Bairro do Estreito e Alô São José: os novos camianhos do rádio

A Rádio Guarujá de Florianópolis reinou sozinha nos seus primeiros 12 anos de atividades. Nesse período a ZYJ-7 evoluiu dos programas de oferecimentos musicais e das edições esportivas aos grandes shows de auditório e ao radioteatro.

Era a líder local, contra a audiência – ainda grande – das emissoras cariocas, paulistas, paranaenses, gaúchas, uruguaias e argentinas.

No final de 1954, início de 1955, duas novas emissoras entram na praça dispostas não só a brigar por uma fatia do bolo, mas abocanhar porções maiores do que as outras. Aí começam os problemas de audiência da “Mais Popular”.

A Rádio Anita Garibaldi, apesar do improviso da fase inicial começa mostrando a força de sua estrela. Entra no ar no dia 13 de agosto de 1954 e já no dia 24 realiza reportagem radiojornalística histórica com a repercussão da morte do presidente da República. Getúlio Vargas, conforme anúncio oficial fora encontrado morto exatamente às 08h30 da manhã daquela fria terça-feira.

Sem recursos técnicos e econômicos a emissora usou e abusou da criatividade. Com base em matérias divulgadas por emissoras de rádio e jornais do Rio de Janeiro, acompanhou o noticiário ininterrupto durante o dia e a noite de 26 para 26 de agosto. E no dia seguinte deu plantão chegando a simular entrevistas com personalidades políticas para evidenciar o caráter de exclusividade.

Assim, como se diz na gíria do futebol a Anitinha “gostou do jogo” e foi em frente. Transformou a falta de equipamentos e instalações – transmitia dos porões da casa onde ficava o consultório do proprietário da emissora J.J. Barreto – em diferencial, pois através do telefone “falava” de vários pontos da cidade e com isso ia envolvendo os ouvintes que acabavam sendo transformados no conteúdo da programação improvisada. Misturavam-se informações de utilidade pública, com pedidos musicais e com reivindicações que eram apresentadas como legítimas aspirações da população até em tão sem vez nas ondas da pioneira Rádio Guarujá.

Nesse clima entra em cena a Rádio Diário da Manhã. Em dezembro de 1954 vai ao ar em caráter experimental e no dia 31 de janeiro de 1955, explode nos lares e nos corações da cidade, com programação definida e muitas novidades a ZYT-26 que transmite na freqüência de 1010 kHertz. A festa de inauguração representada por um programa de auditório, contou com a presença das lideranças políticas da UDN – União Democrática Nacional, lideradas pelo ex-governador Irineu Bornhausen e altos próceres do governo do estado eleitos com o apoio da UDN.

No programa de inauguração, confirmaram-se as informações até então negadas que boa parte do elenco da nova emissora era representada por alguns dos mais expressivos nomes vindos da Rádio Guarujá. Lá estavam os irmãos Nívea e Ciro Marques Nunes, Edgard Bonassis da Silva e Florentino Carminatti Júnior que se juntavam a nomes já famosos como os de Souza Miranda e Humberto Fernandes Mendonça.

Com locutores de primeira linha, Francisco Mascarenhas – o diretor de programação da emissora – atacava também com grande impacto trazendo músicos, compositores e cantores que até então brilhavam na Guarujá: Zininho, Aldo Gonzaga, Dino Souza, Demaria, Neide Maria, Giulio Marino, Dilzo Silveira, Edi Santa e até os integrantes da Orquestra de Cordas do maestro Carmelo Prisco.

Como os objetivos da emissora eram políticos e o alcance da onda média se restringia à região da Capital, logo foi providenciada a instalação de outro canal, desta vez em onda curta, para cobrir todo o estado de Santa Catarina e ainda repercutir em outras partes do Brasil e até da América. A emissora de ondas curtas ZYT-29 foi ao ar em julho de 1956.

A essa altura a Rádio Guarujá não só perderá a liderança como tinha que disputar o segundo lugar com a Rádio Anita Garibaldi. A ZYT-25, sem o poder de fogo da Diário, foi para o segmento que vai do popular ao popularesco e aí dominava com programas de auditório, muita participação do público com a Discoteca do Ouvinte e uma ágil atuação em forma de flashs de reportagem por telefone ou pré-gravadas em vários pontos da cidade.

Percebendo o crescimento da Rádio Anita Garibaldi, a Diário da Manhã contra ataca e desta feita de maneira contundente sobre a audiência da Guarujá. Cria os primeiros programas com segmentação definida: Bairro do Estreito e mais tarde Alô São José. O Bairro do Estreito, um programa de variedades, criado e apresentado pelos irmãos Ciro e Nívea Marques Nunes, ia ao ar de segunda a sábado das 10 às 11 horas. Abria com a crônica do dia escrita e lida por Ciro Nunes e seguia atendendo pedidos musicais enviados por carta que eram lidas e comentadas pelos apresentadores. O programa incluía curiosidades, informações sobre hora certa, previsão do tempo, horóscopo e breves notícias locais, nacionais e internacionais fornecidas pelo sistema de rádio-escuta. O programa em 1957 foi transformado em Seqüências A Modelar transmitido ao vivo diretamente do palco auditório entremeando música e humorismo radioteatralizado.

Alô São José, de mais curta duração teve como um dos seus principais apresentadores o locutor Souza Miranda. Seguia a mesma proposta do Bairro do Estreito e visava trazer o comércio do visinho município para anunciar na emissora mais ouvida da Capital.

A Rádio Guarujá, nunca se intimidou com o avanço da concorrência. Mas, cometeu o equivoco de tentar ridicularizar os seus esforços a ponta de publicamente duvidar da possibilidade da Diário instalar uma emissora em onda curta. Também se manteve reticente em relação ao crescimento da rádio Anita Garibaldi. Perdeu terreno é verdade. Por outro lado, se isso é uma compensação – é a única que ainda hoje mantém a mesma estrutura e conserva o mesmo nome e a mesma linha básica de programação: música, esporte e notícia.


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