Caminhos de Santiago

Não! Não vou falar sobre turismo religioso ou odisseias místicas pessoais.
É sobre um cara que, lá por meados da década de 1970, achou que poderia ser cantor e viver disso.
Ele apareceu num programa de TV com seu sorriso aberto e postura plena de dignidade, para soltar a voz, num tempo em que cantores bons eram como água. Tempos de Taiguara, Pery Ribeiro, Agostinho dos Santos, Milton Nascimento… Época em que, até os que não tinham grande voz eram, no mínimo, fantásticos compositores e intérpretes, como: Chico, Caetano, Gil…
No entanto, como se fosse um em mil, Emílio Santiago chamou a atenção de todos, inclusive da toda-poderosa TV Globo, que o “surrupiou” antes do final do concurso de que participava, deixando Flávio Cavalcanti vermelho de raiva, ainda em preto e branco, ao vivo!

Afinal, para quê concurso? Ele já estava pronto!
Dono de voz impecavelmente melodiosa e eclética, ele sempre primou pela qualidade e variedade de seu repertório.
Mesmo suas regravações de clássicos nunca caíam no “lugar comum”: música cantada por ele merecia ser ouvida mais de uma vez!
Os caminhos que ele trilhou o levaram ao mundo, sempre causando admiração prazerosa, por sua voz modulada, sem exageros, mas carregada de suaves nuances.

Não lembro de nenhuma música dele que eu não gostasse! E até seus duetos eram memoráveis, como o emblemático: “Tudo que se quer”, com uma deliciosamente natural Verônica Sabino (http://www.youtube.com/watch?v=9wxYQfOSL3I), capaz de fazer até fantasmas, da ópera ou não, quererem voltar à vida.
Emílio Santiago, com seu indefectível sorriso, percorreu todos os caminhos com postura inabalável.
Ao que consta, só não compôs…
Aliás, para quê? Com a voz que tinha, voz para sair solta ao vento, nunca quietinha, compor seria um preciosismo desnecessário.
Fez bem, ele, de tratá-la como a um instrumento musical: aperfeiçoando-a, afinando-a, tornando-se um virtuoso das cordas vocais.

E o fazia com requintes de bondade para com nossos ouvidos, hoje tão maltratados.
Ele, como pouquíssimos, conseguia dominar plenamente o palco ou ser visto mesmo com os olhos fechados!
A idade parecia não lhe tocar ou pesar!
Mas, todo caminho, por mais iluminado que seja, não está isento de meandros e surpresas. E a voz que nunca negou ou mentiu seu cantar, foi calada pelos impensáveis e misteriosos caminhos da mente…
Caminhos… Caminhos…
Caminhos sonoros que ainda poderão ser trilhados pelas agulhas que tocam os reinventados LPs; pelos leitores digitais; pelos vídeos que tornam os que partem eternamente jovens aos nossos sentidos.
Emílio Santiago agora percorre outros caminhos, que continuam a ser seus: caminhos de Santiago!
O cara de voz divina agora trilhou o caminho do céu…
Pega leve com ele, Flávio Cavalcanti!

Afinal, no concurso da vida com arte, ele foi “hors concours”!
“Agora! Justamente agora! Agora que eu penso em ir embora…”.

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Por Adilson Luiz

Palestrante, compositor e escritor, autor de Sobre Almas e Pilhas (2005) e Dest’Arte (2009). Articulista e cronista, escreve em vários meios de comunicação no país. É Mestre em Educação, Engenheiro Civil, Professor Universitário e Conferente de Carga e Descarga no Porto de Santos/SP. Mantém o site algbr.hpg.com.br
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