Caminhos do vento

Caros leitores, eu aprecio “por demais” o burburinho incansável do centro de Florianópolis aos sábados pela manhã. Principalmente ao me deparar com cenários mágicos e musicados que denotam os hibridismos culturais contemporâneos que nos envolvem.

 

Dias desses, eu espreitava as heterogeneidades que pincelam o nosso cotidiano. Pensei…, digo, senti e pensei – necessariamente nessa ordem – sobre as possibilidades de se traçar um mapa etnográfico com as sonoridades que nos enlaçam diariamente. No entanto, a palavra “mapa” nos sugere um posicionamento fixo dos ingredientes que constitui nosso dia-a-dia, sendo que ele se apresenta sempre sob novas receitas.

Por exemplo, neste dia, ao deixarmos o embalado som do berimbau que toma os arredores da Catedral e da Praça XV de Novembro–, encontramos na Rua Felipe Schmidt um grupo de músicos e artesãos, chamados de Waira Ñan, numa língua tradicional equatoriana, caminho do vento. O quadro desenhado nos embrenhava num ambiente de ancestralidade indígena. A música e a dança hipnotizaram muitos. Fiquei surpresa como tal apresentação conteve os passos apressados de muita gente, formando uma expressiva platéia. É uma lastima como diante das urgências do cotidiano, dificilmente paramos para apreciar estes momentos de trocas culturais.

O cenário: um grupo de familiares vindos do Equador, tipicamente vestidos, cantando e dançando músicas tradicionais. Ao som dos chocalhos, uma das mulheres amamentava ao lado de uma banca de artesanatos, enquanto os homens se apresentavam com os rostos pintados. O que significa para eles, o desejo de paz e tranquilidade. Ao fundo, os pórticos de Nosso Senhor dos Passos e a centenária Igreja de São Francisco de Assis adornavam a Rua Felipe Schmidt.

O grupo indígena, advindo da cidade de Otavalo, cidade localizada a 90km ao norte de Quito, habitada pelos “Otavaleños”, é famoso pela qualidade de seus produtos têxteis. Essa cidade organiza todos os sábados uma enorme feira, na qual os índios que vivem na área rural vendem seu artesanato – evento tradicional que já era realizado antes da chegada dos europeus. Atualmente, a economia local depende do comércio desses artigos para estrangeiros, mas apesar disso, os nativos souberam preservar parte da sua cultura ancestral. Como forma de preservação do seu legado histórico, além da manutenção da língua (quéchua) – elemento indispensável para a identificação e coesão  cultural – , eles se vestem com roupas tradicionais cotidianamente e não somente para a curiosidade dos turistas. Normalmente, os homens usam calças brancas com camisas listradas, poncho azul e um chapéu negro que cobre o cabelo longo. Já as mulheres usam blusas brancas bordadas, saias pretas e xale. Já na apresentação que apreciei na Rua Felipe Schmidt, o grupo exibia vestimentas de festa que simbolizam a relação de respeito à ave Condor, aquela que voa mais alto que todas e, segundo sua crença leva as preces e as oferendas da população a um Deus superior.

Frente à pluralidade do cenário desenhado naquele momento, de repente, a urgência “líquida” da sociedade moderna contemporânea pareceu-me algo obsoleto. O culto ao individualismo ligeiro nos priva de vivenciar e/ou dividir as experiências humanas com maior profundidade. Mas apesar disso, eu folgo em dizer que, no “caminho do vento” da Rua Felipe Schmidt, na brevidade do movimento rotineiro de passagem, ainda assim alguns param para aproveitar o momento de abstração e permuta cultural.

14 respostas
  1. adriana Breves says:

    GOSTO MUITO DA FORMA COMO AUTORA TRATA DE QUASTÕES CORRIQUEIRRAS, DO DIA-A-DIA.ELA CONSEGUE TRANSFORMAR COISAS SIMPLES E POR VEZES DESPERCEBIDAS, EM ALGO REALMENTE INTERESSANTE, COMO FEZ COM CAMINHOS DO VENTO.

  2. Tereza Santos da Silva says:

    Ao ler a belíssima crônica escrita por Marilange, lembrei de uma resenha que li sobre o filme “Leonera”, do argentino Paulo Trapero, cujo tema de abertura é a canção ‘Ora bolas’. Essa canção faz parte do CD “Canciones curiosas” que contém músicas infantis em língua hispânica, projeto de Sandra Peres e Paulo Tatit, os quais por meio delas sugerem a importância de apreciarmos a cultura de nossos vizinhos sulamericanos. Nesse sentido, a música revela um papel fundamental na dessiminação de todas as formas culturas, como é o caso do Grupo Waira Ñan, nossos irmãos do Equador. Eles, da mesma forma, por meio da língua quéchua, revelam nossa riqueza cultural ao destacar seus mitos e crenças. Nós, brasileiros, também contamos e cantamos nossas lendas por meio dos nossos índios guaranis, por exemplo, que reverenciam o nosso Saci sob o nome Kamba’í, numa viagem ao seu imaginário popular. Cantos e contos se sobrepõem, certamente,em todas as culturas, com suas respectivas cores e sons, revelando ao mundo que todas as etnias e raças se sublimam a partir de sua arte, especialmente a arte que envolve a música e da dança as quais se constituem linguagem universal.

  3. Lange says:

    Tereza, sua leitura atenta me lisonjeia. Agradeço sua interlocução e o rico comentário. Um abraço
    Lange

  4. Carlos Alberto Pereira says:

    Lange, ao ler sua crônica parece que voltei aos tempos de criança, sou manezinho da ilha e muitas vezes acompanhei nossas tradições em festas da região aqui de floripa.
    Sendo nesses caso uma incrivel observação sua para com as etnias de povos que muitas vezes nós não conhecemos suas tradições; espero cada vez mais poder ler estas crônicas para poder apreciar o qual é lindo as tradiçoes de todos os povos.

  5. Lange says:

    Olá Carlos, fico feliz em lhe possibilitar passeios pela infância, isto é uma delícia. Continuaremos a conversa na próxima crônica sobre a cidade! um abraço, Lange.

  6. Roberto Jatobá says:

    Resgatar o abstrato do concreto e perceber o significado na dança do tempo e devolver sem retenção ao nosso pequeno mundo é um ato de sensibilidade e maturidade.

  7. Ana says:

    Lange, você conversou com esses índios? Nos últimos anos observo que tem uma variedade deles que vêm pra ilha: bolivianos, paraguaios… Acho triste ainda é ver nossos guaranis esperando (porque eles não pedem)esmolas pelas calçadas e calçadões do centro da cidade. Nessa foto aí, vale destacar a suntuosidade do prédio, ora ocupado pela loja de eletrodomésticos.
    Saudades, meu deus!

  8. Carlos Euclides Marques says:

    Saudosa Lange,
    Ao ler sua crônica, me dei conta que recentemente, passei por duas vezes, em dias diferentes, por este grupo. Numa primeira vezes, ele estava na Praça XV. Na segunda, na Felipe Schmidt… Em ambas as ocasiões, minha audição foi efêmera, no máximo diminui os passos… Um resquísio de musicalidade foi ficando em minha mente, como se apagando sutilmente… Entretanto, ao dar conta disto já estava distante e outras coisas, que agora não lembro quais, já me chamavam… Talvez, esteja muito acultura,ou minha breve precepção se assemelha áquelas narradas por Benjamin das paradas de uma viagem ao estrangeiro, onde, o que primeiro procuramos é algo semelhante no dissemelhante… Não sei… Pensei estar ouvindo aqueles rituais tribais dos filmes de faroeste norte-americanos. Mesmo minha breve olhada na “paisagem-passagem”(janela de trem veloz), me deram a impressão de ver aqueles do continente norte-americano…
    Com sua narrativa, despertei par um outro que não vi, ou não quiz ver. Mas que,só agora, passado, presentifico…
    Fico feliz por revê-la.

  9. Maria Helena Tomaz says:

    Temos que dar um tempo ao nosso “tempo”: tempo de trabalho, de indagações, de trânsito,de problemas inesgotáveis, do cansaço acumulado, de correrias sem fim que consideramos imprescindíveis… Ao ler a crônica muito bem elaborada e “muito saborosa” por nossa caríssima amiga me reporto as certezas que acabei de registrar… E assim, vou me identificando pouco a pouco com os registros contidos nela, já que tive o privilégio de participar do mesmo cenário tão vivamente destacado nas linhas e entrelinhas. Sou uma dessas pessoas que passeando pela Rua Felipe Schimidt com minha filhota me hipnotizei pelo som, pelas cores, pelos gestos, pelo desprendimento, pela simplicidade, pela cultura do belo, pelo toque profundo que “imobilizou” a muitos que estavam na pressa do cotidiano.
    Realmente, perceber, sentir, apreciar e dividir com outras pessoas as delícias que se perdem na “loucura” do nosso cotidiano é uma verdadeira benção para o espírito humano!!!
    E ter alguém que nos estimule para tal exercício de leitura perceptualé melhor ainda!!!
    Amei!!!

  10. marcelo says:

    Ola. Gostei muito de ler , a sua crônica sobre os indios. Que estão muitas das vezes nas nossas cidades, mostrando a sua cultura para nós, e agente pela correria do dia a dia não prestamos atenção, nessas pessoas que vem de longe, para tentar ganhar a vida tão longe de casa. parabens.

  11. Tania Unlgaub says:

    Lange,
    Essa olhar de pesquisador da história do tempo presente, que descreve o cotidiano urbano de forma poética dá o tom nostágico e belo às crônicas aqui disponibilizadas. Amiga você nos faz perceber o mundo que estamos esquecendo de ver, admirar e sentir. Continue com este lindo trabalho que nos ajuda a parar, respirar e viver. Parabéns.

  12. Angelita says:

    Lange… Li todas as suas crônicas ( aqui no site)
    Estou encantada com sua facilidade em transpor através das palavras o que sentimos andando pela nossa querida “Desterro”..
    Suas Crônicas são sútis, mas nem por isto deixam de abordar a reflexão em torno do nosso “corrido” e “concorrido” cotidiano..
    Serei sua leitora constante.
    Continue nos agraciando com seus textos. Parabéns!

  13. Fernando Tizon says:

    URGENTE!!

    Preciso entrevistar você, não encontrei seu e-mail, por favor me escreva!!

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