Babadas, barrigas, equívocos leves e outras besteiras (3)

Por mais planejada que seja, toda transmissão ao vivo está sujeita aos desígnios do inusitado. Pegos de surpresa, os profissionais de rádio recorrem ao jogo de cintura, mas, por vezes, deixam escorregar uma sonora gargalhada. Há o constrangimento do político acuado pela pergunta precisa, recorrendo a uma religiosidade senso comum. Luiz Artur Ferraretto

Outra vez, o ato falho obriga rápida reação. Pior, mesmo, quando não tem jeito de explicar nada e qualquer tentativa só reforça a hilariedade.

No primeiro caso, enquadra-se a reação do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, à estudada pergunta do repórter Roberto Maltchik, da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre. Aficionado pelo meio desde os tempos de estudante na Universidade Luterana do Brasil, em Canoas, o correspondente da RBS preparou, com cuidado, a pergunta a ser submetida a Lula na entrevista coletiva realizada no primeiro semestre deste ano, já com a crise política se configurando:
– Presidente, o senhor foi eleito para mudar a vida da população, mas o que se percebe é que o seu governo gasta por mês, como pagamento dos juros da dívida externa, o mesmo que gasta em um ano em infra-estrutura: 12 milhões de reais. Como o senhor se sente nesta situação? O senhor consegue dormir tranqüilo?
A pergunta de Maltchik soou algo atrevida para o presidente, que, após o impacto inicial, respondeu procurando fugir da cilada do questionamento proposto:
– Não só eu devo dormir tranqüilo, mas também você deve fazer o mesmo.
Na seqüência, Lula passou a listar uma série de projetos na área social e, talvez, recordando a sua proximidade com a Igreja Católica, resolveu apelar às mais profundas convicções do repórter:
– Meu caro, como cristão que você é, você deve ter consciência tranqüila disto também.
O detalhe: a maior proximidade de Maltchik com Jesus Cristo está na origem hebraica de ambos. A mesma voz que, diariamente, acompanha os mandos e desmandos da classe política em Brasília para os ouvintes da Gaúcha foi ouvida mais de uma década atrás lendo o Torah na cerimônia de Bar Mitzvah, entrada de todo judeu na vida adulta.
O mesmo Roberto Maltchik, cobrindo em 2002 uma convenção partidária do PDT, teve de recorrer a um subterfúgio para fugir de um ato falho. Ao entrar ao vivo na programação da Gaúcha, o repórter identifica o seu entrevistado:
– Deputado Adroaldo Loureiro…
O deputado murmura fora do microfone:
– Eu sou o Ciro Simoni…
E Roberto:
– E ao lado dele está o deputado Ciro Simoni, com quem eu converso agora…
Situação complicada mesmo viveu a equipe da Rádio Bandeirantes, de Porto Alegre, durante o jogo Grêmio e Bahia, em fevereiro de 2005, pela Copa do Brasil. O repórter Cristiano Silva aborda o jogador Marcinho, do Grêmio, na saída do gramado, logo após o ala ter sido substituído:
– Você sentiu alguma coisa, Marcinho?
A resposta rendeu gargalhadas aos ouvintes da Band naquela noite:
–  Eu tô debilitado. Eu comecei o jogo… A tarde toda, eu tive caganeira. Tô cagando pura água. Então, eu tô muito debilitado. Eu falei… Não dá. Eu tô tremendo…
Em meio a algumas hesitações e risadas dos integrantes da equipe de esportes, o comentarista João Carlos Belmonte, consagrado cronista esportivo gaúcho, tenta contornar:
–  É que a diarréia, realmente, debilita o jogador. Não há dúvida…
Ao que o narrador atalha:
– Debilita o repórter também – E tenta chamá-lo, sem efeito. Cristiano, ainda não recuperado, rola de rir à beira do gramado.


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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