Canoa Bordada

Ela já estava na praia quando as primeiras janelas se abriram na pequena vila de pescadores. Passou o dia perambulando, indiferente às pessoas que a observavam curiosas. Naquela época, era pouco comum a presença de estranhos na localidade.

À aproximação da noite, as mulheres já recolhendo as roupas do varal e os homens as redes de pesca, alguém observou que a mulher continuava a caminhar na praia. Intrigados, decidiram que alguém deveria ir falar com ela.

Mestre Pedro foi o indicado não por ser o mais velho entre os pescadores, nem mesmo pela autoridade que detinha como mestre do barco, mas por ser o único homem sem família, assim não corria o risco de deixar mulher viúva, caso ela fosse encantada.

Mestre caminhou apressado observando que a mulher já ia longe. Mantinha o olhar fixo na silhueta entrecortada contra o céu adornado de cores, ocupado em não perdê-la entre os azuis, vermelhos, laranjas, verdes e violetas de todos os matizes. Sabia que na entrada da noite a perderia de vista, por isso caminhava com a cabeça desprovida de pensamentos, o ritmo marcado pelo som da respiração ofegante e pelo barulho dos seus pés na areia.

Finalmente conseguiu se aproximar e a chamou. _ Hei! Ela se voltou e ele se sentiu aliviado, pois, no fundo temia que a estranha estivesse planejando alguma besteira.

Do que se desenrolou, nunca se soube o exato da prosa. O fato é que Mestre Pedro voltou trazendo consigo a estranha. Sem disfarçar a curiosidade, as pessoas ouviram atentas quando ele disse que aquela era a viúva de Mestre Bento, um camarada seu da Armação da Piedade, e que estava errando pelo mundo porque não tinha para onde ir. Todos sabiam o que isso significava.

Pelo código de honra dos camaradas, a viúva de um pescador deve ser acolhida e alimentada pelos outros companheiros, garantido o seu direito na partilha do pescado, como se o pescador vivo fosse e tivesse ajudado na caça.

Aliviados dos seus temores iniciais, todos passaram a ajudar. Por hora ela ficaria no velho rancho onde Mestre Pedro guardava os apetrechos da pesca. Havia ali um catre onde ela poderia se acomodar com algum conforto até que tivessem tempo de construir uma casinhola decente para abrigá-la. Ele se arranjaria no Rancho da Armação. Ela agradeceu com um sorriso tímido o que lhe trouxeram as mulheres: um boião de café coado, a broa de milho, o beiju e a moringa d’água. Mais não havia, pois ali as pessoas se viravam com o peixe e o pouco que colhiam da terra salitrenta.

Era de pouca prosa. Mas aos poucos foi se integrando à rotina da vila e ao trabalho das mulheres; ajudava a carpir, a puxar a rede, a torrar o café e, cumprindo o que é de lei, todo o dia recebia o seu quinhão. Quem o entregava era Mestre Pedro. Como não podia deixar de ser, nem chegaram a construir a casinhola.

Não que houvesse má intenção da parte dele, isso não, que era um homem honrado e, de mais a mais, não era casado, mas, como homem, nunca ficara sem mulher. Nos rápidos encontros diários, ele a chamava de Senhora, já ela o tratava por Mestre. Fora isso, pouco se encontravam. Quando muito se avistavam de longe, ele na lida da pesca, ela na frente do rancho, o bastidor de crivo sobre os joelhos, a bordar. Ele acenava, ela respondia com a mão.

Até o dia em que ele, chegado tarde do mar, foi entregar o pescado fora do horário habitual e a encontrou adormecida dentro da canoa, os cabelos soltos pelos ombros, as mãos em concha sobre o ventre. Foi aí, nesse exato momento, que Mestre Pedro, forjado na fúria do vento e do mar, homem sensível à beleza que enxergava em toda parte, enxergou a beleza daquela mulher estranha. Saiu do rancho apressado, aliviado por não tê-la despertado com sua presença.

O fato é que a partir daquele dia nunca mais a olhou do mesmo jeito. Saber que ela dormia na canoa, algo tão intimamente ligado à sua vida, o deixava excitado, e emocionado E já que a aflição não passava, ele tomou a decisão. Voltaria ao rancho no dia seguinte, àquela hora aproximada.

Como esperado, a encontrou adormecida, na canoa. Deitou-se também, colocando nas mãos de Deus o encaminhamento das coisas, a exemplo do que fazia diariamente com a sua vida. Ela sorriu de olhos fechados, virou de lado abrindo espaço para que ele se acomodasse e disse: _ Demoraste tanto…

Naquela noite, canoa bordada transformada em leito de núpcias, ela, de viúva de Mestre Bento passou a mulher de Mestre Pedro, sem que nunca se soubesse qual o seu verdadeiro nome. A não ser ele, desde o primeiro dia, na praia.

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Por Norma Bruno

Natural de Florianópolis/SC. É graduada em História, pesquisadora, cronista e escritora, autora dos livros A Minha Aldeia e Cenas Urbanas e outras nem tanto. Colecionadora de rendas de bilro e revistas antigas. Filha do radialista e técnico em eletrônica Lourival Bruno, gosta de ouvir rádio desde pequeninha.
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