Aula de Rádio Esportivo

Nestes apontamentos de Paulo Brito hoje iniciamos uma nova série que tem como base o artigo da professora Edileuza Soares O Esporte no Desenvolvimento do Rádio. Este artigo foi inicialmente publicado em Comunicação e Sociedade – Indústria Audiovisual.

Por Paulo Brito, de Barcelona

O rádio esportivo teve grande influência no desenvolvimento da mídia radiofônica. Como um dos primeiros gêneros a se firmar no meio, o radiojornalismo esportivo foi obrigado a improvisar equipamentos e descobrir técnicas novas para colocar no ar suas irradiações. A necessidade de acompanhar excursões de clubes e da seleção brasileira ao exterior fez com que os profissionais da área explorassem as potencialidades tecnológicas que surgiam na radiodifusão mundial.

A descoberta de uma linguagem adequada para ao rádio, a implantação do departamento estruturado, o âncora e o sistema de gravação, são alguns dos exemplos das novidades lançadas pelo segmento e que mais tarde foram levadas para o radiojornalismo e outros departamentos do meio.

Em grande parte, o rádio esportivo evoluiu mais rapidamente que os outros segmentos por causa do futebol, modalidade que sempre foi o carro-chefe da sua programação. O gênero acompanhou o progresso desse esporte no país e foi muito importante na transformação do futebol em um produto de massa. Há cem anos, quando essa modalidade foi introduzida no Brasil por Charles Miller, em 1894, a sua prática era muito elitizada. Brasileiro, mas filho de ingleses, Miller tinha dez anos quando foi estudar na Inglaterra, país de origem do futebol. Aos vinte anos, ele retornou para cá com duas bolas na bagagem e praticamente forçou o São Paulo Athletic, clube de seus pais, a adotar a nova modalidade. Em pouco tempo, Miller, um jogador de talento, e  outros jovens de clubes de elite estavam praticando o futebol.

O rádio, implantado no Brasil em 1922, também era dirigido para um público de alto poder aquisitivo. Sua programação sofisticada chegava somente aos sócios que pagavam as mensalidades para as emissoras. Essa situação mudou no começo dos anos 30, mais exatamente em 1932, quando o governo autorizou a publicidade no rádio e o meio teve que se reestruturar e criar programas especializados para atingir o grande público. O esporte, então, surgiu como um novo apelo para essa mídia e sobrevive até hoje, mesmo com a concorrência da TV, enquanto o som com as imagens acabou com o radioteatro, a radionovela, os grandes musicais, os programas humorísticos e os de auditório.

Responsável pela divulgação e popularidade do futebol, transformado hoje em paixão nacional, o gênero esportivo teve o apoio dos empresários de rádio, que diante da concorrência se viram obrigados a investir nesse tipo de programação.

O esporte se tornou importante dentro da programação radiofônica e obrigatório nas principais emissoras brasileiras. Essas estações mantêm equipes especializadas com locutores, repórteres de campo, radioescutas, comentaristas e toda uma infra-estrutura necessária para cobrir não apenas o futebol, mas outras modalidades esportivas. Elas contam com noticiários permanentes e colocam no ar uma longa jornada em dias de jogos de futebol.

Pontapé Inicial – A transmissão esportiva ganhou destaque na programação radiofônica no começo da década de 30. O pontapé inicial desse processo foi dado em 1931, quando locutor Nicolau Tuma, da Rádio Educadora Paulista (primeira emissora de São Paulo, fundada em 1923) teve a idéia de contar para seus ouvintes todos os detalhes dos dois tempos de 45 minutos de um jogo de futebol, diretamente do local onde estava sendo disputado.

O jogo em disputa era entre as seleções de São Paulo e do Paraná pelo VIII Campeonato Brasileiro de Futebol. Foi naquele distante 19 de julho de 1931, no campo da Floresta, no bairro da Ponte Grande, em  São Paulo, que Nicolau Tuma descobriu uma técnica nova para as irradiações radiofônicas de esportes.

Para essa narração pioneira, o locutor teve que fazer praticamente tudo sozinho. Não havia repórteres, comentaristas, ajuda da publicidade e muito menos cabina. Ele era familiarizado com o futebol, quando garoto jogava bola, e por ser apaixonado pelo esporte costumava acompanhar as informações dos jogos, que eram transmitidos pelos alto-falantes na Confeitaria Mimi, localizada no Vale do Anhagabaú, centro velho de São Paulo.

Naquela época não havia numeração nas camisas dos jogadores, e um pouco antes do jogo começar Tuma foi até os vestiários para memorizar as características físicas de cada atleta. Com tudo pronto, o jovem locutor de vinte anos, que era estudante de direito e havia entrado na Rádio Educadora por concurso, aguardava o apito do árbitro Virgílio Fredrighi para transmitir o jogo. A partida estava marcada para às 3h da tarde, mas só começou às 3h25min, registrou o jornal A Platéia.

Nesta primeira narração, Tuma tentou fazer com que os ouvintes imaginassem o ambiente e o clima do local onde o jogo iria acontecer. Assim, ficaria mais fácil para os torcedores acompanharem os movimentos da bola e os melhores lances.  Antes de começar a irradiação, o locutor Nicolau Tuma pediu aos ouvintes para que se imaginassem diante de um retângulo. Ou então, para que eles pegassem uma caixa de fósforo para visualizar melhor o campo da Floresta. Do lado direito estariam os paulistas e do esquerdo os paranaenses. Esse foi o primeiro símbolo da narração de futebol a sobreviver até hoje.

Com a proposta de filmar oralmente todo o movimento da bola, o locutor narrou o jogo em alta velocidade, descrevendo os detalhes como uma metralhadora de palavras. No final do jogo, o placar foi de 6 a 4 para os paulistas. Mas não foi só a Associação Paulista de Esportes Atléticos que se saiu vitoriosa, o rádio também ganhou: descobriu a técnica para a transmissão esportiva lance por lance e começou a simbiose rádio e futebol. Daquela tarde de domingo em diante, o padrão metralhadora passou a ser regra número um para qualquer locutor que queira irradiar esportes. Mais tarde, Tuma ganhou o apelido de Speaker Metralhadora.

Além do estilo metralhadora, outra contribuição importante dessa irradiação para o rádio foi a criação de uma linguagem adequada para o meio. Em 1931, a radiodifusão no Brasil tinha somente nove anos e ainda tentava encontrar uma linguagem própria. O novo meio reproduzia textos da mídia impressa, que eram pesados porque os próprios jornais escritos ainda não haviam introduzido as técnicas dos manuais de redação, já adotadas em países mais adiantados.

O gilete press foi o nome dado a esse sistema de trabalhar com recortes de jornais. Em algumas rádios usa-se até hoje, por causa da falta de preparação, de estudo e de formação dos radialista. De acordo com o jornalista Mauro de Felice, com  a falta de redatores “As vezes, acontecia de o locutor ler: “Londres – urgente – Mais uma incursão aérea da Luftwaffe sobre Londres – continua na página…”

A produção do noticiário de esportes não era muito diferente, também dependia da mídia impressa. Mas  com a narração direta do local, o locutor esportivo era obrigado a improvisar e por isso a linguagem que ia ao ar se tornou mais leve, espontânea e dinâmica. A linguagem sempre foi fundamental no rádio. Para cativar o ouvinte, a fala tem que ser próxima do coloquial de forma a ser compreendida por qualquer pessoa, independente dela ser culta ou não. E nesse aspecto o rádio esportivo se antecipou.

Além do gilete press, antes da narração pioneira  de Nicolau Tuma as emissoras produziam seus boletins esportivos com informações fornecidas por clubes e entidades organizadoras das competições. Um profissional pegava as informações por telefone e depois anunciava os resultados. A Rádio Record tinha até uma sala com telefones ligados aos locais onde havia jogos para colher resultados das partidas, conforme recorda o empresário Paulo Machado de Carvalho Filho:

… o nosso amigo Siqueira colhia aqueles dados e ia correndo aos estúdio, que era a maneira mais prática daquele tempo. Era sair correndo e de lá dizer: “Olha, no jogo tal está tal e tal”…

Até 1931, os torcedores que quisessem saber algo sobre um jogo no exato momento da partida tinham mesmo que ir ao estádio. Depois da experiência da Rádio Educadora Paulista, ficou provado aos empresários de rádio e aos radialistas ser possível descrever para o ouvinte a partida lance a lance durante sua disputa.

Craques do Rádio Esportivo – Depois de Nicolau Tuma surgiram outros locutores que deram contribuições pessoais à transmissão e se destacaram por conseguir transformar a irradiação esportiva em verdadeiros espetáculos para atrair o espectador. O rádio esportivo também criou ídolos que se tornaram tão conhecidos do público quanto os craques do futebol.

O time de locutores esportivos contou com Rebelo Júnior, o homem do gol inconfundível, o primeiro a anunciar o gol com uma emissão longa de voz, ou seja o “goooooooooooooool”, incorporado depois por outros narradores esportivos.

O estilo festivo na narração foi lançado por Ary Barroso, um dos mais importantes compositores da música popular brasileira, que durante dezoito anos se dedicou à irradiação esportiva. Ao contrário de Rebelo Júnior, Ary não gritava “gol”, ele tocava uma gaitinha. A falta de cabinas obrigava o locutor a narrar das arquibancadas, junto com os torcedores. às vezes, a comemoração da torcida abafava o ruído do gol anunciado pelo locutor durante a irradiação e a gaitinha  foi a maneira mais prática que ele encontrou para não passar despercebido.

Apelidado de o homem da gaitinha, Ary  criou o recurso que mais tarde daria origem às vinhetas sonoras, hoje ingredientes básicos para tornar as narrações mais atraentes. Mesmo assim, os efeitos sonoros demoraram ainda algumas anos para se incorporar definitivamente ao rádio esportivo. O comentarista esportivo Ari Silva (presidente a segunda Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo), esclarece que o uso de vinheta no segmento foi introduzido em 1964 por Nicolau Chequer, da Rádio Difusora. Na década de 70 a Jovem Pan implantou uma série de novidades na irradiação esportiva.

Gagliano Neto foi outro nome do time de locutores esportivos do rádio e o único que transmitiu a Copa do Mundo de 38, diretamente da França. A irradiação foi considerada na época um grande desafio para o rádio brasileiro, porque até então os locutores haviam se aventurado a transmitir de países da América do Sul, mas da Europa era novidade. O jogo foi narrado por uma cadeia de emissoras da Organização Byington.

Tivemos também o talento de Pedro Luís, seguidor da escola de Nicolau Tuma e que se destacou pela precisão e clareza com que transmitir as informações aos ouvintes. Mas o radiojornalismo esportivo teve  também locutores folclóricos, como Geraldo José da Almeida, torcedor “roxo” do São Paulo, que não fazia o menor esforço para disfarçar o amor ao seu clube. Apesar disso, Geraldo José da Almeida era um bom profissional e foi um dos poucos locutores de rádio que deu certo na televisão.

Tantos outros profissionais se destacaram na narração esportiva, entre eles Edson Leite, Oduvaldo Cozzi, Jorge Curi, Blota Júnior e os atuais Osmar Santos, Fiori Gigliotti e José Silvério em São Paulo. Até Narciso Vernissi, o homem do tempo da Rádio Jovem Pan, fez parte do time do rádio esportivo. Ele implantou o plantão esportivo dentro da programação de esportes.

A maioria desses profissionais teve atuação entre São Paulo e Rio de Janeiro. Programas humorísticos também fizeram parte das transmissões esportivas. Mas o ponto alto do humor foi o “Show de Rádio”, criado por Estevam Sangirardi, que começou na Jovem Pan, depois foi para a Rádio Bandeirantes e chegou até a ter uma rápida passagem pela TV.

(Aula de Rádio 6. Na próxima semana: A exclusividade. O profissionalismo.)

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