Blota Jr. A elegância no ar

Com a biografia do mestre dos apresentadores de TV no Brasil, seu quinto livro, Fernando Morgado fecha o ano de 2015 com uma das mais importantes obras da história da mídia brasileira.

Sônia e Blota Jr

O Prólogo nas palavras do autor. Nas ruas, nos bares, nas lojas, nas casas da São Paulo de 1967, um tema ganha espaço como nunca antes: A MPB. Discutir-se será “Domingo no Parque” ou “Ponteio” a grande campeã do festival na noite daquele sábado, 21 de outubro, é algo tão ou mais importante que repercutir a falta que Coutinho, com dores na coxa, fará para Pelé na partida do Santos for a e casa no dia seguinte. Aliás, toda a rodada da Divisão Especial do Campeonato Paulista será disputada no domingo. Nenhum clube concordou em antecipar o seu jogo. Um sinal de que aquele sábado será, definitivamente, da música.

Os olhos e a ansiedade do público têm endereço certo: Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, 411. O antigo teatro Paramount se transformou no teatro Record Centro conforme anuncia o letreiro branco posto em cima do toldo azul e amarelo, estampando com os seguintes dizeres, com letras maiúsculas: III FESTIVAL DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Tanto o letreiro quanto o toldo são elementos novos fixados na fachada art nouveau daquela jóia da cultura paulistana absorvida pela força da televisão.

Blota capaDiante das portas de ferro concentram-se jovens universitários que haviam comprado seus ingressos para assistir ao show, consciente de que seria histórico. À beira da calçada, estacionada com a devida autorização da Prefeitura, permaneceu uma unidade móvel amarela envolta por uma faixa azul. E dentro dela, Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta, controla tudo aqui que o telespectador verá logo mais em casa. O switcher, centro novo de qualquer transmissão, fica na rua mesmo, e não dentro do teatro. Mais uma demonstração de improvise que, se já era natural na TV, Havia se formado de vez depois que o fogo lambeu toda central de produção da Record em Cong0onhas, poucos meses antes de Solano Ribeiro – produtor musical que idealizou os primeiros festivais da MPB – realizar o seu primeiro festival na emissora. Dessa tragédia restauram apenas a unidade móvel, o teatro Rua da Consolação e três velhas câmeras Dumont: duas em camarotes laterais e uma ao fundo. Claro que isso não seria suficiente para suportar o Trabalho de uma grande emissora. Daí estarem agora todos lá, concentrados no palco do velho Paramount, inaugurado em 1929 e recém arrendado pela Record.

Por tudo isso, não é de se estranhar que a temperatura, já elevada por conta dos imensos tambores de luz incandescente presos ao teto, estivesse ainda mais alto. Peças do cenário passam de um lado para o outro. Músicos abrem suas partituras. Os cantores começam a chegar. Ansiosos, ensaiam diante das centenas de cadeiras ainda vazias, mas que já imaginam repletas de gente explodindo em vaias e aplausos. Câmeras exercitam os enquadramentos necessários. Uma espécie de neblina vai se adensando: são os cigarros ininterruptamente tragados numa tentativa da maioria das pessoas aliviar a tensão.

É nesse cenário que Nilton Travesso, aos 33 anos de idade, distribui orientações, buscando imprimir a ordem básica necessária ao espetáculo. Com Raul Duarte, Manoel Carlos e Tuta, ele integra a equipe A: outra consequência do incêndio de 1966, que forçou a união de quatro dos principais diretores da TV Record num só time, responsável pelas maiores audiências da emissora daquela época, inclusive o festival.

A noite chega e a hora de entrar no ar se aproxima. Os portões são abertos e o foyer, recoberto com padrões geométricos, e logo tomado pelo público. Elegantes degraus de mármore de Carrara dão acesso ao nível superior. Chega-se de imediato às poltronas, todas de madeira, estofadas e com espaldar alto. A busca pelo melhor lugar se intensifica. Não há acento marcado. Da plateia avistam-se os vitrais iluminados que adornam o parapeito do balcão, que também, serve de suporte para a fixação de faixas que trazem as marcas de duas revistas da Bloch Editores: Manchete e Fatos e Fotos.

Entre o público e o palco, o fosso. Nele, os jurados tomam seus lugares, esses sim devidamente marcados, torcendo para não serem premiados com ovos ou tomates como aconteceram nos sábados anteriores. Se algo que tivesse que parar alí, que fossem apenas as serpentinas que logo haveriam de cobrir o palco e se embolar aos fios dos microfones.

A Cortina, ainda fechada, tenta se esconder do público o caos que persiste minutos antes de o programa começar. Intérpretes que estavam sumidos, tomando umas num bar próximo ou trancados no hotel, são resgatados a tempo. Chega o momento. Por um instante, tudo para. O relógio marca 21h40. A orquestra da TV Record começa a executar o tema de abertura do festival, composta por Luiz Chaves, do Zimbo Trio. Lentamente, a Cortina sobe. De um monitor escondido, nota-se que a câmera abre o pano também de forma lenta. À medida que o pano se esconde, revelam-se as costas do maestro, a bateria, os instrumentos de cordas e de sopro. Surge, enfim, o cenário completo, com plantas por todos os lados e o símbolo do festival bem ao centro, um violâo estilizado.

Do grupo que aguarda na coxia, momentaneamente paralisado pela música e pela expectativa, sai, com passos firmes, um homem com 1,82m de altura, cabelos curtos rigidamente penteados para traz, usando óculos com aros negros e grossas lentes, diante de um rosto fino e, ao contrário de todos alí, absolutamente sereno. Ombros largos, braços compridos paralelos à coluna invariavelmente reta. Ao seu lado, uma jovem senhora de cabelos loiros cuidadosamente arrumados, trajando um vestido cintilante, entrelaça os dedos da mão esquerda com os da mão direita daquele cavalheiro que impõe respeito sem precisar falar uma só palavra. E olha que falar é a sua grande especialidade.

Executam-se os últimos acordes. Eles surgem no vídeo. São os dois maiores nomes da televisão na época. Companheiros no palco e na vida, juntos em mais uma tarefa histórica. Blota Jr. e Sônia Ribeiro. Seis passos são suficientes para alcançarem o centro do palco, onde o microfone Philips, preso a um pedestal, os espera. Com a experiência de quem tem quase 30 anos de carreira, Blota rapidamente consegue colocar o equipamento na altura ideal. Gosta de usá-lo um pouco abaixo do queixo, de forma a preservar a força natural de sua voz.

Com a palavra, primeiro, a dama:

–  Senhoras e senhores, boa noite. Estamos abrindo, neste instante a finalíssima do III Festival da Música Popular Brasileira.

Blota aproxima-se do microfone. Cresce o burburinho do público. A maioria a maioria ainda está sentada, mais logo isso iria mudar.

– Uma equipe de centenas de pessoas, entre técnicos, músicos, artistas, orquestradores, jornalistas, maestros, enfim, toda a TV Record deu o melhor do seu esforço para que pudéssemos, nesta noite, encerrar o festival, o acontecimento máximo da música popular em nossa terra.

Nesse, Blota nota que a câmera à sua direita o focalize. Abre um leve sorriso no canto da boca e discretamente dirige seu olhar para ela, como se, por um instante, saudasse o público de casa e o incluísse na plateia que tem diante de si. E conclui:

– Em todo o tempo o nosso Trabalho tevê um objetivo principal obter a sua atençãoo e o seu aplauso.

Enquanto Sônia prossegue a Apresentação, fica cada vez mais indisfarçável a alegria no rosto de Blota. Parece uma criança ganhando um presente que deseja há muito tempo. É certo que ele já ti9nha falado para plateias maiores e em outras circunstâncias igualmente relevantes, mas aparenta ter a clara noção de que aquele momento é especial para a música, para a televisão e pare ele. O auge da sua carreira como apresentador. Mais um auge de uma vida de inúmeras carreiras: advogado, jornalista, locutor e comentarista esportivo, apresentador, animador de auditório, redator, produtor, radioator, compositor, executivo, esportista diletante, empresário, politico, filantropo.

Aquela noite de 21 de outubro de 1967 exige de Blota Jr. o improvise do rádio, a impostação das tribunas, a emoção dos estúdios, a firmeza das reuniões de negócios e até a paciência de quem sabe ajudar. Tudo vindo de uma bagagem que ele acumula desde a infância em Ribeirão Bonito, o seu presépio.

Fernando MorgadoFernando Morgado nasceu em 1987 na cidade do Rio de Janeiro. É pesquisador de mídia e comunicação, jornalista, palestrante e professor convidado da Universidade Autônoma Metropolitana do México e da ESPM. No Sistema Globo de Rádio atua na área de inteligência de Mercado e integra o comitê de programação da Rádio Globo. Pós-graduado em Gestão Empresarial e Marketing e graduado em Design com Habilitação em Comunicação Visual e Ênfase em Marketing pela ESPM. Entre os livros de que foi autor, coautor e colaborador Blota Jr. – a elegância no ar é sua quinta obra. Entre suas atividades comunitárias é sócio colunista voluntário no site do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.

Para adquirir o livro, clique aqui: http://www.matrixeditora.com.br/produtos/blota-jr-a-elegancia-no-ar/

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