Por Flávio José Cardozo

Coisas do azul

Ainda te atropelam – dizia-lhe a mulher, que às vezes o acompanhava na caminhada  e que não gostava daquela mania dele de se distrair e de andar lá no meio da rua. Mais de uma vez puxou-o pelo braço. Ele achava graça. Tinha mesmo graça ser atropelado numa estradinha roceira como a de Santo Antônio […]

Ao velho vento

Escrevo vendo pela janela uma dança de árvores. Soltaram o ventão de novo. Quando menino, eu me perguntava em que lugar o vento ficava enroscado, descansando, depois que passou por nossa vila fazendo as árvores dançarem. Mais tarde, aprendi dois desses esconderijos dele. Por Flávio José Cardozo O vento sul criou em mim um automatismo: […]

O cofre do morto

O filho mais velho veio ver a mãe. Depois de alguma conversa, apontou para o cofre. Disse que deviam abri-lo. A mãe sabia o segredo? Ela estremeceu. Concordara em desfazer-se das roupas do marido, não tinha mesmo sentido ficar com elas, mantê-las seria apenas aumentar a tristeza. Por Flávio José Cardozo Concordara em dar o […]

Moça com gaiola

Foi justo no dia da primeira caminhada para os lados de Sambaqui. Uma mulher levando uma gaiola. Achou curioso, nunca viu mulher fazendo isso. Muitos homens desta ilha pegam seus sabiás, seus curiós, seus coleiras, e passeiam com eles pelas ruas, mas mulheres não, não é verdade? Ele ao menos nunca viu. Pois aquela ia […]

Pulos de gato

A senhora gorda raspa os três bilhetes, faz uma cara de desencanto, diacho, não tem sorte mesmo, o cego então dá o palpite: que ela compre mais três e os leve para raspar em casa, tem o pressentimento de que, raspando mais três em casa, ela ganha. Por Flávio José Cardozo É um palpite que […]

Chiquita

Conheceram-se na loja de calçados em que ela trabalha desde mocinha. Está lá há uns 15 anos, talvez 20, estimada pelo patrão e pelas colegas, dedicada, bom gênio, sem queixas de ninguém, sem ninguém ter queixas dela. Os fregueses acham-na logo simpática, com seu jeito manso é uma ótima vendedora. Por Flávio José Cardozo No […]

Pecadora

Começo de expediente, os jornais do chefe (que só chega às oito e meia) passam pela primeira leitura: a secretária de tantos anos pega um, o jovem datilógrafo-arquivista tem licença dela para pegar outro. Por Flávio José Cardozo – Viva a vida! – grita Dona Romália, faceira. – Escuta só, Evandro: “As emanações lunares chegam […]

Fazendo as contas

– Madalena amada, eu andava querendo tanto te encontrar, te dar um abraço. Deixa eu te dar um abraço. Assim. Assim. Ai meu Deus, fiquei tão chateada quando me contaram o que houve. Vocês dois pareciam tão numa boa. Eu vivia dizendo: a Madalena e o Lourival não se desamarram nunca, nunca. Mas duma hora […]

Encontro

Ele empurra o carrinho, a mulher fica ainda atrás de alguma miudeza. A demora dela nessas miudezas! Vai esperá-la ali  na frente,  sabe lá se não encontra um conhecido para bater um papo. Um conhecido de conversa alegre, espera, que amarga já  basta a vida. Por Flávio José Cardozo Outro dia, encontrou o Jurandir, que […]

Brigadeiro

Ele veio com seu terno de casimira com listras, a camisa abotoada até o pescoço. Está faceirinho e o domingo combina com o passeio – é um domingo ensolarado, azulíssimo. A filha, que trouxe também os seus dois meninos, quer que seja uma tarde memorável. Pois há de ser, há de ser… Por Flávio José […]