismo. Em seguida o professor escolheu um aluno e pediu que fosse ao microfone.

– Você tem que explicar como se frita um ovo. Um ato simples.

Os alunos concordaram. Estava começando a parte prática da aula da Linguagem no Rádio. O aluno no microfone tentou explicar falando como é simples fritar um ovo. Os companheiros ajudavam induzidos pelo professor. A cada manifestação ele procurava uma maneira para ensinar e explicar os princípios da linguagem do rádio. Como é difícil.
 
Pediu que todos escrevessem uma receita de qualquer “prato” que eles conheciam ou sabiam fazer. Deixou os alunos escrevendo, trabalhando e saiu da sala para procurar o técnico de som. A seguir ele queria gravar o que os alunos iriam dizer. Aproveitei, dei a volta e…

 – Soy brasileño, estoy aqui…
 – Mucho gusto. Yo soy Jose Luís…
 
Voltamos e logo em seguida uma aluna veio ler a receita. Gravaram. Não consegui entender bem. Veio uma segunda aluna e novamente não consegui entender. Uma loura bonita e charmosa, leu em espanhol o que escrevera e entendi a receita de como se faz um macarrão com um molho de queijo, creme de leite e ovo.
 
Quando acabou de gravar o professor pediu que outra aluna repetisse o que havia escutado. Ela respondeu mais ou menos. Aproveitou para falar que no rádio não há outra oportunidade, não se pode repetir a informação, que o ouvinte não pode reler a notícia como acontece quando tem um o jornal ou uma revista nas mãos. Ele foi enfático:

– Ou o ouvinte escuta ou não.
 
Acrescentando que para  se aprender a falar e a escrever para o rádio é necessário, antes de tudo, saber ouvir. O silêncio é importante. Manda repetir a gravação feita pela loura, aquela bonita e charmosa, enquanto vai falando.

– Está faltando alguma coisa?
………… 
– O que?
…………
– Efeitos, música, vozes.
– ………….. 
– Vocês colocariam uma ou duas vozes?
-……………….. 
– Que música? Orquestrada ou cantada?
– Orquestrada, – respondem os alunos.
– Porquê? – perguntou.
 
Vieram as respostas. Um grupo argumentou e uma das garotas sugeriu que se colocasse o “Sole Mio”.

– Porquê?

A loura, aquela bonita a charmosa, autora da receita, respondeu:

– Identifica. Macarrão é uma comida italiana e o “Sole Mio” é um clássico da música italiana.
– Como colocamos a voz: uma ou duas?
-…………
– A música permanece?
-………………
– Esta é a idéia, mas como temos que montar. Escutar para ver como fica a idéia. Depois damos o toque final  e feito isto…
 
Cinco minutos de intervalo. Faltavam dez minutos para as duas da tarde em Bellaterra, próximo a Barcelona.

– A esta hora ou dormem ou estão com fome, me explica enquanto continua: “Os alunos acordam às 7 horas para pegar um trem que leva 45 minutos de Barcelona a Bellaterra. As aulas começam às 9 horas, o trem vem lotado. São duas classes de passageiro: numa eles viajam em pé – 2ª classe e na outra só sentados – 1ª classe. As duas da tarde, estão cansados e com fome”.

Passa o intervalo de uma hora. Voltam todos. O radiojornalismo, no caso a Linguagem do Rádio, não é uma disciplina obrigatória no currículo do curso de graduação em jornalismo na Faculdade da Ciências da Informação da Universidade Autônoma de Barcelona.

– Quem tem um jornal? Indaga o professor enquanto manda o aluno sentar-se a mesa e ler, no microfone, uma notícia qualquer publicada no jornal.
 – O texto do jornal é para ser lido, o texto escrito para o rádio é para ser dito e  ouvido”.
 
Em seguida mandou o aluno colocar um lápis na boca e pediu que lesse novamente a mesma notícia. Mais três alunos repetiram o exercício. Depois me explica.

– Tenho que estimulá-los a perderem a inibição, aprender a falar em público, para o público. Alguns se escondem.
 
Exigiu que para a aula seguinte que os alunos trouxessem uma gravação deles lendo uma notícia de jornal gravada ora com o lápis na boca, ora sem o lápis.  Indicou uma bibliografia composta de dois livros: “O Rádio durante a Guerra Civil Espanhola” e o “Rádio do telégrafo e o Satélite”. No mesmo instante distribuiu um texto sobre a programação da primeira emissora de rádio espanhola, que entrou em funcionamento em 1924, dois anos depois da primeira rádio brasileira entrar no ar.
 
No final da aula e da tarde voltamos juntos para Barcelona. Pagou minha passagem no vagão de primeira classe. Falei das semelhanças, da história do rádio no Brasil, da televisão, de como são distribuídas as concessões, os privilégios que os políticos brasileiros tiveram durante a ditadura…

– Franco fez o mesmo e os beneficiários das emissoras de rádio na Espanha foram mais franquistas do que as emissoras estatais.

Fomos juntos no trem descobrindo as semelhanças e a universalidade do rádio. Os programas populares, os popularescos de oferecimento musicais, das conversas por telefone dando recados para quem esta longe, das faculdades e uma data que desconhecia daquele dia: do “santo do dia”. Conversamos sobre o ensino do jornalismo na Europa e no Brasil.

Em Londres, onde estive nas últimas férias, são 120 alunos em toda a Ilha. São 120 alunos de jornalismo, classes com oito alunos apenas. Mas em Madri são 120 alunos numa sala só. São 120 alunos numa turma só. O professor da aulas para 60 e a outra metade assiste em outro lugar por um circuito fechado de televisão. Na Universidade Federal de Santa Catarina – “onde fica? Depois explico” – limitamos o número em 44 por classe, mas nas disciplinas prática o limite passa a ser de 14 alunos…

A concorrência entre os alunos, na Espanha, é muito grande. Há muita competição entre os melhores que disputam o mercado. A luta começa no quinto ano quando as empresas oferecem trabalho durante as férias de verão. Pagam salários de 300 dólares, um pouco menos do que o salário mínimo espanhol. Mão-de-obra barata. No final, os donos das empresas de comunicação, analisam o desempenho dos “estagiários” e escolhem os melhores. Depois os contratam em definitivo. O sindicato não interfere porque não existe e não atuam. As emissoras estatais exigem que o jornalista tenha um diploma específico, enquanto que as empresas privadas não fazem muita questão.

Nas regiões autônomas, os jornalistas têm que falar duas ou três línguas: a nativa e o espanhol, mas a maioria domina o francês ou o inglês. Senão…

Barcelona, novembro de 1988

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Por Paulo Brito

Jornalista, professor e cronista esportivo. Integrou o grupo de trabalho que decidiu pela criação do Curso de Jornalismo da UFSC. É autor do livro “Dás um banho Roberto Alves – o rádio, o futebol e a cidade. Trabalha em rádio participando de programas de debates. Atua como consultor voluntário do Instituto Caros Ouvintes.
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