Casa Eléctrica- Disco Gaúcho

Em 1913, na cidade de Porto Alegre-RS, no bairro Teresópolis, na Avenida Sergipe, nº.9, existiu a fábrica de discos, que tinha a etiqueta DISCO GAÚCHO, produzidos para a CASA A ELÉCTRICA, situada na Rua dos Andradas, 302, no centro da cidade, ambos estabelecimentos de propriedade de Savério Leonetti, imigrante italiano, vindo da Calábria, que se instalou na capital gaúcha.

Fábrica de Discos GaúchoO lançamento do selo DISCO GAÚCHO foi registrado em 2 de julho de 1913, sob o nº.2230, na Junta Comercial de Porto Alegre e publicada no Jornal A Federação, de 4 de julho, com os seguintes dizeres:

“a presente marca comercial “DISCO GAÚCHO” é constituída por um rótulo em papel cor-de-rosa, em forma esférica, dividida ao centro, destacando-se na parte superior o desenho de um escudo de formas irregulares, no qual está a figura de um gaúcho montado a cavalo, tendo na frente deste um cão; o gaúcho tem um palla atravessado sobre a cabeça do lombilho, na frente, e um lenço a tiracolo, e a esquerda a palavra DISCO e à direita: GAÚCHO. Ao fundo do referido plano, vê-se ainda, uma campina cortada à direita por uma estrada, campina que vai terminar ao longe sobre as costas de um rio, cuja floresta se divisa.

O plano inferior,é todo em branco para nele serem escritos os títulos e número e música correspondente a cada disco, achando-se no centro da esfera e respectivo orifício por onde deverá ser ligada a chapa ao gramofone e em baixo em semi-círculo as palavras: Disco gravado pela Casa “A Eléctrica” – Porto Alegre.

Esta marca, sobre papel e tintas de quaisquer cores e podendo variar, também em dimensões, criada e adotada pela firma comercial Savério Leonetti, casa importadora “A Eléctrica” estabelecida à rua dos Andradas, nº.302, desta Capital, será empregada em discos simples para gramofone de sua importação e comércio.

Porto Alegre, 23 de junho de 1913
p.p. Savério Leonetti
Oscar Bernhardt”

No Diário Oficial do Distrito Federal, de 18 de julho de 1913, consta a certidão de registro da marca de discos para gramofone – GAÚCHO – depositada por Savério Leonetti na Junta Comercial de Porto Alegre, sob o nº.2230. Nesta época faziam-se apenas gravações em Porto Alegre: os discos eram todos prensados na recentemente inaugurada Fábrica Odeon do Rio de Janeiro. O início das gravações, feitas por Leonetti com propósito industrial, foi noticiada na edição de 7 de junho de 1914 do jornal Correio do Povo:

“… já se acham prontas as instalações da fábrica de discos para gramofones dos srs. Leonetti e Cia.

Será hoje iniciado o serviço de gravação com a banda de música do estabelecimento.

Amanhã, deverá ser feita a experiência dos maquinismos.

A fábrica dos srs. Leonetti e Cia. funcionará à rua Sergipe, no arrabalde de Teresópolis.”

Disco Gaúcho - Saudades de Olga

Disco Gaúcho – Saudades de Olga

Antes mesmo da inauguração da fábrica, o movimento de gravação já era intenso. A imprensa, atenta à atividade pioneira de Savério Leonetti, noticiava tudo que acontecia. Encontramos em vários jornais, e com frequência, notícias como esta publicada pelo jornal Correio do Povo de 23 de julho de 1914:

“Discos GAÚCHO – o grupo “Terror dos Facões”, desta capital, executou ontem na fábrica de discos GAÚCHO vários trechos musicaes que foram apanhados para serem gravados para a casa A Eléctrica”.

A inauguração da fábrica consolidou o processo de registro sonoro em termos industriais. O mesmo Correio do Povo, a 2 de agosto de 1914, relata:

“Realizou-se, ontem, a inauguração da fábrica de discos para gramofone, denominada GAÚCHO e de propriedade dos srs. Savério e Cia., de cuja firma faz parte o capitão Savério Leonetti, proprietário da Casa A Eléctrica, à rua dos Andradas, nº.302.

Essa fábrica instalada recentemente é a segunda no gênero existente no Brasil.

A inauguração efetuou-se às 15 horass e a ela assistiram, além dos representantes da imprensa local, o Cônsul da Itália Cav. Beverini, o General João Batista Mena Barreto e outras pessoas.

Depois de demorada visita à fábrica em que foram mostradas aos presentes todas as dependências do estabelecimento, passou-se a uma experiência que deu os melhores resultados.

Essa experiência consistiu na gravação de diversos discos, com discurso pronunciado por um dos presentes e com números de música executados por um quinteto da Brigada Militar do Estado.

Assim que terminava cada parte, o disco era passado num aparelho em que se reproduziam, nitidamente, os sons apanhados.
Os visitantes assistiram aos trabalhos de fundição dos discos, mostrando-se agradavelmente impressionados com o funcionamento das modernas máquinas do estabelecimento.”

Entre a inauguração da fábrica e os primeiros discos postos à venda não se passou mais de uma semana. As notícias na imprensa, do dia 5 de agosto, diziam que:

“… já se acham expostos à venda na Casa A Eléctrica os seguintes discos recentemente gravados na fábrica dos srs. Leonetti e Cia.”

Disco Gaúcho

Disco Gaúcho

Segue-se uma lista de 15 gravações:

515 – Saudações da família – valsa
519 – Vassourinha – xote
521 – Uma manhã na roça
525 – Isto é fita
526 – Uma encrenca num bar – cômico
527 – Maria – xote
528 – Um triste adeus – valsa
529 – Saudade de Ivo – xote
530 – Não quero assim – polca
533 – Admiração de dois mambiras na capital – cômico
537 – Boi Barroso – duetto
Tesouro meu – valsa
Flor da primavera – valsa
Brigada Militar – dobrado
Discurso de Carlos Cavaco ao povo no dia de sua liberdade

A estas seguiram-se muitas outras relações, geralmente publicadas nos jornais.

As instalações apropriadas para gravação e prensagem de discos, montadas pela Casa A Eléctrica, abriram caminho para conquista do mercado de língua espanhola na América do Sul, que foi uma das glórias gaúchas. E abriram auspiciosamente com a contratação de Francisco Canaro, o mais importante personagem musical do cenário platino, para a gravação do primeiro disco de tango da História. Com o selo DISCO GAÚCHO e o número 001, que se prensou e gravou “El Chamuyo, que no selo saiu interpretado por F. Genaro, ao invés de F. Canaro, numa das faces e El Desalojo, interpretado por A. Gentile, na outra. O Sr. Nuno Alvares Pereira de Almeida, de Porto Alegre, possui o disco da série 001.

A façanha de Savério Leonetti é quase inacreditável, levando-se em conta que Buenos Aires era, na época, uma das mais sofisticadas metrópoles da América e do mundo. Mesmo assim, a capital argentina não tinha uma gravadora e Porto Alegre, sim.

O selo PHOENIX, lançado em 1914, também foi fabricado por Savério Leonetti, exclusivamente para a Casa Edison, de Gustavo Figner, em São Paulo. A Casa Edison tinha como objetivo a importação de gramofones e fabricação de discos musicais.

Alguns meses após o início das atividades da Fábrica, Savério Leonetti teve seu primeiro problema judicial, justamente com quem tinha mantido, até então, grande intercâmbio comercial. A prensagem de um disco, cuja música Cabocla de Caxangá integrava o leque de direitos autorais pertencentes a Fred Figner, irmão de Gustavo Figner, deu origem a um processo de busca e apreensão que se estendeu até ao Supremo Tribunal. O Correio do Povo de Porto Alegre, na edição de 26 de março de 1915, publica nota sobre esta apreensão:

“Pelo Dr. Luiz José de Sampaio, juiz federal, a requerimento de Fred Figner, negociante no Rio de Janeiro, foi expedido mandado de appreensão de discos gramophonicos com a música da canção Cabocla de Caxangá, fabricados e expostos à venda, nesta Capital, pelo capitão Saverio Leonetti, proprietário da fábrica de discos Gaúcho. Foram appreendidos, pelos officiaes de justiça encarregados da diligencia, 12 discos na CasaA Eléctrica, e 13, com as matrizes, na fábrica Gaúcho, à avenida Sergipe, nº.9, em Therezopolis.”

1º tango gravado e prensado na América Latina - 1915

1º tango gravado e prensado na América Latina – 1915

A edição do dia seguinte, 27 de março de 1915, traz novas informações:

“Infracção de direitos autoraes – Como ontem noticiamos, a justiça federal, a requerimento da firma Fred Figner, do Rio de Janeiro, apreendeu, nesta capital, vários discos com a música da “Cabocla de Caxangá”.

O Dr. Carlos Lisboa Ribeiro, advogado daquela firma, vae propor uma ação de indenisação por perdas e danos, contra os fabricantes de discos de gramofone com aquela música.”

No estabelecimento de Savério Leonetti foram gravados e prensados discos, num período aproximadamente de quatro anos, vendendo-os na sua loja, num pioneirismo até hoje pouco reconhecido.

Savério Leonetti também distribuiu seus discos por outros estados brasileiros.

Os gêneros gravados foram: tangos, sambas, valsas, mazurkas, polkas, havaneiras, dobrados, modinhas, xotes, além de discursos políticos e arranjos cômicos.

Dentre os grupos que gravaram para o selo Gaúcho, destacam-se: Infernal, Bailante, Choroso, Gaúcho, Terror dos Facões, Fanáticos, Lira, Chayense, Hamburguez.

Dos cantores, destacam-se: Os Geraldos, Arthur Budd, Duarte e Sra. Augusta, Fred Bernardi, Pitoco.

Savério Leonetti também gravou músicas de artistas do Rio de Janeiro, de São Paulo e até de artistas estrangeiros.

De acordo com o pesquisador Paixão Côrtes, já foram arrolados mais de 436 produções, sendo que em torno de 200 discos foram editados com gravação de apenas um lado (uma música por disco) e os outros discos continham duas músicas.

Na capa dos discos GAÚCHO estava impresso:

“Não confundir: Esta casa é a que mantém o maior sortimento de artigos phonographicos no Estado”

“Gramophones, discos e agulhas, artigos eléctricos e brinquedos”

“Único fabricante dos afamados gramophones marca “ELÉCTRICA” e DISCO GAÚCHO”

 

Bibliografia:
– Livro Registro Sonoro por Meios Mecânicos no Brasil – 1984 – Autor: Humberto M. Franceschi, Editora: Stúdio HMF Ltda.
– Jornal A Federação, de Porto Alegre-RS
– Jornal Correio do Povo, de Porto Alegre-RS

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