CÂNDIDO NORBERTO: CARREIRA DO MAIS ANTIGO RADIALISTA GAÚCHO

No início dos anos 40, o bageense Cândido Norberto Santos divide seu tempo entre o estudo e o trabalho como repórter na Folha da Tarde, então um sucesso editorial. Por vezes, acompanha o colega João Bergmann, o J.B., conhecido cronista das coisas de Porto Alegre, à Rádio Difusora Porto-alegrense e vai tomando contato com o veículo que marcará sua trajetória profissional ao longo das sete décadas seguintes. Por Luiz Artur Ferraretto

– O J.B. era locutor da Rádio Difusora e, como nós trabalhávamos juntos na Folha pela parte da manhã, era comum que almoçássemos também juntos e, depois, a partir de um certo momento, continuássemos a conversa na Rádio Difusora, que era a sua “PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense, a sua emissora”. Era o slogan dela. Enquanto rodava um disco e outro, ficávamos conversando dentro do estúdio. Uma tarde, por estas coisas da vida, houve um imprevisto e ele teve de sair urgentemente para atender um telefonema, mas o telefonema se prolongou. Abriu o microfone e o operador fez sinal… E eu li uns textos. A partir daí, fui convidado para fazer locução comercial. Já entrei também como redator de textos comerciais. Logo em seguida, já estava fazendo um comentário chamado O Fato e Algumas Palavras, que ia à noite. Eu não lembro bem a que horas, mas era à noite.


Cândido Norberto.

Da Difusora, tempos depois, Cândido passa a trabalhar na Rádio Gaúcha, ambas as emissoras, na época, sob o controle de Arthur Pizzoli. A versatilidade já marca, então, a carreira do radialista.
– Certa vez, eu saí de um jogo do campo do Força e Luz [time de futebol da empresa que fornecia energia elétrica à capital gaúcha]. Eu estava narrando um jogo de futebol em plena Semana Santa. Saí do campo, larguei o microfone, entrei correndo no estúdio, na rádio, e começamos a tratar da interpretação da vida, paixão e morte de Jesus Cristo. Por sinal, era uma Quinta-feira Santa. Sabe quem era o Jesus Cristo? Eu. Aquele santíssimo homem. [fazendo o sinal da cruz] A paz esteja convosco! Saí da narração estridente de um jogo de futebol para fazer o suave Jesus Cristo. Era algo alucinante.


Grêmio x Nacional.

Como diretor artístico da Rádio Gaúcha, Cândido protagoniza duas iniciativas pioneiras na radiodifusão do Rio Grande do Sul. Numa época de novelas transmitidas duas ou três vezes por semana, ele introduz a irradiação em capítulos diários apresentados na primeira parte do programa Tapete Mágico. A atração faz o sucesso das noites da Rádio Gaúcha, de segunda a sexta, das 20 às 21h, na virada da década de 40 para a de 50. Além disto, em 14 de maio de 1949, Cândido torna-se o primeiro profissional de rádio do Rio Grande do Sul a transmitir um jogo de futebol fora do país, como lembraria cinco décadas depois o jornal Zero Hora:
No outono de 1949, o locutor Cândido Norberto, vestido elegantemente com um terno feito de legítima casimira inglesa, ocupou um lugar nas tribunas de imprensa do Estádio Centenário e transmitiu o amistoso entre Grêmio e Nacional, em comemoração aos 50 años triunfales, o cinqüentenário de fundação do clube uruguaio. Era também o primeiro jogo de um time gaúcho fora do país. O Grêmio venceu por 3 a 1 e ajudou a colocar na história a transmissão de Cândido. Sem satélites, tevês, celulares ou fibras óticas, a narração navegou por ondas curtas, com as linhas da antiga Radional em uma prudente reserva técnica. Sem linha de retorno, como acontecia na época, Cândido só no final soube que a primeira transmissão internacional fora um sucesso.


Os Três Homens Maus (1948).

Nesta fase, fazendo frente à Farroupilha, Cândido contrata, também, Walter Ferreira e Adroaldo Guerra. Junto com eles, cartazes de destaque no rádio porto-alegrense, divide, em 1948, os papéis principais de Os Três Homens Maus, novela de Raymundo Lopes, um grande sucesso junto ao público:
– A coisa chegou a tal extremo de popularidade, de força, que o mais freqüente era encontrar, em qualquer ponto de Porto Alegre, Oficina Mecânica Três Homens Maus, Padaria Três Homens Maus, não-sei-o-que Três Homens Maus…


Adroaldo, Walter e Cândido ensaiando.

Cândido fica conhecido, também, pelo Pensando em Voz Alta, espaço de opinião sempre marcado pela Glenn Miller Orchestra interpretando Moonlight Serenade, que servia de cortina musical. O comentário torna-se um dos tantos trabalhos do radialistas a permanecer na memória dos ouvintes. Décadas depois, numa homenagem ao Dia do Rádio, em 1975, a pedido da produção do programa Opinião Pública, de José Antônio Daudt, na mesma Difusora em que começara sua carreira, Cândido relembraria os tempos de pensar em voz alta, não que deixasse de refletir assim nas três décadas seguintes. Até porque, nem só dos tempos do rádio espetáculo se fez a sua trajetória profissional. Por isto, sobre o Cândido, há que voltar a falar, mesmo, mais adiante. São décadas de rádio e 79 anos de vida completados no dia 18 de outubro deste 2006.
:: Pensando em voz alta


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2 respostas
  1. ELFUNI ZANIOL says:

    A CASA ONDE MORAVA O JORNALISTA CÂNDIDO NORBERTO DEVERIA SER TOMBADA = NOVA SEDE DA CAPORI – CASA DO POETA RIO GRANDENSE FUNDADA POR NELSON FACHINELLI EM 1964.

  2. ELFUNI ZANIOL says:

    A LOCOMOTIVA DO FUTEBOL GAÚCHO

    Não há dúvida de que o Inter seria um grande time sem ele, mas também não há dúvida de que sua presença, nestes cinco anos, elevaram o Colorado a culminâncias insuspeitadas.

    O simples fato de Figueroa estar em Porto Alegre melhorou salários, fez o Grêmio crescer junto, ditou uma completa revisão da tradicional posição gaúcha de inferioridade diante dos grandes clubees do Rio de Janeiro e São Paulo.

    DIVINO FONSECA (PLACAR DA ÉPOCA)

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