Café Mané

Recordação é que nem “balaio de siri”. Puxa uma vem o resto. Começou com o amigo Carlos Damião lembrando as músicas apreciadas pelo pai dele. Meti minha colher falando do antigo programa “Almoçando com Música” da Rádio Guarujá. Entrou o César Valente lembrando o patrocínio do “Pudim Medeiros” ao programa. O Damião retrucou dizendo que “Pudim Medeiros” era do fundo do baú, tal e qual o Café Amélia “O café de verdade” (santa originalidade!). Lembrei do Café Otto – “Uma das boas coisas da vida!” -, lembrei, também, algo que achei num jornal velho, dia desses…

É conhecida a má fama do café ingerido pelo ilhéu até bem pouco tempo. Ralo, por uma questão de paladar, requentavam-se as sobras para evitar o desperdício. Caso passasse do ponto e levantasse fervura, na reciclagem, submetia-se o líquido ao famoso “susto”.

O tal “susto” consistia em colocar o bule dentro da pia da cozinha e abrir/fechar a torneira o mais rapidamente possível, despejando sobre o café fervente uma ínfima quantidade de água fria para deixá-lo na temperatura ideal. A operação requeria treino e maestria. Minha mãe era expert! Tanto que, quando chegava alguém da família, ela dizia: – Vai um “fervidinho”?

Antigamente as casas de moradia tinham quintais com criação de galinhas e porcos e também pomares, com pés disso e daquilo. Muitas tinham um pé de café para o consumo familiar. As torrefações eram poucas, duas ou três, em toda a cidade.

Falava-se a boca pequena que, para fazer render o produto, as empresas torravam e moíam grãos de milho-verde e de pipoca adicionando-os ao pó de café. Sempre ouvi falar disso, desde criança. Que eu saiba nunca se fez nada para evitar o engodo. Fosse hoje…

A cidade cresceu, as casas que restam não têm mais quintais, nem pomares. Hoje, carne de galinha, de porco, frutas e café a gente compra no hipermercado e minha mãe já não oferece seu “fervidinho” às visitas, coitada! Quanto à má fama do nosso original café, dia desses li, num jornal velho, uma nota que parece confirmar os antigos boatos:

Um moinho de café prodigioso

Torra café e rescende pipoca

Na rua almirante Alvim existe um moinho de café. Até ahi, nada de mais.
A’s vezes, porem, geralmente á noite, o moinho trabalha.
Até ahi, também, tudo muito natural.
O que enche de espanto, todavia, é que esse moinho quando começa a torrar café e a moel-o, espalha um cheiro vivo de… milho queimado…
Ninguem sabe explicar o phenomeno…
Talvez a Directoria de Hygiene, que tem á frente dos seus serviços um administrador criterioso e energico, venha a descobrir o mysterio do café que cheira a pipocas!…

O texto acima foi publicado no jornal Estado, edição de 27 de novembro de 1929. No dia seguinte, o esclarecimento:

“Moinho prodigioso”
Tórra café e rescende pipóca

A reclamação publicada em nosso número de hontem relativa a uma fabrica de café sita á rua Almirante Alvim, não se entende, é claro, com a torrefação de C. Costa & Cia. e sim com algum moinho clandestino que a Hygiene mais cedo ou mais tarde descobrirá.
A torrefação de C. Costa & Cia., conforme pessoalmente verificamos, não trabalha absolutamente á noite, encerrando seu affazeres ás 16 horas.

Obs: a nota não contesta o uso de milho no café; diz apenas que a fábrica não tem expediente à noite. Pelo sim, pelo não…

* respeitada a grafia original

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