Avez-vous, um dos maiores sambistas de Florianópolis

Não gosto de fazer homenagens póstumas. O homenageado, quem deveria ver, não viu.

Aves-Vouz--Mas não posso deixar de falar do manezinho Abelardo Henrique Blummenberg, o Avez-vous (lê-se “avevú”), um dos maiores sambistas que Florianópolis já teve.

Avez-vous nasceu em Florianópolis, no dia 13 de julho de 1929, na Rua Tenente Silveira, atrás do hoje Palácio Cruz e Sousa. O apelido é em decorrência de uma desatenção em sala de aula. Durante a aula de francês, enquanto a professora, sua tia, explicava a conjugação dos verbos, Abelardo conversava com amigos. A professora então lhe chamou atenção e mandou que ele conjugasse o verbo que ela explicava. Um colega, sentado atrás, ia soprando para Abelardo. Quando chegou o momento de avez-vous, Abelardo se confundiu, falou errado e foi mandado para fora de sala. Desde então, o verbo acompanhou Abelardo por toda a vida.

Segundo ele, era o sambista que mais recebeu títulos de campeão do carnaval. Recebeu mais títulos do que a Copa Lord ou a Protegidos. Isso porque, ainda segundo ele, antes de existir a Copa Lord, a Protegidos não disputava com ninguém. Sendo assim, não poderia ganhar nenhuma disputa. Durante um tempo se afastou da Copa e foi para a Protegidos. Ganhou alguns carnavais com a Protegidos, e todos os outros carnavais com a Copa Lord.

Avez-vous era detentor de muita história do samba de Florianópolis. Conheceu todos os sambistas, os malandros, os bandidos, os burgueses, bateu, apanhou, literalmente brigou pela Copa Lord. Houve, certa feita, um encontro da Copa Lord com a Protegidos na Praça XV, que sobrou baqueta pra tudo quanto era lado. Histórico, mas não apropriado para o momento.

Em uma das suas várias incursões ao Rio de Janeiro, onde morava sua irmã, conheceu a famosa Madame Satã. O contato se resume ao fato dela ter lhe roubado um copo de cerveja em um dos butiquins da Lapa. Roubo este nunca reportado à polícia. Coisa pouca, mas o suficiente para virar história. Trouxe do Rio muita informação aplicada em Florianópolis: sambas, instrumentos, como tocar. Inclusive um dos sambas mais conhecidos na cidade, o Hino da Copa Lord, registrado em seu nome em parceria com Fogão, teria sido plagiado da Escola de Samba Canários das Laranjeiras, do Rio de Janeiro. Eu até fui ao Rio, na sede dessa escola de samba, procurar, mas não consegui encontrar o tal samba daquela Escola.

Compositor de sambas e sambas enredo, compôs o primeiro samba enredo de Florianópolis: “Vem forasteiro”, em 1956, para sua Copa Lord. Avez-vous é autor de livro: “Quem vem lá? – A história da Copa Lord”, lançado em 2005, onde conta todas as suas lembranças. Avez-vous foi vereador. Avez-vous foi advogado. Avez-vous foi um dos maiores boêmios de Florianópolis. Na sua mocidade, era facilmente encontrado no Bar do Seu Segundo, na região dos Canudinhos, início da Major Costa, no Centro. Já na sua plenitude, era facilmente encontrado na mesa de carteado da Felipe Schmidt, em frente ao Senadinho.

Certas pessoas não deviam morrer. Não antes de ensinar tudo que sabem. Nesse sentido Avez-vous era novo. Ainda não tinha ensinado tudo. Não havia um sucessor. Não há um sucessor.

Faltavam 3 dias para o carnaval. Avez-vous ia para o samba. Passarela do Samba. Ia ver a sua escola, pela última vez. Último fundador da Copa Lord ainda vivo.

Avez-vous morreu atropelado na Avenida Gustavo Richard, paralela à Passarela do Samba, quando ia visitar os carros alegóricos. Passarela do Samba que leva o nome de Nego Quirido, seu amigo e também fundador da Copa Lord. Os carros estavam recebendo os últimos retoques, já na entrada do Sambódromo. Em um dia de chuva, ele estava sozinho e não utilizou a passarela de pedestres.

Faltando cerca de 1 mês para o carnaval de 1955 ele inicia sua trajetória. Faltando 3 dias para o carnaval de 2008 ele finaliza.

Avez-vous estava lúcido, tinha uma fala elegante, calma, um vocabulário vasto e discursava baixo para ter atenção.

Sempre foi respeitado. Sempre foi ouvido. Sempre foi. Sempre.

Até pra sempre!

“O primeiro carro alegórico da Copa Lord foi quando eu fiz o samba ‘Florianópolis, paraíso terreal’. Era uma ostra, grande, no meio da ostra o Rei Netuno e ao lado dele uma sereia. Um carro simples onde predominava o dourado. E a Protegidos da Princesa, quando viu que a Copa Lord vinha, na última hora fizeram um navio, um navio mais ou menos, do tamanho de 2 metros, por aí, mas um negócio mal acabado. Mas só porque a Copa Lord veio com carro alegórico. E o Filhos do Continente, pra não ficarem por baixo, botaram uma menina, filha do militar graduado lá do 14º Batalhão, uma lourinha, em cima do cavalo branco, Anita Garibaldi. Saiu como Anita Garibaldi, foi em 1965. Essas foram as primeiras alegorias das Escolas de Samba de Florianópolis.”

Depoimento dado a este jornalista em 30 de abril de 2007.

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