Campanha política no rádio

Eleições | Influência da Mídia

Atendendo à convocação do amigo Antunes Severo, quero colocar minhas observações sobre os meios de comunicação nas campanhas políticas. Até por se tratar especificamente da minha área, vou me ater mais ao rádio. Como regra geral o rádio é o meio mais mal utilizado em campanhas políticas se compararmos com todas as outras mídias usadas. A mídia da moda é a internet, com a possibilidade de suas malas diretas, seus blogs, seus informativos, sua interatividade com o internauta. O retorno dessa mídia ainda não está devidamente avaliado e estas eleições poderão servir de parâmetro, já que, pela primeira vez esse meio é usado com mais agressividade. A televisão mantém seu padrão habitual, engessada pelas regras que a lei eleitoral impõe e já saturou. Até a audiência da programação normal das televisões abertas vêm caindo assustadoramente e o desinteresse pelo horário político é notório. Os painéis (outdoor) estão proibidos, mas os candidatos burlaram a legislação espalhando pelas ruas painéis improvisados, emporcalhando mais ainda as cidades. Também não conseguem sensibilizar mais o eleitor.

A verdade é que a motivação do eleitor está no conjunto de informações que ele recebe pelos diversos meios de comunicação, como internet, rádio, televisão, revistas, jornais, blogs e formadores de opinião. A construção do pensamento, da opinião, da tendência, se dá diariamente, durante muito tempo e o momento eleitoral já não consegue alterar percepções consolidadas. Essa tendência modifica a atuação dos partidos e apenas o PT teve essa percepção, utilizando essa massificação durante os últimos oito anos.

 Sobre o rádio

Geralmente os gênios do marketing utilizam o rádio para o “trabalho sujo” de ridicularizar o adversário com peças humorísticas ou agressões inconseqüentes. Tratam o ouvinte como um agente de segunda classe, com desrespeito e preconceito.

São investidos milhões de reais em programas de TV que são assistidos por menos de 1/5 dos telespectadores habituais e o rádio é sempre subutilizado, sem uma estratégia adequada pelo absoluto desconhecimento pelas empresas de publicidade de marketing político desse meio tão importante e pelo engessamento que a lei impõe, quando obriga uma cabeça de rede para distribuir a programação eleitoral.

No interior do Brasil, sobretudo nos municípios mais afastados, a televisão é captada por parabólicas. Portanto, os programas políticos exibidos nada têm a ver com os candidatos daquela região. Em contra partida, o rádio é totalmente local e tem uma importância vital na audiência geral, fato ainda não avaliado devidamente pelas empresas de marketing político e ignorado pela legislação que precisa ser mais flexível, adaptando-se aos novos tempos.

Esta avaliação se estende ao horário político corrido, tradicional e aos comerciais de cada coligação espalhados pela programação, estes sim de fundamental importância para a campanha política.

Vamos ver:

1 – Enquanto na televisão o telespectador precisa se imobilizar para assistir o programa eleitoral, ou seja, tem de ficar ali, sentado, assistindo um programa que lhe é imposto, no rádio ele recebe essa programação involuntariamente, no carro, em casa, no boteco, em qualquer lugar.

2 – Enquanto os panfletos são esquecidos e jogados fora 30 segundos depois de recebidos pelo leitor, no rádio a mensagem percorre toda a programação, podendo ser ouvida diversas vezes por públicos distintos.

3 – Enquanto nos palanques, debates e reuniões com formadores de opinião (eventos necessários, é verdade) apenas algumas centenas de pessoas têm acesso às idéias dos candidatos, no rádio esta informação está aberta o dia todo para os milhares de ouvintes de todas as faixas sociais.

4 – Enquanto os meios de comunicações editam e transmitem suas informações sobre os candidatos, conforme seus interesses políticos, no rádio a mensagem é transmitida conforme a elaboração da equipe de campanha, levando a informação desejada ao público ouvinte.

Qual é o problema então?

1 – Os programas são lineares, feitos para todas as rádios, todas as regiões e todos os públicos, com a mesma linguagem. Os marqueteiros colocam ai discursos, frases de efeito, proselitismo equivocado e todo o lixo que não é aproveitado na TV. Isso é fruto do desinteresse, da contratação de uma equipe minguada de profissionais apenas razoáveis que ficam à margem do núcleo de campanha, que não decidem, que não opinam, geralmente adaptando o programa de TV ao rádio. Os agentes publicitários desconhecem a linguagem radiofônica e seu potencial. O que deveria acontecer é que a produção dos programas políticos pudesse gravar programas radiofônicos voltados para cada região, para cada grande cidade, para os diversos tipos de público, conforme o perfil da programação de cada rádio. É importante citar que o próprio governo federal, através de sua assessoria de comunicação tem um interessante estudo sobre as diversas rádios e seus perfis e utilizou isso muito bem no transcorrer dos últimos anos. O resultado é a imensa popularidade do atual governo junto às diversas camadas da população e, estejam certos, o rádio bem utilizado teve grande influência nisso. Assim, se numa determinada cidade, importante naquela região, o adversário é mais forte, as emissoras locais terão de transmitir um programa que reverta essa influência. Essa arma deveria ser mais bem estudada e aplicada, já que a internet aproxima todas essas rádios à produção de campanha que precisaria ter uma equipe de profissionais para enviar os programas, ao mesmo tempo em que cria mecanismos eficientes para monitoração e verificação da transmissão. Para os céticos, que acham essa possibilidade inviável, quero dizer que já fiz experiências em Alagoas e Sergipe, com resultados muito interessantes. Dá mais trabalho, mas o resultado é excitante.

2 – Os programas radiofônicos precisam ser mais atraentes, envolventes. Precisam ter uma linguagem própria, utilizar todos os recursos que só o rádio permite, do radio-teatro, do humorismo inteligente, das edições bem feitas, da sonoplastia, das entrevistas com as comunidades, do jornalismo participativo, da utilização adequada de vozes e padrões. O jornalismo comunitário é essencial. Todos querem se ouvir no rádio, todos querem ouvir o nome de sua comunidade e seus conhecidos no rádio, todos querem ouvir suas sugestões e reclamações divulgadas. Já imaginaram como ficariam satisfeitos os moradores da região do Araguaia se ouvissem em sua emissora de rádio local um candidato a presidente falando das soluções para sua região, conversando com uma liderança local, citando lugares que eles conhecem?

Creio, por fim que esta campanha poderá ser um divisor de águas no processo eleitoral. A melhor utilização das mídias, a avaliação de seus potenciais particulares, das características de cada meio e a ousadia em mudar e inovar.

J. Pimentel, criou-se ouvindo rádio até que em 1964 iniciou a carreira carreira nas rádios Cultura e Difusora da rede dos Diários e Emissoras Associados, em São Paulo. Foi coordenador, dentre outras, das rádios Piratininga, América, 9 de Julho, Transamérica e Cidade de Salvador. Radialista, publicitário especializado em marketing político no rádio e produtor executivo. Visite as crônicas ou envie um e-mail.

1 responder
  1. Vera Lúcia Correia da Silva says:

    Caro Pimentel,
    Feliz retorno ao espaço desse querido blog.
    Adoro ler seus comentários, sempre pertinentes, apesar de mordazes.
    Escreva sempre, pois vc o faz co muita competência.
    Abraços de
    Vera Lúcia

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