BMX Pantera

Sou saudosista assumido. Dia desses quando o assunto era bicicleta, lembrei da minha primeira. O ano era 1983. Observava os colegas com suas bicicletas e imaginava quando teria a minha.

Quando meu amigo Rogério disse que estava disposto a vender sua BMX Pantera, por sete mil cruzeiros, fiquei pensando em como conseguir o dinheiro. Pensava em quando seria o momento de pedir a meu pai.

Numa manhã de sábado enquanto meu pai se barbeava entrei no banheiro e dei a notícia:

– Pai. O pai não vai acreditar. O Rogério quer vender a bicicleta dele. É uma BMX Pantera, pai. É altas bicicleta, ta inteirinha. E ele só quer sete mil, pai – Meu pai, com o rosto cheio de espuma e o prestobarba na mão, disse me olhando pelo espelho:

– E você acha que é assim filho? Pensa que sete mil não é nada? – Achando que não devia desistir, argumentei:

– Pai, se o pai me der essa bicicleta, eu prometo que nunca mais peço nada para o pai.

Meu pai deu uma gargalhada. Primeiro porque estava no ar à novela Eu prometo, e a frase estava em alta. Segundo por ter certeza que eu jamais cumpriria essa promessa. Ele terminou a barba, bateu o aparelho na pia e me disse:

– Vá à casa do Rogério e diga que a bicicleta é sua. Já vou te dar o dinheiro.

Saí pulando na rua. Não dava pra caminhar, fui aos pulos a casa do Rogério que morava a uns 50 metros de minha casa.
Que sábado. Lavei aquela bicicleta como nunca tinha me lavado antes. Nos dias a seguir quebrei a promessa feita a meu pai. Acessórios. Punhos. Buzina. Um selim mais confortável. E uma espécie de estojo que ficava na barra superior da Bike com o poderoso nome BMX PANTERA. Ela era da cor prata, linda.

Meu melhor amigo e vizinho, Alexandro, não tinha bicicleta, e mesmo com ciúmes da minha Bike, eu deixava ele andar com ela. Eu estudava no Cabral, no bairro Bela Vista, de manhã. O Alexandro estudava à tarde no Wanderley Junior, no bairro Ipiranga. Quando brincávamos juntos enquanto um pedalava o outro corria ao lado aguardando sua vez. Ao meio dia meu amigo ia me buscar no Cabral e no final da tarde eu ia buscá-lo no Wanderley.

Certa manhã não encontrei minha BMX no ranchinho atrás de casa. Havia sido roubada. Com onze anos chorei mais que um bebê com fome. Foram vários dias até me acostumar sem ela depois de cerca de um ano. Algumas semanas depois meu cunhado Lindomar viu um menino com minha bicicleta num dos bairros da região. Ele me disse que tinha uma surpresa. Junto com meu pai ela havia recuperado minha Bike. Quando a vi no meu quarto foi mais uma choradeira.

Um dia vendi minha BMX. Não sei se quem a comprou curtiu tanto quanto eu, mas confesso que me arrependo de tê-la vendido. Se eu a encontrasse hoje, isto é, se é que ela ainda existe, eu a compraria e nunca mais a venderia. Eu prometo!

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