Canal Memória, um alerta

Canal Memória é um programa destinado a nossa história.  Uma história que a cada ano que passa perde suas raras fontes, seus documentos e suas lembranças.  Longe de falsos proselitismos e sem querer exibir pérolas raras da cultura catarinense, o programa Canal Memória, produzido pelo Núcleo de Produção da TVUFSC é, sobretudo, um alerta aos interessados nesses patrimônios culturais.

Cineasta Zeca Nunes Pires

Cineasta Zeca Nunes Pires

O audiovisual, assunto da maioria dos 19 programas dessa primeira etapa, é um exemplo desse aviso.  Do final dos anos 1920 e da década de 1930,  restaram cerca de duas horas de imagens realizadas pelos pioneiros José Julianelli e Alfredo Baumgarten. Os filmes originais de Julianelli estão com Marcondes Marchetti, a quem devemos,  juntamente com o pesquisador Valencio Xavier (falecido em 2008), a salvaguarda dessas imagens.

A Cinemateca Brasileira, referência na preservação de filmes, possui contratipos dessas imagens, mas o acesso do pesquisador aos filmes ainda é precário. Os filmes de Baumgarten estão também salvaguardados pela Cinemateca Brasileira.   Grande parte desse acervo precisa ser recuperado e telecinado para ser colocado à disposição do pesquisador. Do final dos anos 1930 e início da década de 1940, existem cerca de uma hora e 30 minutos de registros, a maioria filmada na Ilha de Santa Catarina por  Edla von Wangenheim, considerada a primeira cineasta catarinense.

Este acervo  – guardado  em condições inadequadas, na casa do neto de Edla, Aldo von Wangenheim -, está  necessitando de higienização,  telecinagem  e do depósito dos mesmos na Cinemateca Brasileira. Trata-se de um rico material que poderia também estar à disposição de estudiosos. Nos anos 1950, os registros cinematográficos aumentaram no estado catarinense. A partir de 1953 até o início da década de 1980, o comerciante Willy Sievert filmou os principais acontecimentos de Blumenau.

Sievert deixou um legado de cerca de 70 horas, guardado pelo neto  Sávio Luiz Abi-Zaid no seu escritório de arquitetura. O material encontra-se em razoável estado de conservação, mas como não está digitalizado, a cada projeção deteriora-se um pouco mais. O fotógrafo Waldemar Anacleto filmou em 1956 o incêndio da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, para os cinejornais da Herbert Richers, onde pode  estar  todo o copião do episódio que destruiu uma das mais belas edificações da Ilha. O enterro do governador Jorge Lacerda filmado em junho de 1956 por Anacleto, com a Praça XV lotada de pessoas, é uma bela homenagem ao ilustre Jorge Lacerda.  O município de Nova Trento, com José Poli, ganhou vários registros da cidade e uma ficção, também nos anos 1950. Os originais estão com Poli. Em 1957, com o Grupo Sul, foi realizado o primeiro longa-metragem de Santa Catarina. Totalmente rodado em Florianópolis, restam apenas sete minutos do filme precariamente telecinado e com duração original de uma hora e 20 minutos.

O cinegrafista José Hamilton Martinelli revelou, numa entrevista em 2002, que filmou aproximadamente 200 cinejornais para as Produções Carreirão. Desse acervo,  cerca de 30% estão no MIS-SC necessitando de telecinagem para ser colocado ao dispor dos pesquisadores. Os filmes do GUCA, fotografados por Gilberto Gerlach, devem estar guardados também em lugar inadequado e necessitando de uma telecinagem, pois as cópias em DVD que circulam por aí não têm uma imagem de boa qualidade em relação ao filme original.

Os filmes mais recentes do início da TV em Santa Catarina (filmados em 16 mm) perderam-se junto com a demolição do prédio da TV Cultura, na rua Bocaiúva, em Florianópolis. Da época do analógico aos atuais filmes da era digital, os formatos se sobrepuseram a cada inovação tecnológica – passando pelas bitolas profissionais ou semi como uma polegada; U-Matic; vhs; Svhs Beta; mini-dv; DVD  e outras.

O avanço tecnológico de processamento de sinais eletrônicos, analógicos ou digitais, para capturar, armazenar e transmitir ou apresentar imagens não foi atualizado pela maioria dos acervos de imagens com a mesma rapidez da tecnologia, gerando uma sucessão de inúmeros formatos e um acervo de imagens ricas e diversificadas em seus conteúdos e origens, mas de certa forma confundindo a preservação dos acervos.

Este é um retrato da memória audiovisual  para o qual o Canal Memória tenta alertar:  para que sejam preservadas as imagens que sobreviveram ao tempo.  Mas esse estado não é apenas “privilégio” do audiovisual. A Ponte Hercílio Luz, nosso maior monumento, está a 31 anos fechada.

A maioria de nossos  acervos está sem recursos para acompanhar as vantagens e possibilidades cognitivas e de socialização geradas pelos avanços da tecnologia.  A boa iniciativa da Casa da Memória, em Florianópolis e a Biblioteca do Estado de Santa Catarina, criada em 1854, esbarram na falta de infraestrutura e de recursos, sobrevivendo muito mais pela obstinação dos seus funcionários. As novas tecnologias que permitem ao pesquisador não se deslocar do oeste de SC ou de outro estado para ter acesso ao maravilhoso acervo de obras raras da biblioteca pública estadual, que se deteriora a cada dia, estão longe de ser implantadas.

No entanto, há sempre uma  luz no final do túnel. Um exemplo é o Museu da Imagem e do Som, que está sendo construído em Balneário Camboriú pelo empresário Fernando Delatorre e que abrigará, em seus seis andares quase prontos, a maior coleção de equipamentos de imagem e de som do país.

A produção do Canal Memória tem a direção e pesquisa de Zeca Nunes Pires e a gravação e a edição de imagens a cargo dos estudantes do Curso de Cinema da UFSC, Andersson Brito e Jefferson Moreira. A música de abertura é de Silvia Beraldo. O programa intitulado “O documentário político de Silvio Tendler” contou com a participação das estudantes do Curso de Jornalismo da UFSC Giuliane Gava e Dayane Ros na gravação e na edição da entrevista.

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