Bolsa de mulher

Se você tem alguma coisa para esconder não hesite em escolher uma bolsa feminina. Os compartimentos formam um labirinto, obrigando o uso de lanterna ou um ímã para se localizar jóias, mesmo de bijuteria.

Certa vez, em uma longa espera de voo no aeroporto Santos Dumont, no Rio, sentei-me ao lado de uma senhora que, de repente, começou a empilhar, no espaço entre nós dois, objetos que, numa sequência de raiva, ela retirava da bolsa. Jurava que colocara a passagem naquele embornal cavernoso. Depois de retirar dezenas de papéis, estojo de cosméticos, duas escovas de cabelo, quatro caixas de remédio e tantas outras coisas que acabaram se abrigando no meu colo, e deixar a bolsa aparentemente vazia, ela fixou os olhos em mim e indagou: “e agora?” Devolvi-lhe um sorriso assombrado e perguntei-lhe, com jeitinho, se eu poderia dar uma olhada no escondedouro de alça. Sem outra opção, ela me entregou aquele enorme recipiente de couro vermelho com uma plaquinha da griffe. Desconfiado, escancarei a bolsa e acabei impactado por mais algumas dezenas de mais coisas, entre as quais um sutiã roxo.

Não me dei à insolência de retirar o que faltava.

– Senhora, há mais coisas aqui. Não seria…

– Então retire tudo, por favor, cortou-me.

– Mas, senhora…..

– Por que estás nervoso? Há alguma coisa aí que me comprometa?

– Não, não, mas se eu tirar o que tem aqui…..

– Há, é verdade, eu coloquei aí duas calcinhas, perdoa-me, disse a idosa quase me provocando uma síncope.

Devolvi-lhe a bolsa para que ela retirasse as roupas íntimas. A bolsa era um mini guarda-roupas. Suei frio quando ela depositou em meu colo as calcinhas, uma peruca e uma camisola.

– É, meu filho, a passagem realmente não está aqui não. Deixei em algum outro lugar, lamentou.

De repente, a camisola cai! Franzi a testa e escondi os olhos temendo provocar-lhe mais raiva. Ela reagiu pulando do banco.

– Ah, tá aqui…

A passagem estava dentro da camisola. O trabalho se reiniciou com a colocação dos objetos na bolsa, quando os passageiros já estavam sendo convocados para o embarque imediato.

– Chiiii é o meu voo! Me ajuda a colocar tudo de volta na bolsa, apelou.

A essa altura, precisei amassar calcinhas, sutiã etc. Mas, a metade não cabia mais. E agora?

A senhora começou a se inervar e eu mais ainda. Sugeri-lhe organizar o armazenamento das coisas, mas ela saiu correndo com o que coube na bolsa, deixando o restante espalhado no banco no chão e no meu colo. Claro restou-me só a alternativa de levantar-me e rapidamente fugir do local.

– Ei, moço, o senhor esqueceu estas coisas aqui, abordou-me uma moça com uma calcinha na mão.

– Não, não é minha não. E corri para o bar em busca de água e café, enquanto a moça atrevida dava gargalhada em meio a uma multidão que fazia coro.

Como diz a minha amiga Salete, a mulher consegue guardar uma bolsa dentro da outra e pode levar meses para descobrir que dentro da bolsa escondida na bolsa grande havia outra bolsinha com um terço do salário, considerado perdido ou roubado.

Se perguntarem a um ladrão profissional a maior dificuldade que ele enfrenta para roubar, com certeza a bolsa feminina se destaca. Certa vez, um trombadinha levou a bolsa de uma mulher, em plena rua Felipe Schmidt, na Ilha de Santa Catarina. Cinco dias depois, ela foi avisada que a bolsa estava à sua disposição em um posto policial. O trombadinha levara celular, um colar de bijuteria, um óculos de grau e o que ele abandonou acabou ocupando a metade da mesa do delegado. Ela juntou seus pertences e, em casa, encontrou em um compartimento falso da bolsa os R$ 800,00 que reservara para pagar um tratamento de pele.

E ela ainda agradeceu a Deus!

A solução está nas fábricas. Enquanto a moda continuar determinando que bolsa grande dá charme à mulher, ela estará no direito de entulhar tudo o que achar necessário no saco de mala, ou melhor, na bolsa.

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