Cada um sabe (ou deveria saber) a dor e a delícia de ser o que é

Ao receber este corpo no ventre de nossa mamãe, ali ocorreu e não foi apenas uma concepção e não corre apenas por conta do processo biológico. Há, por trás do véu, implicações e combinações que a maioria das pessoas não sabe, não conhece e sente-se feliz na chamada “santa” ignorância.

Ninguém ganha a vida apenas para apanhar ou surrar. Viemos para tarefas equivalentes as de professor, líder comunitário, pastor, padre, pregador, voluntário de instituições filantrópicas, vereador, deputado, comunicador, escritor, síndico condominial, motorista de coletivo, piloto ou comissário de aeronave, etc. etc. Não importa o que você faz ou fez, aquilo não era apenas o seu “ganha pão”, há mais coisas por trás do véu.

Em geral e aparentemente aquilo que fazemos nada mais é que o meio de subsistência – assim pensa a maioria -, mas, o que há por trás do véu? Ainda somos crianças nas ciências que tratam e identificam a missão de uma alma em trânsito pela carne.

Fazer bem feito, acrescentar, fazer a diferença tanto pode ser ganho de crédito como pode ser quitação de débito, não importa, as duas podem fazer parte da missão recebida. Quantos conhecidos seus e meus que são incapazes de parar o carro na faixa de travessia do pedestre, movidos pela ânsia de chegar logo ali. Quantos que eu e você conhecemos que se negam a conceder algumas horas para sentar-se numa roda e discutir questões comunitárias? Quantos que jogam no lixo quilos e quilos de restos de comida pela incapacidade de sentir a fome do inválido? Quantos eu e você já vimos estacionando na vaga reservada aos cadeirantes e idosos e o fazendo com a maior cara de pau. Foi pra isso que viemos a este mundo?

Há uma dimensão sagrada sentindo muita falta de alguém que diminua a distância entre virtude, incapacidade, vício e maldade. Há trabalho para todos que queiram somar ingressando em centenas de equipes, quer seja para levar o pão ao faminto, quer seja para ajudá-los a despertarem do sono da indignidade mendicante ou assassina.

Não é só com trabalho braçal que transformaremos a realidade. Você não precisa juntar o lixo da rua para jogá-lo na lixeira, você pode ensinar pelo exemplo que lugar do lixo é no lixo. Mas, se você pilota um carrão de 100 mil reais e abre a janela e joga na rua a lata de bebida que acabou de sorver, sinto muito, meu caro, minha cara, talvez (não só por isso) você mereça retornar noutra existência para revirar o lixo dos lixões a procura das latinhas, que reunidas e vendidas, lhe renderão 36 centavos por quilo.

Suas falas, não só entre familiares e amigos, suas abordagens ligadas à realidade da qual você faz parte, mas não preza, ou preza, poderão ser tomadas do modo como age a polícia norte-americana quando detém um suspeito: serão usadas contra e a seu favor.

Seu olhar para o mundo pode ou não ser um novo olhar diante dos problemas e preocupações, velhos conhecidos, mas sempre irão fazer falta àqueles que o escutam e a você mesmo, brother viageiro da mesma nave. Porque quanto mais nos preparamos e escutamos o que dizemos, mais nos tornamos aquilo que dizemos, além, é claro, de burilarmos a existência, pela vida, para melhor e para pior, daqueles que são tocados por nós: pois o exemplo do piloto do carrão que despejou o lixo na rua e o exemplo da criança que apanhou o lixo e o colocou na lixeira, sempre serão tomados como DIFERENÇA.

A nossa maneira de ser é única e especial. Eu e você trazemos grandes contribuições ao todo, mesmo que as contribuições sejam para piorar a vida. A omissão também conta para um ou para outro destino.

Sabendo que as escolhas são nossas, sabendo que não haverá um salvador que se crucifique em holocausto aos hipócritas – o Cristo não se imolou para livrar a cara dos seus algozes; imolou-se para chamar a atenção para suas verdades em benefício não daqueles que o queriam morto, podes crer -, sabendo que as escolhas são individuais e que se somam formando um coletivo, você vai ficar esperando o que? Você vai deixar passar mais uma oportunidade de dizer a que veio? Você vai querer trocar o ar condicionado de seu carrão de luxo pelo calor de uma montanha de lixo em decomposição?

Todos nós carregamos inabilidades em lidar com as facetas que a vida nos apresenta e isso é decisivo para nossas escolhas. Então só nos resta pesar cada decisão, cada gesto, cada ação, levando em conta que “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!”

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Por Homero M. Franco

Radialista, jornalista e escritor, nasceu em Ijuí/RS e iniciou em rádio em 1957 em Três Passos, também no Rio Grande do Sul. Autor do livro Raízes da América Gaúcha é compositor-letrista com mais de 50 composições gravadas. É tricampeão da Sapecada da Canção Nativa de Lages/SC. Reside em Florianópolis.
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