Cadê a Ana Maria?

Dona Dejanira é uma quase cinquentona, simpática, que vive numa cidade do interior paulista. É casada com o “seo” Chiquinho, como é mais conhecido na fábrica em que trabalha, e mãe do Eduardo, universitário 20 anos; Luiza, de 18, primeira anista em psicologia e Thais, a caçula de 13 anos, que vai seguindo para o colegial.
Por Agliberto Cerqueira

Moram em casa própria numa vila de classe média na periferia da cidade e sustentam-se com o salário do marido, com a venda dos doces e salgados da Dona Dejanira e mais uma pequena renda do filho mais velho que já dá expediente num escritório de advocacia. Dona Dejanira conhece e se dá bem com toda a vizinhança.


Ana Maria Braga

É também muito querida das pessoas que moram no centro da cidade: clientes de seus deliciosos olhos de sogra, beijinhos, coxinhas, empadas, bolos e tortas de dar água na boca. Dona Dejanira é uma autoridade quando o assunto é copa e cozinha. Afinal de contas, são anos e anos cozinhando, limpando a casa, cuidando dos filhos, do marido e da própria vizinhança com sua vasta experiência de vida e seus conselhos sempre úteis.
Gosta muito de televisão, mas não dispensa o rádio: guia-se por ele a semana inteira. Um dia, Dona Dejanira lidava com as encomendas da semana, o rádio ligado na cozinha, quando sentiu sumir o chão em que pisava.
Seu coração disparou e um gelado de emoção foi arrepiando todo seu corpo. Ficou zonza e mal e mal conseguia distinguir as marcas e os produtos dispostos sobre a pia e a mesa, apesar da certeza com que comprava cada ingrediente. Pacotes de farinha e açúcar, caixinhas de leite condensado e creme de leite, óleos e potes de maionese. Tudo girou num segundo e, de repente, só o que ouvia era o som do seu rádio.
Prestou atenção às palavras. Com exclusividade da Rádio Clube… Ana Maria Braga e Louro José apresentam nossa nova atração: o programa Bate Papo na Cozinha, “num oferecimento do botijão azul da Ultragaz”. Ela não acreditou. Parada no meio da cozinha beliscou-se algumas vezes até chegar a conclusão que era verdade mesmo. Ana Maria Braga e o Louro José estavam na Rádio Clube. Que maravilha! Ouviu o programa todinho e encantou-se com as dicas de beleza e saúde, com as piadas e pegadinhas do Louro e, mais do que tudo, com a receita de uma torta de maçã que a Ana Maria ensinou. Anotou tudo direitinho. Depois, não resistiu.
Correu desabalada para o muro da direita e berrou bem alto o nome de Dona Cidinha.
A vizinha veio até o muro enxugando as mãos no avental e acudiu a amiga: “O que foi mulher? Parece que viu anjo!”. Dejanira então tomou fôlego, respirou fundo e disse arfante: “Você não vai acreditar… Eu acabei de ouvir… na Rádio Clube… agorinha mesmo…”. “Desembucha mulher, fala logo! Tá me deixando agoniada!”.
Tomando um pouco mais de ar, Dejanira falou de sopetão: “Eu ouvi a Ana Maria e o Louro José nesse instante no meu rádio.”.
A outra, que até ali aparentava certa calma, lançou um grito de surpresa e alegria ouvido por toda a vizinhança. E então dispararam as duas a contar a novidade por cima de muros, nos portões das casas e pelos telefones. Encontravam-se nas lojas, quitandas, padarias, armazéns e supermercados e o assunto era sempre o mesmo: o Bate Papo com a Ana Maria e o Louro José.
Por onde andavam comentavam as virtudes do programa, repetiam as pegadinhas do papagaio e trocavam receitas. As dez em ponto era a hora sagrada. Os telefones emudeciam, os portões fechavam-se como que por encanto e as cabeças desapareciam por trás dos muros. Ninguém perdia um episódio. Dejanira, feliz da vida, colhia os frutos do prestígio por ter tido o privilégio de, como dizia ela, ter ouvido o primeiro “Bom dia minha amiga” narrado pela Ana Maria e pelo Louro. No seu rádio. Porém, não bastava só ouvir o programa: ela queria fazer algo diferente pois era a legítima representante da categoria “Forno & Fogão” da cidade. Seus dotes culinários corriam de casa em casa, quarteirão por quarteirão.
Além da fama dos seus quitutes exercia também uma influência muito forte na recomendação de marcas e produtos. “Isto aqui é muito bom. Pode comprar que eu recomendo”. “Não leve este que não presta. É meio aguado”. “Ah… dessa marca pode comprar qualquer coisa”. E as amigas fiavam-se em seus sábios conselhos e indicações.
Resolveu então ir além. Juntou um grupo de umas vinte mulheres e marcou um dia para irem até a emissora conhecer de perto a Ana Maria e o Louro José. No dia marcado, uma sexta-feira perto das nove da manhã, o grupo se reuniu na praça da matriz em frente à Rádio. Cabelos arrumados, maquiagem matinal, batons vermelhos e perfumes variados misturavam-se à fragrância das flôres e ao cheiro suave da folhagem das árvores. Outras mulheres juntaram-se à comitiva ao descobrirem a finalidade do movimento.
Na porta da rádio o grupo já contava com umas quarenta pessoas. Sem contar os curiosos.
Dona Dejanira, porta-voz do grupo, e algumas amigas mais íntimas, adentraram à recepção da emissora para explicar o motivo de tão calorosa visita. A recepcionista, ao ouvir o pleito, apavorou-se e, rapidamente, correu até a sala do diretor para lhe contar o que estava acontecendo. Ficando a sós, o grupo de amigas liderado por Dejanira e sua fiel escudeira Cidinha, formou uma espécie de fila que andou daqui pra lá e de lá para cá, investigando com o olhar através das vidraças e vãos de portas onde estariam seus ídolos. Faltava pouco para o programa começar. Cadê a Ana Maria minha gente? Enquanto o grupo vagava pelos cantos da Rádio procurando os artistas, o diretor, por seu lado, interrompeu a recepcionista. Virou a cadeira colocando-se de frente para a janela que dava para a praça e pensou um instante. Abriu um sorriso e disse à garota: “Convide todo mundo para entrar. Sirva café com leite e biscoitos. Acomode o pessoal onde der. Nossos ouvintes vão ver como é que se faz rádio no Brasil”.
E assim foi feito.
A comitiva acotovelou-se pelos corredores, salas e estúdios para conhecer os artistas. Algumas mulheres abanavam-se ansiosas e enxugavam o suor da testa e do colo. O diretor da rádio, cerimonioso, pegou um microfone e deu as boas vindas ao grupo enquanto ainda saboreavam os biscoitos e o leite quente.
Explicou então que a Ana Maria e o Louro não estavam na Rádio porque era impossível que eles estivessem em 113 rádios ao mesmo tempo. Ouviu-se um murmúrio: 113 rádios! Disse também que os programas eram gravados em São Paulo, distribuídos para as Rádios e transmitidos diariamente em muitas cidades em oito estados brasileiros. Outro murmúrio em uníssono: oito estados! Porém, cada programa era produzido com o mesmo carinho, a mesma qualidade, como se fosse “ao vivo”. “Como se a Ana Maria e o Louro José estivessem aqui, ao nosso lado, juntinhos da gente. Vou mostrar pra vocês”, disse ele.
Pediu que todos os presentes fechassem os olhos e assim se mantivessem. Eram dez em ponto. O operador rodou o Bate Papo e o rádio tocou na cidade: “Bom dia Louro José, meu filhote. Bom dia Ana Maria, minha mamãe…”.
Dona Dejanira engoliu em seco e de seus olhos rolaram algumas lágrimas. Ela tinha acabado de encontrar a Ana Maria e o Louro José. Estavam num lugar só dela, num cantinho em sua imaginação.
Agliberto Cerqueira
Publicitário e Diretor Associado da COBRAM – Cia. Brasileira de Marketing. É colunista do site
http://www.radioagencia.com.br/


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1 responder
  1. Rosana says:

    POR FAVOR GLOBO, TIREM ESSA CISSA GUIMARÃES DO AR, OHH MULHER INSUPORTÁVEL….

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