Carta aberta a Arlindo Pasqualini

Meu caro Pasqualini:
Escrevo para ti, o Arlindo, o da Rádio Guaíba, o da Folha da Tarde, o Major do apelido ganho nos idos de 1930, do levante gaúcho de Getúlio Vargas. Não se trata, eu sei, mas quero que fique claro, do Alberto, aquele do velho Partido Trabalhista Brasileiro, que batiza a refinaria ali para os lados de Canoas, na divisa com Esteio, região metropolitana de Porto Alegre…

Faço isto para que o saibam tanto os novos daqui como os recém-chegados de outras plagas e que, deste modo, todos tenham algo para honrar em tua memória.
Permita que te trate de meu velho, acho que assim fariam o Flávio Alcaraz Gomes e o Jorge Alberto Mendes Ribeiro, fundadores como tu da Rádio Guaíba. Tenho certeza de que, em sentimento, se não em palavras, te diria “meu velho” o doutor Breno Caldas. Se uns eram teus colegas, ele, o patrão, te tinha não só como amigo, mas como intérprete. Lembra? Vocês, lado a lado, nos passeios pela Rua da Praia, do velho prédio no 219 da Caldas Júnior até a outra ponta, quase na Santa Casa, ambos em um silêncio a reverenciar a amizade e a admiração mútua. Para os recentes no espaço e no tempo deste continente de São Pedro, explico que, para poucos, o “doutor” Breno era, como para ti, apenas “o” Breno.
Sei que havia afinidade até ideológica entre vocês e sei que eu não concordaria e não concordo com as suas posições de então. Sei também que, quando nasci, tu já estavas na outra margem do rio Estige, te banhando nas águas da imortalidade. Só refiro isto para marcar a distância do tempo e do espaço. O tempo – ah! – o tempo… É do tempo que te quero falar. Major, lembra daquela noite em 1957. Todos que cultuam a Rádio Guaíba, deste ou do outro lado do Mampituba, mesmo não tendo nascido então, sabem da promessa daquele sarau de vocês no Theatro São Pedro. Escrevo então para os que não sabem nada a respeito disto e para que o desconhecimento deles não os proteja. Marco, deste modo, Major, as tuas palavras na noite de 30 de abril, auditório lotado na meca da cultura do Rio Grande do Sul:

– Senhoras e senhores. A Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que ora se inaugura aqui no Theatro São Pedro, com a presença para nós tão grata e tão honrosa de todos vós, constitui um empreendimento novo, mas que, embora novo, nasce sob o signo de uma tradição. É que sua vinculação a dois grandes jornais, o Correio do Povo e a Folha da Tarde, lhe traça implicitamente os rumos e a orientação. Tal orientação, como sabeis, é de absoluta independência, a qual tem para nós seus limites naturais e intransponíveis nos princípios da moral e nos imperativos do bem comum. Acerca de nossa programação normal, que deverá ter início amanhã, o que vos posso adiantar, em poucas palavras, é que ela não terá o luxo das grandes montagens. Mas, mesmo quando singela, jamais cairá na vulgaridade.

Foi um belo discurso, ah, se foi! Uma rádio nascia “sob o signo de uma tradição” e sua programação, prometeste, “mesmo quando singela”, jamais cairia na vulgaridade. Pois no dia 5 de outubro deste ano de 2009, a Guaíba entrou em uma nova fase. A sobriedade de outros tempos deu lugar a uma boa dose de sensacionalismo. Sob o comando da rádio já não está um introspectivo, com seus erros e acertos, a te esperar para aquele longo e silencioso passeio pela rua da Praia. São homens e mulheres de fora do Rio Grande que chegaram trazendo esperança. E que não se duvide de suas boas intenções. No entanto, o desconhecimento da história parece flanar pelo vetusto e respeitável prédio da Caldas Júnior, 219. Desconhecimento que pode proteger, mas nunca redimir certos pecados. Poderiam ter feito esta nova rádio, talvez com um novo nome, nos 720 do AM mesmo. Quem sabe Record? Afinal, há também uma tradição de rádio popular no Rio Grande do Sul. E dos bons. E poderiam pegar os 101,3 do FM e, lá, colocar, renovada e pujante, a Guaíba para o novo século. Seria uma medida sagaz e inteligente. Moderna. Nada disto. De troca em troca administrativa, estão desmantelando uma tradição.
Neste devaneio, ainda em choque pelo que fazem cá na Terra, posso ver o Mendes Ribeiro, aí, ao teu lado, balançando a cabeça e repetindo a frase histórica de um jogo da Copa da Suécia:

– Deus não joga, mas fiscaliza! Major, Deus não joga, mas fiscaliza!

Mas não tenhamos rancor, que, dizem, o perdão é o mais belo gesto cristão. Então, perdoemos. Como o pecado é de tal monta, peço, encarecidamente, teu auxílio. Já que andas por aí e te creio mais próximo das chefias celestiais, te peço. Quando o homem aí de cima der uma passadinha por esses teus lados, pede, repetindo Cristo:

– Pai, perdoa-os, porque eles não sabem o que fazem.

Um abraço respeitoso, deste teu admirador aqui, que cresceu ouvindo a Guaíba, aquela dos gols narrados por Pedro Carneiro Pereira e Armindo Antônio Ranzolin, das grandes reportagens de Flávio Alcaraz Gomes, da notícia na voz do grande Milton Jung, das músicas escolhidas a dedo por Osmar Meletti e Fernando Veronezi, das opiniões e entrevistas de Mendes Ribeiro e Amir Domingues e destas reticências que representam todos que esqueci neste momento de consternação… Ah, e que respeita e admira muito a equipe que manteve viva, até aqui, esta chama, com competência e dedicação no jornalismo, no esporte, na técnica… E lembro que heresia, meu velho, também é pecado! E dos grandes…

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