Por J. Carino

Rádio Phillips antigo

O rádio na minha vida – Crônica 1

Era um rádio Philips, já antigo quando me entendi por gente. Caixa de madeira escura, mostrador colorido, botões grandes acinzentados. Esse maravilhoso aparelho, que povoa minhas lembranças mais remotas, era grande; tinha lá seu meio metro de largura por uns trinta centímetros de altura – descontadas as imprecisões da memória, que quase sempre aumenta ou […]

Flores na esquina

Há flores na esquina da minha rua. Não num jardim banhado pelo sol, acarinhado pela brisa fresca da manhã e regado pela chuva benfazeja. Mas, para quem tem olhos de ver, o quiosque da esquina também é um jardim. Numa caminhada, chego a esse jardim citadino e meus olhos se enchem da beleza de folhas, […]

Olhos

Abrem-se quando nascemos e se fecham quando morremos: os olhos. Para alguém privado da capacidade de ver, cerra-se essa abertura crucial para o mundo de cores e formas. Desliga-se a luz que nos invade na claridade das manhãs, na ofuscante iluminação de um meio-dia ao sol, no lusco-fusco do fim do dia e início da […]

A última partida

Havia um campo verde, que se via das alturas. Eles não sabiam, mas ali se desenrolaria a última partida – aquela que  todos perdemos. Havia a alegria das conquistas em progressão, que levaram na mala dos sonhos. Risos, conversas e alegria barulhenta talvez ainda houvesse, mas já escurecida pela noite chuvosa e má, como diria […]

Salve a imaginação!

Cresci no tempo do rádio, tempo em que a imaginação imperava. Vivemos, hoje, um tempo audiovisual, talvez muito mais visual do que auditivo. Sobretudo com o império da televisão, e depois das transmissões pela Internet, a predominância das imagens é inconteste. Ver parece ter se tornado sinônimo de viver. Naquele tempo, o cinema, com sua […]

Domingo chuvoso

  Escrevo, e ouço a chuva tamborilando no vidro da janela. Será que o recolhimento induzido pela chuva combina com domingos? Domingos não correspondem mais a dias de sol? A parques, a corridas e algazarra de crianças entre árvores frondosas, a passeios? Até nossas almas não parecem querer sair dos corpos e assumir uma vida […]

Sons na madrugada

Os sons são um ingrediente indispensável na construção das madrugadas. Noite adentro, há um mundo à parte criado pelos sons. Na madrugada, tudo ecoa; tudo é ruído, entonação; mesmo o silêncio ressoa, nem que seja somente dentro das almas insones. Mínimos barulhos se engrandecem e fazem-se presença forte e por vezes ensurdecedora, na madrugada. Um […]

Eu, seresteiro

Eu, seresteiro, vivo pelas canções. Minh’alma se alimenta de acordes e harmonias; meu corpo, do luar que banha as ruas nas madrugadas calmas. Meu coração-cantor entoa cantigas – de dor, saudade, ciúme, mistério, paixão – que são sempre de amor. São um amor profundo pela vida, pelas pessoas, pelas coisas, traduzido em versos casados com […]

A cigarra na tarde

Monótono, grave, encorpado, de timbre inconfundível – eis o canto da cigarra. O suor poreja em nossa pele. O verão cobra seu preço, tornando o ar abafado. Ah, como sonhamos com cascatas de águas frias entre árvores numa serra! Quem dera agora uma bebida ou sorvete bem gelados! Nosso corpo sofre com o calor, mas […]

O fascínio das roupas velhas

Quase todo mundo parece ter fascínio por peças de roupa velhas. Aquela camisa, aquele vestido, aquela calça, aquela saia têm alguma coisa que faz com que nos prendamos a elas, coisa que as roupas, quando novas, não nos podem oferecer. Que mistério envolve essas roupas usadas que as fazem despertar nossa atenção? O conforto, sem […]