Carro-de-Cavalo

Manhã de domingo, sessão das dez. Aos cinco anos fui ao cinema pela primeira vez. Meu pai me levou. O filme: Marcelino, Pão e Vinho. Depois fomos ao Gato Preto tomar gasosa. Assim se chamavam os refrigerantes na época. Voltamos para casa, no Saco dos Limões, num carro-de-cavalo. Cinema, gasosa e carro-de-cavalo, minha iniciação em dose tripla!

As caleças ficavam estacionadas rentes à mureta que separava a estrada e o mar da Baía Sul, no trecho que ia do Mictório Público, o Castelinho, ao Hotel Royal. Carro-de-praça de pobre, elas faziam os trajetos não contemplados pelos lanchões e os poucos ônibus em circulação.

Melhor de tudo foi o passeio. Os cavalinhos troteando pela linda estrada que contorna o Penhasco, o céu límpido – ao longe, as montanhas são azuis! – o despenhadeiro e o mar cor de prata. Deslumbrante! E inesquecível.
O futuro chegou, com seu pragmatismo, e decretou que aquele meio de transporte não combinava com a cidade que queria ser moderna a qualquer custo. Na década de 80, eu acho, alguém chegou a reeditar as simpáticas carrocinhas para passeios turísticos. Não deu certo. As pessoas estavam mudadas.

Do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. Florianópolis, 2012.

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Por Norma Bruno

Natural de Florianópolis/SC. É graduada em História, pesquisadora, cronista e escritora, autora dos livros A Minha Aldeia e Cenas Urbanas e outras nem tanto. Colecionadora de rendas de bilro e revistas antigas. Filha do radialista e técnico em eletrônica Lourival Bruno, gosta de ouvir rádio desde pequeninha.
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