Barbeiragem

Num barzinho à entrada de Canasvieiras, um homem se aproxima do outro e diz…
Por Flávio José Cardozo

– O senhor, ali por perto da entrada pra Ratones, me provocou.
– Quê?
– Quando passei pelo senhor e fiz aquela ultrapassagem um pouco… um pouco… um pouco ousada, o senhor me chamou de barbeiro.
– Eu?
– Sim, o senhor, dono desse Corcel vermelho que está aí na frente e que ainda traz no vidro traseiro uma propaganda do Jânio Quadros. Não é verdade?
– É verdade. Comprei esse carro dum paulista e nem tive tempo ainda de raspar a droga da propaganda do Jânio. Uma vergonha.
– Perguntei se é verdade é que o senhor me chamou de barbeiro. A droga da propaganda não me interessa, ainda mais sendo do Jânio. Me interessa é que o senhor confirme se me chamou de barbeiro.
– Não chamei. Da cidade até aqui, encontrei um montão de barbeiros. Mas não chamei ninguém de barbeiro. Falar, gritar adianta?
– O senhor não me chamou de barbeiro com palavras, chamou com gestos.
– Com gestos? Que gestos?
– O meu carro é um DKV, relíquia da família. Se lembra dele?
– Ah, sim, um DKW…
 – Se lembra agora?
– Do DKV, sim. Quem não se lembra dum DKV que passa? Mas de ter chamado o senhor de barbeiro…
– Chamou. Eu fiz a tal ultrapassagem um pouco… um pouco ousada. Reconheço que foi ousada demais para as condições de nossas pistas. Não recomendo que ninguém faça aquilo, ainda mais com um DKV já meio entrado em anos, embora seja uma máquina valente como poucas que andam por aí. Reconheço, foi ousada. Agora, a sua reação…
– Não tive reação nenhuma!
– O senhor concordou com a minha ultrapassagem?
– Bem, para lhe ser franco… olha, eu me lembro muito bem da sua ultrapassagem. Para lhe ser franco, achei que ela foi a mais… a mais ousada que já vi nos últimos anos, incluindo nisso aquelas dos filmes que passam na televisão. Ela chamou minha atenção, realmente. Cheguei a ficar meio arrepiado, pois o senhor passou raspando na maçaneta do meu Corcel, acho até que riscou um pouco a lataria. Mas não falei nada, não fiz gesto nenhum, não senhor.
– E aquilo no rosto?
 – Aquilo o quê?
– A mão no rosto.
– Que mão no rosto?
– O senhor passou a mão no rosto, imitando um barbeiro barbeando.
– Não passei, cidadão.
– Passou. Eu vi que passou. Foi intencional?
– Ô diabo! Pois o senhor quer mesmo saber duma coisa? Quer? Foi intencional, foi. Chamei o senhor de barbeiro. Um grande barbeiro. E daí?
– Ah, ah! Custou, hein? Finalmente escuto isso frente a frente, com franqueza, na minha cara.
 – E daí?
 – Daí que é bem o que eu mereço. Mereço mesmo. Aquilo foi a maior barbeiragem dos meus vinte anos de DKV. Ainda estou tremendo, olha aqui as minhas mãos. Um puxão de orelha me alivia. Uf, que alívio! Que tal uma cervejinha pra gente relaxar e festejar a vida, hein, hein? 

(Do livro Tiroteio depois do filme, Florianópolis,
Lundardelli / Diário Catarinense, 1989)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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