Aurora

Tece-se a tímida trama da aurora, feita de pálidas e diáfanas nuvens, de fracos rubores e poucos carmesins. Súbito, surge um pontinho de luz entre o buquê de nebulosidade. Aos poucos, essa luzinha aumenta seu brilho, como se, com força mansa, porém determinada, buscasse escapar do filtro de algodão acinzentado.  Então, acontece uma explosão de luz, num jato de brilho amarelado que, se olhado frontalmente, cega por instantes nossos olhos. O milagre acontece, mais uma vez, como desde todo o sempre: acende-se a luminosidade do dia; a aurora se impõe. Porém, essa sinfonia de luz não é elaborada facilmente. Ela tem de compor-se com a resistência das nuvens, com a cumplicidade do vento; precisa varrer do céu os vestígios de negror da noite; necessita vencer definitivamente as trevas, acendendo, aos poucos, as ainda vacilantes luzes do dia.

As montanhas, o mar, os rios, as florestas, as flores, os pássaros; as estradas lisas e bem construídas, os pobres caminhos de terra, as ruas, as avenidas – tudo saúda a luminosidade que surge.

Os edifícios, com seus vidros, e todas as superfícies refletivas – as janelas das casas, as águas, as coberturas metálicas das fábricas – recebem sua cota de luz e a refletem, contribuindo para construir o dia que vai nascer plenamente.

Os olhos dos seres humanos madrugadores, esses também se transformam em espelhos, refletindo a luminosidade que se instaura aos poucos. As almas das pessoas sensíveis – como os poetas, os loucos, os artistas, as crianças – igualmente se transformam em pura refletividade dessa luz que é vida.

As aves noturnas cedem lugar aos seres voadores do dia: há pardais, rolinhas, pombos, nas cidades; há sabiás, quero-queros, canários-do-brejo, e milhares de outras espécies, nos campos; há os animais da terra, das árvores, das matas, das campinas, dos lamaçais; há seres miúdos e seres microscópicos; há outros grandes, uns mansos e outros na brabeza que é defesa. Todos prestam sua homenagem à aurora, que em pouco tempo vai se despedir, depois desse exagero de beleza, deixando lugar à claridade mais contida da manhã.

A aurora nasce em silêncio. Mas aos poucos vai incorporando todos os ruídos, que acabarão se convertendo na sinfonia barulhenta do dia. Os barulhos vão aumentando, se espalhando; surgem daqui, dali, de acolá. E formam a massa de sons que só se reduzirá lá pelos confins do dia, caindo mais em intensidade no decorrer da noite, e morrendo na madrugada.

A magia do amanhecer é a mesma em qualquer lugar: nas megalópolis, nas cidades médias, nas pequenas, nos lugarejos; onde quer que seja, esse milagre se repete: é explícito nos belos dias em que surgirá o sol; é velada quando o dia será chuvoso, ou somente permanecerá nublado.

Mesmo os dias escuros ainda parecem ser uma concessão da aurora, que concorda em não impor seu jorro de luz, talvez para que os seres humanos saibam que nem só de beleza e de luminosidade se faz a vida.

Lamentavelmente, nossos corações, nossas lamentações ou nossas atribulações nem sempre nos permitem reparar na aurora. Com isso, perdemos esse espetáculo que nos é oferecido em cada dia da nossa existência.

Não obstante, a aurora é tão importante – simbolicamente ou nas suas dimensões reais – que precisa ser cultivada. Vale o sacrifício madrugador, vez em quando; vale vencer a preguiça; vale abandonar a cama quente; tudo vale para esse cultivo.

A aurora que faz nascer todos os dias, prezado leitor, talvez possa, quem sabe, fazer nascer também sua luz de vida dentro de cada um de nós.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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