Beto Stodieck: irreverência cosmopolita

Por cultivar vínculos com metrópoles onde a vanguarda pulsava na arte e nos comportamentos, Beto sempre esteve à frente da maioria.

Beto e CacauNascido em 1946, o colunista Beto Stodieck viveu uma Florianópolis que ficou para trás, pacata e provinciana, que ele amava, mas que queria mais cosmopolita como Nova York e São Paulo, cidades que frequentava com assiduidade e desenvoltura. Como amigos, como Luiz Paulo Peixoto, Rômulo Coutinho de Azevedo, Max Moura e Valdir Agostinho, agitou o ambiente acanhado da urbe, estimulou a renovação nas artes e trouxe ideias e conceitos mais afinados com a modernidade para o dia a dia ilhéu.

Foi em “O Estado” e “Jornal de Santa Catarina” que Beto Stodieck exercitou um colunismo inquieto, inteligente, provocador. A coluna que fazia era um de critica que não poupava nem os amigos quando uma boa nota se mostrava mais importante que as relações sociais.

Políticos, autoridades de todos os calibres, burocratas, gente com visão limitada das coisas – todos eram vítima de sua ironia rebuscada. Ele combateu muitas transformações urbanas que descaracterizavam a Capital, e, certa vez, lamentou que imigrantes do Sul “amarrassem o cavalo” na Ponte Hercílio Luz e começassem a dar ordens na cidade.

O começo da carreira foi em 1971 em “O Estado”, depois que o colunista se formou em Direito e ensaiou os primeiros passos como jornalista no Rio de Janeiro. Em 1983, ele criou o “Jornal do Beto” e, um ano depois, foi para o “Santa”, com sede em Blumenau. De lá, voltou ao “Estado”, onde teve uma fase brilhante, embora já acossado por problemas de saúde.

Figura humana ímpar

Beto StodieckA morte do jornalista em seis de agosto de 1990, deixou Florianópolis órfã de um observador acurado de suas glórias e mazelas. Para muitos leitores, nunca mais o colunismo catarinense gestou um protagonista tão ardiloso e inteligente. Nos anos em que desempenhou essa tarefa, e anates ainda, agitando a vida cultural da cidade com o Studio A2, galeria de arte caracterizada pela ousadia e pelo pioneirismo, Beto demolia as certezas de um lugar muito dado a conveniências e compadrios.

O jornalista Mário Pereira, que o conheceu ainda no Rio de Janeiro, em meados dos anos 1970, escreveu sobre Beto no encarte publicado quando o “O Estado” completou 80 anos em 1995: “Além de uma figura humana ímpar e calorosa, Beto Stodieck foi dono de um dos melhores textos que já conheci. Digo, sem medo de errar, que ele criou um estilo. E tanto assim foi que muitos tentaram imitá-lo sem êxito. Por um motivo muito simples: Beto era extremamente bem informado, lia muito e sabia escrever. Manejava o português como poucos era quase obsessivo em relação à correção. Ia à loucura com os erros de revisão em sua coluna. Não hesitava em telefonar para dissipar dúvidas quanto a grafia de certas palavras ou à construção de algumas frases. (…) Seu estilo irônico. Seu humor ferino, seu jeito de ressaltar detalhes que aos outros costumam passar despercebidos, a rapidez do seu raciocínio transformaram a sua coluna num “must” do jornalismo catarinense”.

Em texto publicado na revista “Mural”, do fotografo Marco Cezar, Cacau Menezes definiu Beto Stodieck como mais que um colunista: “Era o guru da Ilha. Influenciava seu séquito a ser mais ousado nas roupas e no comportamento. Ninguém tinha mais importância na quebra de preconceitos do que esse cara. (…) Sacava tudo, por todos os lados. E não abria mão de dizer com quem queria andar, com quem queria namorar, com quem queria sair ou viajar. Elitista assumido, oriundo de família nobre, sempre cultivou o bom gosto, tanto à mesa quanto ao guarda-roupa. Era chique e, ao mesmo tempo, jovem e relaxado, podendo chegar nas festas com calça jeans e camisa Hering, ou com um Armani ou Gualtier. Gostava de grifes, de bons restaurantes, de gente bonita por perto e casa grande. Era mesmo classe A e não fazia nenhum esforço para ser popular”.

[ O Estado | Homenagem. Beto Stodieck | Reprodução Notícias do Dia | RIC Santa Catarina promovida por ocasião da passagem dos 100 anos de fundação de O ESTADO, em 13 de maio de 2015. Fotos Marco Cezar e L.P. Peixoto. ]

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