Bar no Além

Luiz Henrique Rosa tingiu o bigodão com uma tira de espuma, molhando a “palavra” num chope hipergelado, abrindo o  sorriso Mané para um brinde:

Por Sérgio da Costa Ramos

Bambuzal (1)

– Rapazes, deixem de ser pessimistas! Foi um Carnaval daqueles, como o diabo gosta! Mas tudo o que é bom acaba! Agora é cinzas!

Psiu!!!, fizeram os parceiros do Bar do Céu:

– Fala baixo, rapaz! Tás querendo irritar o Patrão?

Convinha falar sempre “baixinho” o nome daquele grande desafeto. Afinal, aquele era um bar das alturas, um bar do Senhor.

Luiz Henrique pediu desculpas, não falara por mal. Aquele “diabo” não era substantivo, mas um mero adjetivo comparativo,  sinônimo de  “incrível”.

O reparo não melhorou em nada o constrangimento.

–  “Xá” pra lá! – pensaram, desde que o Chefe não tenha ouvido. Copos na mão, os quatro amigos olharam lá da eternidade a noite estrelada na Praça XV,  debruada ao fundo pelo colar da ponte Hercílio Luz, feérico, “assinando” toda a paisagem.

Adolfo Zigelli se emocionou, pediu um “fundo musical”:

– Toca aí o teu “Rancho do Amor à Ilha”, Zina!

Zininho, banhado em felicidade, sugeriu outro tema, que era seu e de Luiz Henrique. Sua conhecida modéstia terrena não se dissipara no Céu:

– Prefiro o “Se Amor é Isso”, que é meu, mas é também aí do Tito – citando o apelido íntimo do parceiro LH.

Zigelli insistiu no “Rancho”, o hino era perfeito para resumir aquele momento único.

Reinava uma Lua obscena, o Céu marcado por uma catapora de estrelas. O galego, radialista e jornalista dos bons, admitiu que, “se ainda estivesse lá por baixo, pela mossa Ilha”, abriria o “Vanguarda” desta quarta-feira com a seguinte manchete:

– O melhor Carnaval do século  XXI!

– O melhor! – fez coro Luiz Henrique.

Zininho usou uma estrofe de sua canção Miramar:

– “Pergunte ao Waldir Brasil / Ao Daniel, Narciso e Dião! E a outros velhos boêmios / E eles também dirão: o melhor!”

Zigelli renovou o copo, chamou o vereador Carusinho, que era amigo e era da UDN:

–  O melhor Carná do mundo é o de Floripa! Põe aí o “Rancho do Amor à Ilha”, Zina! É o nosso hino, o teu poema!

Zininho aumentou o volume do “Rancho”, deixou cair no chão a cinza crescida do cigarro, encostou um sussurro no ouvido de Luiz Henrique:

–É verdade. Floripa é o Rio do passado. Um Rio de Janeiro ainda civilizado. Mas vamos ficar  atrás do bambuzal, gente! Não espalha, senão aglomera!

FIM.

Colunista Sérgio da Costa Ramos – “Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado”. Diário Catarinense – quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016 | sergio.ramos@diariocatarinense.com.br

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