Brioches e a roupa do imperador

Até a década de 1970, a Noruega, terra dos vikings e fiordes, era um país pobre, para os padrões europeus. Seus habitantes viviam de forma modesta, adequada ao seu poder aquisitivo, e ensinavam seus filhos a darem valor às coisas simples e à alegria de viver. O clima sempre foi frio, mas seus corações sempre estiveram aquecidos. Então, descobriram petróleo no Mar do Norte, em suas águas territoriais! “La dolce vitta”? Absolutamente, não! O poder aquisitivo aumentou significativamente, mas existe uma consciência nacional contra o desperdício e a ostentação.

Vive-se bem, come-se bem! Mas sem exageros. Para eles, a prosperidade do petróleo é efêmera. Assim, o grande desafio é construir bases sólidas e alternativas econômicas viáveis e sustentáveis para o futuro.

Desde então, vivem uma páscoa diária, pois agradecem pelo que são, sem esquecerem o que foram. E os reis são os primeiros a dar o exemplo!

Infelizmente, ainda existem pessoas egoístas e alienadas em nossa sociedade, que vivem de aparências e lucram fazendo apologia da ostentação. Provavelmente nunca passaram necessidades ou tiveram que trabalhar para aprender a dar valor ao que é conquistado com esforço e merecimento. Vivem num mundo irreal, onde acreditam que seus padrões são ideais e seus gostos universais.

O curioso é que alguns pregam a singeleza de espírito, o desprendimento do mundo material e o prazer pelas coisas simples. Quem os ouve acredita estar diante de um guru iogue – só que “gourmet” – ou de um monge budista – com estágio no Tibete, mas com escalas prévias ou posteriores em Paris e Milão.

Só que a teoria, na prática, é outra, pois cultivam hábitos pessoais sofisticados, que pouquíssimos podem pagar.

Simples? Sim! Mas tem que ser com classe, estilo, grife, talher de prata, guardanapo de linho…

Sua pouca relação com o mundo real resume-se à frequência a jantares beneficentes, cheios de pompa e circunstância, onde os beneficiados não podem entrar. Essa é sua visão do “fazer o bem, sem olhar a quem”?

E se o dinheiro envolvido nessa benemerência “fashion” fosse simplesmente doado, diretamente, com simplicidade de espírito e caridade virtuosa?

Já sei: isso não teria o mesmo “glamour”, cobertura dos meios de comunicação, shows de falta de compostura de “mauricinhos”, “patricinhas” e excêntricos de plantão, munição para fofocas, tietagem, desfile de “modelitos” exclusivos e apresentação pública dos resultados da cirurgia plástica mais recente.

Nessas ocasiões, exceção feita a poucos bem-intencionados, o que se vê é muita luz para os presentes e poucos presentes para quem precisa.

Vivemos tempos bicudos! Podem não ser para alguns, mas não é de bom tom falar de brioches quando existem pessoas que não tem pão. Tampouco é adequado cobrar que gastem para vestir a “roupa nova do imperador” enquanto tem gente que mal tem o que vestir. Isso não implica em deixarmos de apreciar coisas que nos agradam, mas também não nos obrigam a frequentar lojas e restaurantes caros, apenas para satisfazer expectativas elitistas.

O bom senso é de cada um, mas não é hipócrita ou piegas afirmar que existem coisas muito mais importantes, úteis e enobrecedoras para serem sugeridas e incentivadas, hoje e em qualquer tempo!

Assim, temos muito a aprender com a saga dos noruegueses. Ainda mais agora, com o advento do pré-sal.

No entanto, Maria Antonieta e o “imperador nu” ainda continuam fazendo escola…

Adilson Luiz Gonçalves é membro da Academia Santista de Letras. Mestre em Educação. Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor. Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento). Caso queira receber gratuitamente os livros digitais: Sobre Almas e Pilhas, Dest’Arte e Claras Visões, basta solicitar pelos e-mails: [email protected] e [email protected] | Conheça as músicas do autor em: br.youtube.com/adilson59 | (13) 97723538 Santos – SP

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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