Benefício do apagão

Antigamente, chamávamos a queda da energia de “falta de luz”; hoje, o nome é “apagão”. Todos tememos que, seja pela imprevidência dos governantes, seja como decorrência da pujança econômica, que devora quilowatts para alimentar a expansão da produção, ou pela combinação dessas duas coisas, o país mergulhe nas trevas. Desprovido de conhecimentos técnicos, e desinteressado pelo aspecto econômico, prefiro ver um lado benéfico no chamado apagão. Vivemos hoje em dia plugados nas tomadas. Da maravilhosa descoberta e do controle do fogo promovidos por nossos ancestrais até ao raio laser de nossos dias, passando pela fantástica invenção, por Thomas Edison, da lâmpada elétrica, foi um longo e fecundo caminho, em termos de conforto e avanços produtivos.

Não parece haver dúvida quanto às melhorias que nos afastaram da fogueirinha acesa por um Jeca Tatu e nos lançaram na profusão de luzes do shopping center; que nos levaram do fogão à lenha ao forno de microondas São indiscutíveis os avanços, em benefícios materiais, proporcionados pelas modernas fontes energéticas, entre elas a energia elétrica. E tudo indica que os biocombustíveis chegaram para ficar.

Como falar, pois, em benefício do apagão?

Pensemos, caro leitor, no que acontece quando, num desses apagões, de repente, o palco iluminado da vida pública, ou o nicho aceso de nossa vida privada, mergulham na escuridão.

Primeiro, fica tudo muito estranho em termos da comunicação entre as pessoas. Essa comunicação, até então impedida pelo noticiário ou pela novela das oito, trazidos pela hegemonia comunicativa da TV, fica livre, potencialmente desimpedida. E as pessoas podem até… conversar.

Incrível é que isso, a coisa mais natural que existe, pareça algo estranho. Aos mais jovens, sobretudo. Privados do bombardeio audiovisual da televisão, e com suas viagens pelas infovias e seus bate-papos impedidos pela impossibilidade de usar a Internet, os jovens e as crianças parecem perder de vez sua capacidade comunicativa. E o que geralmente fazem, nisso que lhes parece um desconforto absoluto, é procurar seus walkmans, iPodes e coisas assim, que ainda dispõem da energia salvadora acumulada nas pilhas e baterias.

Os mais velhos também parecem ter perdido sua capacidade de conversar. Mas conversar mesmo, olho no olho, vendo e ouvindo de perto o interlocutor, e não intermediados pela distância segura das comunicações telefônicas.

Um apagão torna estranhas não apenas essas relações dentro das casas. Se a falta de energia atinge grandes áreas, muitos e muitos quarteirões, ou mesmo cidades inteiras ou mesmo vários estados, tudo fica esquisito.

Uma das reações mais comuns das pessoas é correr às janelas das casas e edifícios, como se necessitassem de fugir de uma escuridão que as prende, quase que as obrigando a se comunicarem com os que estão próximos. Ou, pior que isso, a mergulharem dentro de si mesmas, quando optam pelo silêncio.

Sei que um apagão assim causa muitos transtornos e até tragédias, que podem ser provocadas, por exemplo, quando a falta de luz atinge as UT’is dos hospitais ou o sinal de trânsito da esquina. As ruas, já generalizadamente inseguras, transformam-se em inevitáveis cenários de assaltos. Porém, mesmo assim, o benefício da falta de luz me parece claro em termos das possibilidades que se abrem com relação à comunicação entre as pessoas.

Quando a luz falta, um dos benefícios possíveis é que as pessoas se juntam mais, se aproximam no mesmo cômodo. Aquela irmã com quem se brigou há pouco, aquele marido com quem se discutiu ainda agora, aquele filho que passou sem sequer dizer boa noite, estão aqui, pertinho de nós; podemos sentir seu cheiro, até ouvir sua respiração. E, tímida ou mais expansiva, alegre ou constrangida, fácil ou penosa, a comunicação acaba acontecendo, como forma de derrubar esse muro de trevas que abruptamente se interpõe entre nós e o mundo das coisas e das pessoas.

Ao que tudo indica, prezado leitor, andamos permanentemente ameaçados pelos apagões, apesar dos discursos tranqüilizadores de nossos dirigentes. Se eles são inevitáveis, aprendamos a conviver com eles, e a transformá-los num benefício. No escurinho da falta de luz podem surgir as palavras de carinho, as tiradas de humor que fazem todos curtirem juntos boas gargalhadas, ou mesmo os toques físicos de carinho, das mãos nas mãos, dos beijos, das carícias todas – coisas que independem das hidrelétricas, das usinas atômicas, das linhas de transmissão, dos fios embutidos nas paredes ou dependurados entre os postes da rua.

Felizmente, não existe falta de energia capaz de impedir a comunicação entre corações que se amam, corpos que se desejam e pensamentos que se afinam. Ao contrário, para isso podemos até contar com o benefício do apagão.

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