Brevê poético

Desde criança, sempre fui fanático por aviões! Tomar sorvete era um evento raro, mas sempre que era possível eu fazia questão de pegar o brinde: um botão com a estampa de um avião. O de um bombardeiro Vulcan, inglês, era o meu favorito! Adorava ver filmes e ler livros sobre o tema. O primeiro navio que eu visitei foi o navio-aeródromo Minas Gerais! Minha maior decepção, nessa época, foi quando aprendi o Hino da Força Aérea, que era muito anacrônico e devagar para o meu gosto. Fala em hélices, quando eu já estava habituado aos Sabres, Migs, Xs e Bs.

O fato é que por muito tempo alimentei a idéia de que tiraria o brevê antes da carteira de motorista. Sonhos de criança…

E por falar em sonho – que tem tudo a ver com poesia -, lembrei, outro dia, de uma série de televisão muito antiga, que se passava numa base aérea dos EUA:

Eram tempos de Guerra Fria e quase todos os episódios mostravam as prontidões, treinamentos e ameaças de crises. Mas, eventualmente, outros temas, mais leves e humanos, eram abordados, às vezes com uma sensibilidade marcante.

Num desses episódios, os roteiristas arriscaram abordar dois temas cuja associação sempre pode descambar para a pieguice: orfandade e Natal.

Não me lembro por qual motivo os pilotos foram parar num orfanato e passaram a acompanhar a expectativa de um menino por adoção ou, no mínimo, um convite para passar o Natal com uma família temporária.

Como não poderia deixar de ser, o garoto viu suas esperanças frustradas e, tristemente, passaria mais um Natal solitário. Foi quando um dos pilotos se rendeu à compaixão e, em plena noite da véspera de Natal, pegou o garoto e saiu rapidamente, dizendo que tinha um presente inesquecível para lhe dar, que poucas crianças jamais teriam igual.

Qual seria? Foi a pergunta que eu e, provavelmente, todas as crianças que assistiam a série devem ter feito, em comunhão de pensamento. Daí a pouco, eles já estavam na base aérea…

O garoto foi cuidadosamente alojado no assento de artilheiro de um caça, com direito a capacete, máscara de oxigênio e cinto de segurança.

O jato decolou numa missão dada como de rotina, com a cumplicidade dos operadores de vôo. Pouco depois, quando a nave atingiu a altitude desejada pelo piloto, este anunciou seu presente:

– Esta é a maior árvore de Natal do mundo!

O menino era apenas um ator e a TV era em preto e branco, mas, naquele momento, eu vi pelos seus olhos, maravilhado, um céu límpido, repleto de estrelas cintilantes. Era um presente único, que naquele dia também foi meu!

Nunca mais vi a série, mas aquela imagem foi tão forte, que eu nunca pude esquecer. A cena era totalmente improvável, mas de uma força poética impressionante. Talvez minha paixão pela aviação tenha começado ali…

O tempo passou… Eu vôo de vez em quando… Mas é pouco provável que tire o brevê. No entanto, essa lembrança me conforta, pois é prova de que não é preciso de um avião para voar: basta ter alma livre e nunca perder a capacidade de sonhar!

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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