Baita ponte

Lembrei-me de William Holden, que testemunhou as derrocadas de Kwai e Toko Ri, em dois filmes sobre a guerra envolvendo ingleses e americanos contra o inimigo oriental. A ponte sobre o rio Araújo, entre Florianópolis e São José, vai longe de tal sucesso, mas que deu vontade vê-la explodir, isso deu. Porque temos administradores pródigos em levar quatro estações para inaugurar uma travessia de 15 metros, se tanto, importunando milhares de motoristas que nunca souberam a quem atribuir tal atraso numa obra tão miúda que dispensou guindastes e sofisticadas tecnologias construtivas.

Se a Golden Gate é mais conhecida pelos suicídios que assiste do que pelo portento que é, e se as pontes de Madison inspiraram um romance secreto, capaz demonstrar que Clint Eastwood nem sempre é o durão de pistola no coldre, a pontezinha dos Berger incitou a ira dos moradores da Capital e de seu vizinho de conurbação. Ira contra os técnicos e empreiteiros que engendraram uma encrenca no trânsito, um funil que perturbou meio mundo e forçou uma mudança que se tornou definitiva – o desvio pela avenida Beira-mar de São José, ornada com obras de engenharia de utilidade e estética duvidosas.

Já que o tema são as travessias, fui atrás de informações sobre a ponte de Waterloo, num drama hollywoodiano ambientado na Inglaterra, com o diferencial de ter Vivien Leigh no cast. Não menos tocante é a relação da personagem de Juliette Binoche com um artista drogado na Pont Neuf, que apesar do nome é uma das mais antigas do Sena. Trágico, espetaculoso, é o clímax da travessia de Cassandra num trem de luxo infectado por terroristas com um vírus letal. Menos mal que entre os passageiros estava Sophia Loren – e a devastação teria uma perda angelical a lamentar.

A nossa Hercílio Luz protagonizou o desfecho trágico do filme “O preço da ilusão”, feito por Salim Miguel e sua turma nos anos 1950. Dali também muita gente se jogou, nos tempos em que as desilusões amorosas justificavam o ato extremo de dar cabo à vida por uma paixão não correspondida. Hoje, é mais razoável se precipitar ponte abaixo após um prejuízo financeiro, um fracasso nos negócios, um golpe sofrido do sócio de extrema confiança que revelou seu verdadeiro caráter.

Diante de atos tão grandiosos, a entrega da ponte sobre o rio Araújo soa como um deboche. Ela deveria ter sido liberada ao tráfego com toda parcimônia possível, para não aguçar a raiva dos cidadãos de bem. O ano é de eleição, mas o dia do circo foi no mês de março…

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