Aula de Rádio – 5

Nesta série de anotações de sala de aula assistidas por Paulo Brito durante sua estada em Barcelona, hoje apresentamos o final do texto do professor Emílio Prado da Universidade Autônoma de Barcelona.
Por Paulo Brito, de BarcelonaNa próxima semana, iniciamos a apresentação do artigo O Esporte no Desenvolvimento do Rádio por Edileuza Soares in Comunicação e Sociedade Indústria Audiovisual.

O tema do capítulo de hoje é A Entrevista Radiofônica

A entrevista é dos gêneros jornalísticos aquele que mais se adapta ao rádio e às características específicas do veículo. É uma das fórmulas mais ágeis para dar a conhecer uma informação ou para aprofundar o conhecimento dos fatos e suas conseqüências, assim como para aproximar-se da personalidade dos protagonistas das “histórias”.
 
Na entrevista se produz um universo comunicativo muito complexo, no qual intervém a comunicação interpessoal e, portanto, bidirecional, e por outro lado fluxos comunicativos unidirecionais diretos e distintos.
 
A entrevista, em todos os seus tipos e modelos, é formalmente um diálogo que representa uma das fórmulas das mais atraentes na comunicação humana. Produz-se uma interação entre o entrevistado e o entrevistador, fruto do diálogo. Esta interação – natural na comunicação humana – exerce em efeito de aproximação no ouvinte, que se sente incluído no clima coloquial, ainda que não possa participar.
 
Do fluxo da comunicação interpessoal que se desprende do diálogo entre o entrevistador e entrevistado, surge uma distribuição de informações a partir do receptor.
 
Por um lado, uma comunicação unidirecional direta que surge das respostas do entrevistado; por outro lado, se produz uma comunicação unidirecional distinta, que surge das respostas, mas é provocada pela ação do entrevistador.
  
Muitas vezes produz-se também outro fluxo unidirecional descritivo, que se desprende das observações, narrativas e descrições efetuadas pelo jornalista, mas que não exigem o contraste do entrevistado.
 
Dentro deste fluxo se inclui o ambiente acústico da entrevista. É comum se dar pouco atenção ao ambiente acústico, que pode empobrecer ou enriquecer a informação. É quase mais dramático e pode modificar o resultado da mensagem.
 
Outra variável que devemos considerar no universo da entrevista é a influência da familiaridade existente entre o entrevistador e o público. Esta influência pode  exercer um efeito de distorção.

Forma de realização da entrevista

Queremos recordar uma série de normas e características para a realização de entrevistas aplicáveis. O êxito de uma entrevista depende sempre da documentação ou conhecimento que se tem sobre o tema. Não basta apenas dominar a técnica da entrevista, nem dominar o veículo é preciso se ter informações a respeito do tema em debate. Sem o domínio e conhecimento do tema conduz, com freqüência, à realização de entrevista formalmente corretas, mas que não levam a uma quantidade suficiente de informações: seja sobre o personagem; seja sobre o fato noticioso. O ouvinte percebe a falha.
 
Além de dominar a documentação deve-se estar em condições de elaborar um esquema que conterá fundamentalmente os “itens” dos temas que devem ser tratados na entrevista. O esquema deve ser flexível e alterável em função do desenvolvimento da conversa.
 
Durante a entrevista podem surgir novos interesses que devem ser explorados, ainda que não estejam previstos. Naturalmente, para descobrir as novos interesses é imprescindível escutar as respostas do entrevistado.  Com freqüência, o entrevistador se preocupa mais com o brilho da pergunta seguinte do que com o que está respondendo o entrevistado. Desta forma, passam despercebidas muitas questões sobre as quais deveríamos pedir maiores esclarecimentos.
 
Em geral, esta atitude comporta certas derrotas. A mais freqüente consiste em planejar uma pergunta brilhantemente elaborada e obter como resposta um frustrante: “Como acabo de dizer…” Ainda que possa parecer óbvio, recordemos que as perguntas devem ser curtas, claras e concisas.
 
Não se deve monopolizar o microfone. Ao contrário, deve-se conseguir que seja o convidado que fale. Por outra parte, evitaremos estabelecer uma disputa com o entrevistado, que poderia desembocar naquele  momento grotesco no qual o jornalista tenta demonstrar que é uma autoridade na matéria. Se foi bem escolhido, o entrevistado sempre saberá muito mais. Esta disputa pelo brilho não tem sentido. O êxito do jornalista consiste em fazer fluir todas as informações com habilidade.
 
Este vício costuma combinar-se com outro que consiste em dar na pergunta toda ou quase toda a informação que se pretendia tirar da resposta, o entrevistado acaba respondendo:
 – “Exatamente, como você disse…”
 
Neste caso, a entrevista perde o ritmo e cria-se uma tensão que dificulta a fluidez.
 
Em algumas ocasiões poderemos usar este método para obter uma informação que esteja sendo escondida pelo entrevistado. Em tal caso pode-se pedir que responda: um sim ou um. Somente assim é recomendável incluir na pergunta toda a possível resposta.
 
O entrevistador deve observar ainda mais duas normas: Não perder tempo com declarações óbvias (como anunciar “primeira pergunta”, “a segunda pergunta”, “a pergunta seguinte”, “gostaria de perguntar”,etc..  A segunda norma consiste em evitar os vícios como: “bem”, “realmente”, “claro”, etc..)
 
O jornalista pode encontrar-se em duas situações difíceis numa entrevista. As duas vêm determinadas pela forma de responder do entrevistado.
 
Em um primeiro caso, o entrevistado tem tendência a dar respostas enormemente longas e confusas. Neste caso, a entrevista perde o interesse e o jornalista perde as rédeas; o ritmo e o domínio do conteúdo. Isto ocorre com muita freqüência e devemos tomar certas precauções. Convém avisar ao entrevistado de dar respostas curtas e concisas. O convidado, inconscientemente, se esquecerá deste detalhe poucos segundos depois. Mas, se o avisarmos previamente, poderemos recordá-lo através de sinais. Mas pode continuar esticando sua resposta teremos que recorrer a outras técnicas para interrompê-lo.
 
Em primeiro lugar, podemos observar os ciclos de respiração do convidado e, aproveitando uma pausa, colocaremos rapidamente uma nova pergunta. Nesta técnica, rapidez e decisão são fundamentais. As primeiras palavras da pergunta deverão ser pronunciadas com uma elevação de tom que obrigue ao entrevistado perder o fio do seu discurso. Além disso, estas palavras iniciais não transportarão informação básica, pois devido à mudança repentina de fonte -, o ouvinte não as entenderá. Em condições normais, entre resposta e pergunta deve-se deixar um espaço de cinco segundos que permita ao ouvinte situar-se novamente.
 
Se o recurso anterior falhar, existe um outro mais gentil. Consiste em recordar ao entrevistado, publicamente, a escassez de tempo e, por conseguinte, a conveniência de encurtar as respostas.
 
Somente quando todos estes recursos falham é que devemos interromper bruscamente, cortando sua palavra. Neste caso, não devemos voltar atrás para evitar a superposição repetida de vozes. Esta fórmula, repetimos, só deve ser utilizada em último caso.
 
A outra situação difícil para o entrevistador é quando o convidado é por demais lacônico em suas respostas. Neste caso, a entrevista perde ritmo ou se converte em pingue-pongue cansativo. Para romper esta dinâmica, muitas vezes dá resultado perguntar o motivo de suas afirmativas, pedir uma justificação ou expor uma tese contrária.
 
A duração das entrevistas, além da necessidade da programação, vem determinada pelo interesse que nunca deve se esgotar. Evitaremos que a entrevista morra de pé. Para isso, convém observar que as entrevistas desenvolvem uma curva de interesse que aumenta progressivamente a partir do seu início. A curva chega ao ponto máximo de interesse para cair vertiginosamente em seguida. Se nos adiantarmos a esta queda, cortaremos a entrevista justo no ponto de interesse máximo.
 
Para finalizar, insistiremos em que ao longo da entrevista devesse repetir o nome do entrevistado e recordaremos que a brevidade deva caracterizar o início e o encerramento. São totalmente desnecessárias as expressões de agradecimento. Os agradecimentos não constituem informação e, em todo caso, devem ser feitos já com os microfones desligados. Quando se realiza uma entrevista por telefone, o jornalista deve evitar todos os tiques das conversas telefônicas, tais como ir assentindo ou confirmando com um ou outro comentário o que diz o personagem. Estes recursos são confirmações que querem mostrar ao nosso interlocutor que seguimos escutando, mas não são válidos para as entrevistas informativas. Sua utilização se transforma num autêntico ruído.
 
Outro dos tiques que devemos evitar é o de tomar um tom como se estivéssemos nos dirigindo a uma pessoa que se encontra muito longe e nos comunicamos com gritos. Este tom é muito desagradável.
 
Nas entrevistas por telefone devemos observar as mesmas normas estéticas da realização de uma entrevista em estúdio, com a dificuldade suplementar que representa a não estarmos vendo o personagem. O exemplo seguinte corresponde também à entrevista informativa. Este caso deve ser evitado a partir das primeiras perguntas, já que todas as questões foram respondidas nas primeiras palavras. Fica a sensação de que a insistência do jornalista se deve a não ter escutado as respostas.
 
Por outro lado, em uma entrevista do modelo informativo não se pode fazer encerramentos tão longos; recordamos que devemos destacar o dado ou dados mais importantes fornecidos pelo personagem. [CO]
Na próxima semana:O esporte no desenvolvimento do rádio.


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Por Paulo Brito

Jornalista, professor e cronista esportivo. Integrou o grupo de trabalho que decidiu pela criação do Curso de Jornalismo da UFSC. É autor do livro “Dás um banho Roberto Alves – o rádio, o futebol e a cidade. Trabalha em rádio participando de programas de debates. Atua como consultor voluntário do Instituto Caros Ouvintes.
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